

Rever o emprego do termo "semianalfabeto" para Carolina Maria de Jesus


Rever o emprego do termo "semianalfabeto" para Carolina Maria de Jesus
O problema
Há anos, a academia tem promovido estudos, no âmbito das ciências humanas e linguagens, sobre o processo de desconstrução do patriarcado e das instituições elitistas. Essa prática tem se acentuado nos últimos vinte anos nos estudos literários, dando voz às autoras e autores que por décadas foram silenciados.
Dizemos isso porque ficamos incrédulos e nos sentimos, inclusive, agredidos quando nos deparamos com uma questão do vestibular dessa instituição, UEM - Universidade Estadual de Maringá, de renome em vários aspectos, usando o termo “semianalfabeta” para a escritora Carolina Maria de Jesus (questão 14, alternativa 02). Um termo extremamente pejorativo para uma escritora que faz pleno uso da linguagem enquanto prática social. Essa visão, colonizadora, é um erro, tanto no aspecto linguístico, quanto no literário.
Reduzir a produção literária de Carolina Maria de Jesus e sua identidade conferindo a ela o estigma de semi-analfabeta, evidencia o quanto as instituições que são socialmente prestigiadas insistem em reproduzir um padrão hegemônico e eurocentrado. A referida universidade ignora os estudos do letramento em uma perspectiva sociocultural, que há décadas argumenta em favor dos usos sociais da escrita e do discurso anti-hegemônico sobre as práticas de leitura e escrita nas diversas esferas sociais, inclusive a acadêmica. Para além das questões relacionadas às práticas de letramento, das quais evidentemente Carolina fez e faz parte, caracterizá-la dessa forma ignora toda a subjetividade implicada em sua escrita, o que evidencia a urgência em decolonizar a academia.
São vários os pesquisadores que esclarecem que essa terminologia é inadequada e não é de hoje. Valerio (2020), por exemplo, é uma delas. Em vários excertos do livro Quarto de Despejo fica nítido que, embora não tivesse frequentando a educação básica, o ensino regular formal, a autora:
desenvolveu a habilidade de administrar situações cotidianas por meio de recursos orais. Não era uma “analfabeta”, passiva, incapaz de ler o mundo, de pensar mais abstratamente, menos crítica ou menos capaz de refletir sobre as fontes de sua opressão política, mas atuava ativamente. Posicionava-se, denunciando a situação na qual viviam os negros e as mulheres na época, porque estava inserida em um contexto com outros tipos de letramentos (p. 41-43)
Acreditamos, signatários dessa carta, professores da educação básica e da universidade, que quando uma universidade faz a escolha do livro, cabe a ela estar por dentro das pesquisas que a envolvem, sobretudo quando se refere aos textos que um dia foram marginalizados. Cabe a instituições como a UEM policiar-se com palavras que degradam a imagem dessa autora que foi invisibilizada. E não podemos nos calar. Discutir e conscientizar são os primeiros passos para que assim possamos seguir com o processo de desconstrução.

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O problema
Há anos, a academia tem promovido estudos, no âmbito das ciências humanas e linguagens, sobre o processo de desconstrução do patriarcado e das instituições elitistas. Essa prática tem se acentuado nos últimos vinte anos nos estudos literários, dando voz às autoras e autores que por décadas foram silenciados.
Dizemos isso porque ficamos incrédulos e nos sentimos, inclusive, agredidos quando nos deparamos com uma questão do vestibular dessa instituição, UEM - Universidade Estadual de Maringá, de renome em vários aspectos, usando o termo “semianalfabeta” para a escritora Carolina Maria de Jesus (questão 14, alternativa 02). Um termo extremamente pejorativo para uma escritora que faz pleno uso da linguagem enquanto prática social. Essa visão, colonizadora, é um erro, tanto no aspecto linguístico, quanto no literário.
Reduzir a produção literária de Carolina Maria de Jesus e sua identidade conferindo a ela o estigma de semi-analfabeta, evidencia o quanto as instituições que são socialmente prestigiadas insistem em reproduzir um padrão hegemônico e eurocentrado. A referida universidade ignora os estudos do letramento em uma perspectiva sociocultural, que há décadas argumenta em favor dos usos sociais da escrita e do discurso anti-hegemônico sobre as práticas de leitura e escrita nas diversas esferas sociais, inclusive a acadêmica. Para além das questões relacionadas às práticas de letramento, das quais evidentemente Carolina fez e faz parte, caracterizá-la dessa forma ignora toda a subjetividade implicada em sua escrita, o que evidencia a urgência em decolonizar a academia.
São vários os pesquisadores que esclarecem que essa terminologia é inadequada e não é de hoje. Valerio (2020), por exemplo, é uma delas. Em vários excertos do livro Quarto de Despejo fica nítido que, embora não tivesse frequentando a educação básica, o ensino regular formal, a autora:
desenvolveu a habilidade de administrar situações cotidianas por meio de recursos orais. Não era uma “analfabeta”, passiva, incapaz de ler o mundo, de pensar mais abstratamente, menos crítica ou menos capaz de refletir sobre as fontes de sua opressão política, mas atuava ativamente. Posicionava-se, denunciando a situação na qual viviam os negros e as mulheres na época, porque estava inserida em um contexto com outros tipos de letramentos (p. 41-43)
Acreditamos, signatários dessa carta, professores da educação básica e da universidade, que quando uma universidade faz a escolha do livro, cabe a ela estar por dentro das pesquisas que a envolvem, sobretudo quando se refere aos textos que um dia foram marginalizados. Cabe a instituições como a UEM policiar-se com palavras que degradam a imagem dessa autora que foi invisibilizada. E não podemos nos calar. Discutir e conscientizar são os primeiros passos para que assim possamos seguir com o processo de desconstrução.

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Os tomadores de decisão
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Abaixo-assinado criado em 29 de maio de 2021