

O carnaval, enquanto expressão cultural e patrimônio imaterial, não pode ser convertido em território de ameaça, medo e censura de fato, nem pode servir de ambiente permissivo para a normalização de condutas que degradam a liberdade de imprensa, a dignidade do trabalhador e o direito da sociedade de receber informação sobre um evento público-cultural. Quando a violência e o constrangimento se instalam como método, o que se destrói não é apenas um indivíduo; destrói-se a própria legitimidade do ambiente cultural como espaço público de fruição, trabalho e convivência, substituindo o rito coletivo da festa por um regime tácito de intimidação que corrói a confiança social e rebaixa o samba à condição de território capturado pelo medo
Jornalista foi agredido por integrantes da Mangueira na Marquês de Sapucaí
No ensaio da Estação Primeira de Mangueira realizado na Marquês de Sapucaí, ocorreu o inimaginável: um jornalista, no exercício regular de sua atividade, foi agredido e constrangido por integrantes vinculados à agremiação. A gravidade do episódio não reside apenas no ato em si, mas no seu significado histórico e simbólico: a mesma escola que, em 2019, denunciou as barbáries dos porões da ditadura militar, não pode tolerar, em pleno espaço público, práticas que reproduzem a lógica da coação, do silenciamento e da censura. O que torna o fato ainda mais vergonhoso é que a agressão se deu diante de milhares de pessoas, em ambiente integralmente exposto, documentável, conectado e com ampla capacidade de difusão, o que evidencia que os agressores atuaram com a sensação de impunidade e de proteção política interna, como se o constrangimento e a violência fossem toleráveis quando dirigidos contra quem informa e testemunha.
A Nota Oficial divulgada pela agremiação não repara o dano institucional: ao contrário, aprofunda-o. Quando uma gestão, diante de um fato público e grave, escolhe uma redação evasiva, desresponsabilizadora e orientada a diluir a gravidade do ocorrido, ela não administra crise, ela institucionaliza a omissão e legitima a repetição.
A ausência de assinatura, o deslocamento retórico da responsabilidade para setores operacionais e a tentativa de enquadrar a agressão como “descontrole” de rotina revelam não liderança, mas comando defensivo, incapaz de assumir o peso ético e político da própria função. Liderança se mede pela capacidade de proteger direitos, reconhecer erros, produzir correção efetiva e garantir que a dignidade humana e o livre exercício do jornalismo sejam princípios inegociáveis; quando isso não ocorre, o que se tem não é direção moral da instituição, mas gestão de conveniência.
Por essa razão, é indispensável retomar e intensificar o repúdio público a essa barbárie e produzir desagravo integral ao jornalista, reafirmando que não há justificativa cultural, disciplinar ou organizacional que autorize agressão, coação ou tentativa de censura em evento público.
A resposta institucional minimamente responsável exige reconhecimento explícito do fato, apuração interna séria e transparente, responsabilização de envolvidos com medidas compatíveis com a gravidade da conduta, compromisso público de não repetição e revisão imediata de protocolos de atuação para garantir que a Marquês de Sapucaí, a quadra e todos os espaços de atuação da agremiação sejam ambientes seguros para trabalhadores, público e imprensa. Uma nota que atenta contra a inteligência do público e contra o razoável não protege a Mangueira; ela expõe a escola ao descrédito e humilha sua história diante do povo que a legitima.
A permanência de Guanayra na presidência tornou-se institucionalmente insustentável e politicamente incompatível com a responsabilidade de conduzir uma agremiação que é patrimônio vivo do povo, pois uma gestão que não assegura o ambiente mínimo de respeito, que reage a fatos gravíssimos com notas evasivas e que trata a crise como questão operacional revela incapacidade objetiva de liderar, de proteger direitos e de preservar a legitimidade pública da Estação Primeira de Mangueira; por isso, impõe-se sua saída imediata, como medida de preservação institucional e de recomposição ética, acompanhada da convocação de novas eleições, com rito plenamente publicizado, transparente e fiscalizável, garantindo igualdade de condições, participação ampla do corpo social, segurança para a imprensa e para os trabalhadores, e um processo que devolva à escola uma direção legitimada pelo voto, pela confiança coletiva e pelo compromisso inequívoco com a democracia interna e a dignidade humana.
FORA GUANAYRA! - ELEIÇÕES JÁ!