Petition updateNOVAS ELEIÇÕES NA MANGUEIRA JÁ! PARA DEVOLVER A ESCOLA DE SAMBA DO POVO AO POVO.DEZ SAMBAS INSCRITOS NA MANGUEIRA: A CRISE DE CREDIBILIDADE DA GESTÃO GUANAYRA FIRMINO
Abayomi AlikaRio de Janeiro, Brazil
Jul 26, 2026

A inscrição de apenas dez sambas para o carnaval de 2027 não caiu do céu, não foi um acidente imprevisível e muito menos pode ser explicada como simples oscilação natural do concurso. O esvaziamento foi anunciado, documentado e comunicado formalmente antes da abertura das inscrições. Em 26 de maio de 2026, o COLETIVO TRANSPARÊNCIA MANGUEIRA encaminhou ao Conselho Deliberativo e Fiscal uma carta-proposta alertando para a generalizada perda de credibilidade no processo de escolha do samba-enredo que a gestão Guanayra Firmino tem imposto a Estação Primeira de Mangueira e defendendo a publicação prévia de um edital formal, completo e público.

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Não se tratava de uma crítica feita depois do fracasso. Era uma advertência preventiva, apresentada quando ainda havia tempo para organizar o certame, reconstruir a confiança dos compositores e impedir o resultado humilhante que agora está diante de todos.

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A carta propunha que a regra antecedesse a disputa, como deve ocorrer em qualquer processo minimamente sério. Defendia a criação de um grupo de trabalho plural, com participação do Conselho Deliberativo e Fiscal, de associados e de pessoas com conhecimento técnico, histórico, artístico e institucional. Recomendava que a condução do concurso não permanecesse concentrada na presidência da escola, justamente porque a centralização das decisões e as controvérsias acumuladas nos concursos anteriores já haviam produzido desconfiança entre compositores e integrantes da comunidade. Também cobrava que a sinopse, as orientações do carnavalesco, os critérios de julgamento, os impedimentos, o calendário, a composição da comissão julgadora, a forma de votação, os critérios de desempate, as hipóteses de desclassificação, os direitos autorais e os mecanismos de recurso fossem definidos por escrito e publicados antes das inscrições, nada disso foi feito. 

O que havia de excessivo nisso? Qual compositor sério pode considerar abusivo saber antecipadamente quem julgará sua obra, quais critérios serão aplicados, como ocorrerá a eliminação e a quem poderá recorrer? Qual instituição responsável abre o seu concurso artístico mais importante sem publicar integralmente as regras que regerão a competição? Por que uma escola da dimensão da Mangueira, que administra contratos, patrocínios, recursos públicos, direitos autorais e uma marca de projeção internacional, não consegue produzir um edital para selecionar a obra que cantará durante todo o carnaval? Quais interesses obscuros a gestão da presidente Guanayra Firmino esconde e que impede de adotar a transparência? 

O resultado da omissão está nos números. Em 2022, a Mangueira recebeu 52 sambas. Em 2023, foram 30. Em 2024, 24. Em 2025, o número despencou para 11. Houve uma recuperação aparente em 2026, com 22 obras, mas agoras, em 2027, a escola caiu novamente, foram apenas dez sambas — o menor número de toda a história mangueirense, nunca antes tivemos tão poucos sambas inscritos.

Em apenas um ano, a quantidade de obras caiu 54,5%, de 22 para dez. Em comparação com 2022, a redução foi de 80,8%. O total de compositores inscritos também caiu de 109, em 2026, para 55, em 2027, uma retração de quase 50%.

Isso não é renovação. É contração. Não é reorganização. É perda de capacidade de mobilização. Não é sinal de concurso mais seletivo. É sinal de que parte expressiva do universo autoral deixou de enxergar valor, segurança ou perspectiva na participação deste concurso que já foi o mais celebrado do carnaval carioca. 

A crise torna-se ainda mais evidente quando se observa quem não está concorrendo. Rodrigo Pinho, um dos compositores mais constantes da última década, participou das disputas de 2016, 2017, 2018, 2019, 2020, 2022, 2023 e 2024. Ficou fora em 2025, retornou em 2026 e, agora, volta a não participar. Um compositor com essa trajetória não é um aventureiro ocasional. É alguém que investiu reiteradamente talento, tempo, recursos e trabalho na disputa. Quando um nome dessa importância se afasta novamente, a direção deveria perguntar o que o concurso deixou de oferecer.

Felipe Filósofo, que vinha disputando ininterruptamente desde 2022, também ficou de fora. Cacá Camargo, participante dos cinco concursos consecutivos realizados entre 2022 e 2026, não apresentou samba. Bira Show, filho de Padeirinho da Mangueira e herdeiro de uma tradição diretamente ligada à construção da identidade musical da escola, também não concorre. Manu da Cuíca, autora dos sambas-enredo de 2019 e 2020, compositora premiada e referência para mulheres que desejam ocupar um espaço historicamente masculino, igualmente não participa.

Quem está na disputa precisa ser parabenizado, pela coragem e desprendimento, mas também precisa ser respeitado. Os novos que tiveram a coragem e o desprendimento de disputar precisam ser acolhidos e estimulados, para tanto é fundamental  agir com honestidade e coerência e entregar o samba  a parceria que todos já sabem ser a vitoriosa. Será honesto e verdadeiro com todos.

