PSICANALISTAS CONTRA O FEMINICÍDIO

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O problema

Diante da escalada aberrante das violências contra as mulheres e dos feminicídios, o Projeto Gradiva - clínica psicanalítica para mulheres em situação de violência (Porto Alegre-RS), juntamente com Centro de Proteção e Acolhimento a Mulheres - Cepam - UFRGS (Porto Alegre) representado pela psicanalista Sandra Torossian, o coletivo da Clínica Feminista Antirracista Interseccional - CliFAI - UFRGS (Porto Alegre) representado pela professora, pesquisadora de gênero e saúde mental, fundadora da CliFAI, Simone Paulon, o Instituto Espaço Barca Aberta - IEBA (Porto Alegre) representado pela psicóloga Neuziane Ule de Souza, o coletivo da SUR Psicanálise e Intervenção Social (São Paulo) representado pela psicanalista Emília Estivalet Broide, o Grupo de estudos, pesquisas e escritas feministas - GEPEF, a Escola Psicanalítica da Escuta Perifherica - EPEP/CPAPEC - Coletivo de pesquisa Ativista, Psicanálise, Educação e Cultura e Coalizão Queer (Rio de Janeiro) representada pela psicanalista e pesquisadora da  FAPESP, Sara Wagner York, coordenadora do coalizão Queer, Maria Cristina Poli, psicanalista e coordenadora do Coletivo Intervenção - UFRJ (Rio de Janeiro), a psicanalista e ensaista Tânia Rivera (Rio de Janeiro), Debora Tajer, psicanalista, professora na Universidad de Buenos Aires, Co-coordenadora Foro de Psicoanálisis y Género APBA e Thamy Ayouch, psicanalista e professor na Universidade Paris-Cité (Paris-Fr) vem a público propor o seguinte MANIFESTO


PSICANALISTAS CONTRA O FEMINICÍDIO


A partir de nossas experiências de psicanalistas engajados com a cidade, com nossas práticas clínicas que intervêm no mal-estar social, denunciamos, neste manifesto, a dimensão política de um projeto perverso de invalidação e de extermínio de mulheres, do qual as estatísticas de violência e de feminicídios são o resultado.


Como psicanalistas, não podemos não tomar posição, uma vez que Freud aprendeu a ter acesso ao inconsciente escutando mulheres que haviam sofrido violência sexual, que ele considerava estar no núcleo traumático do adoecimento delas. Mesmo se ele modificou sua teoria das neuroses, ele jamais abandonou totalmente esta hipótese clínica, uma vez que em 1924, em suas novas considerações sobre as psiconeuroses de defesa, ele volta a dizer que via exatidão naquelas hipóteses psicológicas do início de seu trabalho. Além disso, ele assinalou muitas vezes, durante sua trajetória, o quanto a sociedade, com sua moral burguesa, patriarcal e religiosa oprimia e adoecia as mulheres.


Entretanto, a violência contra as mulheres, sabemos, antecede em muito o nascimento da psicanálise. Desde a caça às bruxas, no início do Renascimento, quando muitas mulheres camponesas que cultivavam terras comunitárias foram expulsas dessas terras para se transformarem em mendigas e andarilhas, já havia um projeto de extermínio. Aquelas mulheres foram acusadas de pacto com o diabo e de bruxarias, e condenadas à fogueira. Tudo isso para que o capitalismo rural nascente pudesse privatizar as ditas terras. Assim, a bruxa foi a comunista e terrorista de seu tempo. A partir de então, uma guerra mundial contra as mulheres sempre esteve latente, tornando-se cada vez mais manifesta na modernidade e na ultramodernidade capitalista em que vivemos. Assim como as populações negras, as mulheres, que também representam uma camada importante da população mundial e uma força política e social considerável, ficaram na mira do projeto de invalidação e de extermínio do capitalismo contemporâneo. E o fato de hoje as mulheres negras representarem 68 por cento das mulheres violentadas e 62.6 por cento dos feminicídios corrobora a ideia deste projeto de extermínio de mulheres ser parte integrante de um projeto de recolonização capitalista contemporâneo. E uma das molas mestras deste projeto vem a ser o retrocesso da condição das mulheres, reduzindo-as a procriadoras de mais força de trabalho, na mesma medida em que a população negra precisa lutar para não se ver reduzida a uma condição social e cultural meramente utilitária, sem prerrogativas de cidadania. Isso tudo movido pelo discurso de ódio que naturaliza todas as formas de violência, e que somente reconhece um gênero, o masculino, e uma cor, o reduzindo-as a procriadoras de mais força de trabalho, na mesma medida em que a população negra precisa lutar para nao se ver reduzida a uma condição social e cultural meramente utilitária, sem prerrogativas de cidadania. 

Convidamos nossos colegas a lerem a íntegra deste manifesto na nossa página do instagram¹ ou no link abaixo², bem como a assinarem-no, a título de adesão ao conteúdo deste documento. Ao mesmo tempo, convidamos e convocamos a comunidade psicanalítica como um todo a se engajar em formas de intervenção neste sintoma do laço social, produzindo transformações no mal-estar social e reatando, desta forma, com a subversão essencial da psicanálise, a mesma que Freud teve quando decidiu escutar as mulheres. Não existe clínica psicanalítica que não esteja implicada no mal-estar do seu tempo, e o nosso tempo nos convoca a tomar posição, e com muita urgência, a urgência de vida das mulheres, para ainda aqui empregarmos uma expressão freudiana.

