Acrescentar a neoliguagem à norma padrão

0 pessoa já assinou. Ajude a chegar a 500!


Neolinguagem: Um futuro inclusivo

A língua portuguesa é complexa e tem uma estruturação muito binária. Praticamente tudo é categorizado como feminino ou masculino. Existem apenas duas linguagens pessoais: dois pronomes — ela e ele — acompanhados, respectivamente, de artigos a e o, obrigatoriamente nos finais de palavras (quando essas palavras têm diferenciação de gênero, o que não é o caso de estudante, ativista, etc).

Nossa cabeça é programada desde sempre a identificar tudo e todas as pessoas como ela ou ele. E, pior ainda, identificar as pessoas por aparências e apresentações. Por isso já deixo aqui uma perguntinha: a quem exatamente favorece um sistema linguístico com apenas duas opções de linguagem?

É absurdo notar que uma língua tão rica quanto a nossa sequer cogitou um terceiro pronome, um pronome neutro, enquanto uma língua mais simples como o inglês tem isso (they) e até pronome para animais e objetos (it).

Pois bem. Pessoas cis já têm gênero designado, e o gênero designado tem uma linguagem designada. Pessoas trans binárias frequentemente mudarão sua linguagem para assim se encaixarem melhor na sociedade. E está tudo bem!

Mas agora: e quem não consegue se encaixar em nenhuma opção de linguagem por n motivos? É o caso de muitas pessoas não-binárias.

Não é incomum também encontrar mulheres denunciando a estruturação patriarcal da língua, que coloca a linguagem dita masculina na função neutra/universal. Dois homens são eles, duas mulheres são elas, um homem e uma mulher são… eles. Muitas mulheres e pessoas do meio LGBT+ tentam subverter isso pelo “feminino universal”, que apenas substitui “o masculino” pelo “feminino” na neutralidade padrão. Válido. Porém… não contempla muita gente não-binária.

A junção dessas pautas criou a proposta de uma linguagem diferenciada: a neolinguagem. Vocês se lembram de quando bombou o uso do X nas palavras na intenção de não definir gêneros? Isso é uma neolinguagem. Foi o primeiro passo. Foi alguma coisa. Um problema apontado é que palavras com X ficam difíceis de pronunciar em leitores de tela para deficientes visuais. Não que não seja possível usar X, e nem quero proibir pessoas de usarem o pronome elx; porém, muita gente procurou um caminho mais acessível.

Por isso foram criados outros sistemas de neolinguagem mais acessíveis para “neutralizar” palavras e frases sem elementos masculinos, e também para incluir mais opções de pronomes/linguagens. Ressaltando que esses sistemas são para criar uma linguagem sem associação com gêneros, e não para impor uma terceira opção para quem não quer usar as duas opções padrão. O sistema mais aceito atualmente, principalmente no meio virtual, usa artigo e, pronome elu, e terminação com e (fazendo as modificações necessárias, como no caso de amigue).

Esse sistema está funcionando bem, especialmente em grupos e espaços não-binários ou ativistas inclusivos. Tem oposição? Claro, até de outras mulheres e pessoas não-binárias. Mas então temos que defender a proposta, que, a princípio, pode não deixar evidente a importância e os maiores objetivos dela. A língua padrão ainda permite uma estrutura “neutra”, porém, ela é limitada e não consegue ser sempre viável.

Vamos falar então das mulheres. Por que elas têm a obrigação de aceitar serem referidas “no masculino”, mesmo quando são um milhão delas junto com um único homem? Vamos falar das pessoas trans binárias. Quantas delas não ficaram constrangidas em um estabelecimento ou no telefone por serem tratadas pelo gênero errado unicamente por causa de aparências e vozes? Mesmo que as mulheres possam ainda suportar a estrutura linguística machista, pessoas trans sofrem muito com essas atitudes, por mais esperadas que sejam.

Exatamente por esse motivo que falei bem antes que linguagens pessoais são presumidas pela aparência, pelo exterior. Pessoas constantemente conferem a “anatomia sexual” para adivinhar o pronome do indivíduo. Não é isso que fazem quando veem uma pessoa andrógina e não conseguem “adivinhar” o gênero dela?

Quer dizer então que ter duas linguagens e presumidas pelo corpo são atitudes…? Isso mesmo, CISSEXISTAS!

Então, como existem situações de incerteza em relação ao tratamento mais adequado, a proposta de uma linguagem sem gênero não soa infundada. Sem contar que poderia ser útil em situações em que alguém deseja anonimato. Contudo, o mais importante é: a neolinguagem é a única alternativa que garante respeito e inclusão para todos os grupos possíveis, sejam mulheres, pessoas trans, pessoas não-binárias, e até mesmo pessoas cis que preferem linguagens diferentes da designada (homens que usam ela, mulheres que usam ele).

Educar sobre uma forma alternativa de linguagem seria o mesmo processo de se ensinar nossa língua. Nem é algo tão complicado, apenas exigiria treino e esforço, como todo aprendizado novo, como todo aprendizado linguístico. O maior desafio permanece sendo os neologismos; palavras novas. É possível “neutralizar” muitas palavras colocando E no final; mas e quanto a termos binários como pai e mãe, ator e atriz, ou rei e rainha? Pessoas criativas estão mais do que convidadas a cunhar alternativas! Reapropriação de palavras também é um caminho válido; ou seja, usar pai e/ou mãe não importa sua identidade de gênero. Assim como há pessoas não-binárias se reapropriando dos pronomes da língua padrão sem associá-los com qualidades femininas ou masculinas.

A neolinguagem é uma proposta muito válida, muitas pessoas já usam e com certeza é o futuro. Só o patriarcado e a cisnormatividade se incomodam com ela. E que bom que incomoda. Se incomoda o CIStema é porque o atinge!