Para os próximos anos é preciso pensar em renovação verdadeira ampliando o concurso: trazer novos autores sem expulsar o entusiasmo dos antigos. Quando os estreantes chegam a uma disputa reduzida à metade e marcada pela retirada de nomes tradicionais, não existe expansão. Existe substituição dentro de um ambiente encolhido.

A carta-proposta tentou atacar exatamente as causas institucionais desse esvaziamento. Ela afirmava que o compositor precisa conhecer previamente as regras porque sua participação envolve custos elevados: gravação, músicos, intérpretes, arranjos, deslocamentos, produção audiovisual, divulgação, ensaios e mobilização de torcida. Ninguém investe tudo isso com segurança quando os critérios permanecem informais, quando orientações podem ser transmitidas verbalmente, quando decisões podem mudar durante o processo e quando não existe um procedimento claro para impugnação ou recurso.

Sem edital, o compositor não conhece plenamente o contrato político, artístico e financeiro no qual está entrando. Ele não sabe se todas as parcerias receberam as mesmas orientações. Não sabe quais elementos da sinopse são obrigatórios. Não sabe quais aspectos serão valorizados ou rejeitados. Não sabe como os jurados serão escolhidos. Não sabe se haverá voto individual, decisão colegiada, interferência da direção ou alteração dos critérios ao longo das eliminatórias. Não sabe sequer quais decisões poderão ser contestadas e por quem serão julgadas. Isso é lamentável. 

Esse modelo exige que o participante confie pessoalmente na direção, em vez de confiar institucionalmente nas regras. E esse é o centro do problema. Uma escola não pode substituir governança por confiança pessoal. Um processo sério não pode depender da palavra de quem dirige, da conversa de bastidor, da relação de amizade, do trânsito político ou da proximidade com o núcleo de poder. A regra escrita existe justamente porque as pessoas mudam, os interesses se alteram e as relações pessoais não garantem igualdade.

A série histórica organizada pelo Coletivo Transparência Mangueira que compreendeu onze disputas realizadas entre 2016 e 2027, excluído o Carnaval de 2021, que não ocorreu em razão da pandemia. Nesse intervalo, foram contabilizadas 271 obras concorrentes e 1.223 participações de compositores. A média geral foi de 24,6 sambas e 111,2 registros de compositores por disputa. Entretanto, a edição de 2022, com 52 sambas e 184 participações, constitui um valor excepcional.  

Nos últimos 3 anos, a Mangueira teve, somados os anos de 2025, 2026 e 2027 43 sambas inscritos, em 2022 por exemplo foram 52 obras participantes. Nos últimos 3 anos a média é de 14,3 sambas por ano. A gestão Guanayra Firmino dos Santos tem não só afastado os profissionais do carnaval carioca, como também os seus próprios compositores. 

Considerando o período de 2016 a 2022, com exclusão de 2021, quando não houve Carnaval, foram realizadas seis disputas, foram inscritos 174 sambas-enredo, uma média de 29 obras por ano, mais do que o dobro registrado nos últimos três anos da gestão Guanayra Firmino que não tem resultado prático observável superior a qualquer outra gestão a não ser a quantidade de denúncias de violações dos direitos humanos. 

Por isso, a pergunta precisa ser feita de forma direta: a ausência de edital decorreu de incompetência administrativa ou de interesse em conservar o concurso sob controle concentrado? A direção não percebeu que a credibilidade estava se desfazendo ou percebeu e decidiu não modificar o modelo? Por que o Conselho Deliberativo e Fiscal, formalmente provocado antes das inscrições, não exigiu uma regulamentação completa? Qual foi a resposta institucional dada à carta? Houve reunião? Houve parecer? Houve deliberação? Ou o alerta foi simplesmente arquivado até que o número de inscrições revelasse a dimensão do problema?

É necessário perguntar também quem se responsabiliza pela queda. Quando uma gestão assume o comando de uma instituição, não pode reivindicar sozinha os méritos e atribuir todos os fracassos a fatores externos. Se o concurso perdeu obras, compositores, público e entusiasmo, a presidência, a direção de carnaval, a Ala de Compositores e os órgãos internos precisam apresentar explicações. Não basta dizer que os compositores “não quiseram participar”. É obrigação da gestão investigar por que não quiseram. O afastamento coletivo não é causa do problema; é consequência.

A Mangueira não chegou a dez sambas por falta de compositores. O Rio de Janeiro não deixou de produzir autores, músicos e poetas. A escola não perdeu sua importância histórica. O que se deteriorou foi a confiança no processo. E confiança institucional não se recupera com propaganda, discursos triunfalistas ou fotografias de dirigentes. Recupera-se com regras públicas, participação, imparcialidade, previsibilidade e respeito.

O aviso foi dado antes das inscrições. A proposta foi entregue. Os riscos foram explicitados. A direção teve a oportunidade de agir e não construiu o edital exigido. Agora, diante do menor número de sambas da série histórica analisada, não pode alegar surpresa.

Os dez sambas inscritos não são apenas um número ruim. São a prova material de uma gestão que foi advertida sobre a perda de credibilidade e preferiu manter o mesmo método. São o retrato de uma gestão que já não consegue mobilizar plenamente nem aqueles que dizem nas redes sociais a apoiar.  É preciso lembrar que estamos em uma crise de credibilidade as vésperas do centenário, o que será entregue por uma gestão que não possui o mínimo de credibilidade sequer para organizar uma disputa de samba-enredo. 

 

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