 

 

¹Texto na íntegra disponível no link da bio do instagram @projetogradiva

²https://heyzine.com/flip-book/9533d1e01f.html#page/1

 

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Diante da escalada aberrante das violências contra as mulheres e dos feminicídios, o Projeto Gradiva - clínica psicanalítica para mulheres em situação de violência (Porto Alegre-RS), juntamente com Centro de Proteção e Acolhimento a Mulheres - Cepam - UFRGS (Porto Alegre) representado pela psicanalista Sandra Torossian, o coletivo da Clínica Feminista Antirracista Interseccional - CliFAI - UFRGS (Porto Alegre) representado pela professora, pesquisadora de gênero e saúde mental, fundadora da CliFAI, Simone Paulon, o Instituto Espaço Barca Aberta - IEBA (Porto Alegre) representado pela psicóloga Neuziane Ule de Souza, o coletivo da SUR Psicanálise e Intervenção Social (São Paulo) representado pela psicanalista Emília Estivalet Broide, o Grupo de estudos, pesquisas e escritas feministas - GEPEF, a Escola Psicanalítica da Escuta Perifherica - EPEP/CPAPEC - Coletivo de pesquisa Ativista, Psicanálise, Educação e Cultura e Coalizão Queer (Rio de Janeiro) representada pela psicanalista e pesquisadora da  FAPESP, Sara Wagner York, coordenadora do coalizão Queer, Maria Cristina Poli, psicanalista e coordenadora do Coletivo Intervenção - UFRJ (Rio de Janeiro), a psicanalista e ensaista Tânia Rivera (Rio de Janeiro), Debora Tajer, psicanalista, professora na Universidad de Buenos Aires, Co-coordenadora Foro de Psicoanálisis y Género APBA e Thamy Ayouch, psicanalista e professor na Universidade Paris-Cité (Paris-Fr) vem a público propor o seguinte MANIFESTO


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A partir de nossas experiências de psicanalistas engajados com a cidade, com nossas práticas clínicas que intervêm no mal-estar social, denunciamos, neste manifesto, a dimensão política de um projeto perverso de invalidação e de extermínio de mulheres, do qual as estatísticas de violência e de feminicídios são o resultado.


Como psicanalistas, não podemos não tomar posição, uma vez que Freud aprendeu a ter acesso ao inconsciente escutando mulheres que haviam sofrido violência sexual, que ele considerava estar no núcleo traumático do adoecimento delas. Mesmo se ele modificou sua teoria das neuroses, ele jamais abandonou totalmente esta hipótese clínica, uma vez que em 1924, em suas novas considerações sobre as psiconeuroses de defesa, ele volta a dizer que via exatidão naquelas hipóteses psicológicas do início de seu trabalho. Além disso, ele assinalou muitas vezes, durante sua trajetória, o quanto a sociedade, com sua moral burguesa, patriarcal e religiosa oprimia e adoecia as mulheres.


Entretanto, a violência contra as mulheres, sabemos, antecede em muito o nascimento da psicanálise. Desde a caça às bruxas, no início do Renascimento, quando muitas mulheres camponesas que cultivavam terras comunitárias foram expulsas dessas terras para se transformarem em mendigas e andarilhas, já havia um projeto de extermínio. Aquelas mulheres foram acusadas de pacto com o diabo e de bruxarias, e condenadas à fogueira. Tudo isso para que o capitalismo rural nascente pudesse privatizar as ditas terras. Assim, a bruxa foi a comunista e terrorista de seu tempo. A partir de então, uma guerra mundial contra as mulheres sempre esteve latente, tornando-se cada vez mais manifesta na modernidade e na ultramodernidade capitalista em que vivemos. Assim como as populações negras, as mulheres, que também representam uma camada importante da população mundial e uma força política e social considerável, ficaram na mira do projeto de invalidação e de extermínio do capitalismo contemporâneo. E o fato de hoje as mulheres negras representarem 68 por cento das mulheres violentadas e 62.6 por cento dos feminicídios corrobora a ideia deste projeto de extermínio de mulheres ser parte integrante de um projeto de recolonização capitalista contemporâneo. E uma das molas mestras deste projeto vem a ser o retrocesso da condição das mulheres, reduzindo-as a procriadoras de mais força de trabalho, na mesma medida em que a população negra precisa lutar para não se ver reduzida a uma condição social e cultural meramente utilitária, sem prerrogativas de cidadania. Isso tudo movido pelo discurso de ódio que naturaliza todas as formas de violência, e que somente reconhece um gênero, o masculino, e uma cor, o reduzindo-as a procriadoras de mais força de trabalho, na mesma medida em que a população negra precisa lutar para nao se ver reduzida a uma condição social e cultural meramente utilitária, sem prerrogativas de cidadania. 

Convidamos nossos colegas a lerem a íntegra deste manifesto na nossa página do instagram¹ ou no link abaixo², bem como a assinarem-no, a título de adesão ao conteúdo deste documento. Ao mesmo tempo, convidamos e convocamos a comunidade psicanalítica como um todo a se engajar em formas de intervenção neste sintoma do laço social, produzindo transformações no mal-estar social e reatando, desta forma, com a subversão essencial da psicanálise, a mesma que Freud teve quando decidiu escutar as mulheres. Não existe clínica psicanalítica que não esteja implicada no mal-estar do seu tempo, e o nosso tempo nos convoca a tomar posição, e com muita urgência, a urgência de vida das mulheres, para ainda aqui empregarmos uma expressão freudiana.

 

 

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Abaixo-assinado criado em 25 de março de 2026