Contra a demissão dos professores na Escola da Vila

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Prezada direção da Escola da Vila,


Neste final de ano exaustivo de pandemia, foi com muita surpresa que recebemos a notícia da demissão de um total de 13 integrantes do corpo docente da escola. Na verdade, não é a primeira vez que isso acontece, já que desde a compra da escola em 2017 pelo grupo Bahema Educação assistimos à demissão sistemática dos nossos professores todo final de ano. 

A partir do momento da venda, vimos a lógica do grande capital tomar conta do projeto educacional de nossa escola desenfreadamente. Enquanto investem em tetos retráteis para a quadra de futebol ou pintam o pátio de cores gritantes, demitem os professores e diversos funcionários que fazem parte da história da Vila há anos. Com esse tipo de atitude vinda da direção, podemos seguramente afirmar que os tão propagandeados valores da escola “cooperação, autonomia e conhecimento” não passam de uma piada de mal gosto. 

A busca feroz por lucro que é conduzida desde 2017 dentro da escola levou a uma espécie de estupidez em relação ao que realmente significa ser uma instituição de ensino e, principalmente, uma que se diz ser construtivista. A Vila é considerada a instituição pioneira do ensino construtivista no Brasil e todo o seu marketing é pautado nesses princípios. O construtivismo é uma filosofia baseada na valorização da educação; enxerga os alunos não como receptores passivos de conhecimento, mas sim como pensadores críticos atuantes. Este processo educacional é sustentado pelo esforço dos professores extremamente dedicados que prezam por criar projetos educacionais atenciosos e ativos. 

A chave para o ensino construtivista é o engajamento dos nossos educadores, que dia após dia se dedicam em horas de trabalho não pagas para preparar aulas significativas e recheadas de discussões.  Por todo o nosso extenso percurso escolar, fomos sendo formados unicamente com base na troca de conhecimento entre nós e os nossos professores. Como uma escola que é baseada na valorização do trabalho do professor resolve demitir 13 educadores ao mesmo tempo? E isso até onde sabemos, pois o alerta de demissões continua rolando.

O fato é que essa mesma instituição que gasta tanto tempo afirmando seus pilares filosóficos faz também um grande esforço para manter suas reais atitudes às escuras. Entre sabiás cantantes e banners coloridos, os professores e funcionários são colocados como a base de sustentação da escola nas redes sociais. Publicações recentes atestam que: “os professores e professoras merecem as mais preciosas honras” e “deixamos nosso agradecimento pelo fundamental trabalho que [professores e professoras] realizam com tanta dedicação.” A piada já vem pronta: debaixo dos panos, as condições de trabalho são precárias e insalubres. E a cereja desse bolo de hipocrisia veio agora, quando em plena pandemia, enquanto uma crise econômica assola o país, mandam 13 funcionários embora de uma vez sob a justificativa ridiculamente mal construída de “corte de gastos”.

E a falta de transparência dessa escola que diz se basear na cooperação não para por aí. Na última reunião de pais, foi dito que a escola quase não teve perda de alunos durante a pandemia, o que pode ser creditado aos professores, que se esforçaram para manter cursos instigantes durante esse período. Além disso, a direção comentou que já houve reservas de vagas para alunos novos que ingressarão em 2021. Tudo isso somado a um considerável aumento da mensalidade este ano e o ano que vem, em período em que as concorrentes não o fizeram. Nos próprios relatórios financeiros da Bahema, que são abertos ao público, consta que a escola não corre nenhum risco. Se a escola está tão bem assim, por que houve uma demissão em massa?

Esse despedimento massivo é, além de completamente arbitrário, parte de um projeto maior de sucateamento da educação que toma conta do nosso país, acelerado com a Reforma do Ensino Médio de 2017. A Empresa Bahema Educação, subordinada a seus acionistas, como a empresa Mint Capital, está deliberadamente precarizando as condições de trabalho e de aprendizado na Escola da Vila, achando que vai tapar esse rombo deixado pela demissão de professores extremamente bem formados que trabalham em seu projeto disciplinar há anos com propagandas bonitas no Instagram. Se a Bahema deseja manter seu público e, como a própria empresa diz, “formar pessoas com jornadas significativas”, por que está mandando embora professores incríveis que formaram gerações e gerações de alunos com seus cursos extraordinariamente aprofundados? Por que está querendo submeter os professores que sobraram a jornadas de trabalho extremamente altas e à responsabilidade sobre uma quantidade absurda de cursos, o que com certeza irá implicar em um declínio na qualidade do ensino?

Relembrar é viver, então voltemos para 2017 quando Sônia Barreira, diretora pedagógica do Grupo Critique, em face do descontentamento da comunidade escolar após a venda da escola, deu a seguinte declaração ao ser questionada em relação a possibilidade de interferência dos novos sócios no projeto pedagógico da Escola da Vila: “Um aspecto importante, que tenho dito aos pais, é que pode haver garantias por escrito, contrato, compromissos públicos, mas para transformar uma escola como essa, para modificá-la, não se faz isso de forma sorrateira, tem de ser de forma muito visível. Seria preciso mandar embora metade dos professores e demitir a equipe técnica.” A fala chega a ser irônica, uma vez que foi quase um presságio. Vemos hoje, junto com o desmoronamento do projeto pedagógico, a demissão de boa parte do corpo docente da escola. Apesar da tentativa de manter suas ações ainda sorrateiras, garantimos que essas atitudes não vão passar despercebidas.

Já que a direção não se responsabiliza pela transparência com a comunidade escolar, ficará à cargo de nós, alunos, expor as intenções da Bahema, de modo a deixar bem visível para todos que o objetivo é a transformação da escola em um projeto que se desvia muito do que foi proposto no início da história da Vila. A Vila surgiu de uma associação entre professores que queriam espalhar conhecimento e emancipar seus alunos. Agora, a escola é uma marionete de uma empresa que usa o construtivismo apenas como uma frase de efeito.

Até mesmo pensando na lógica do lucro à qual a escola está submetida, às ações da direção também não fazem absolutamente nenhum sentido a longo prazo. O público da Vila, que está na escola desde antes da venda e assistiu às promessas de que nada iria mudar no projeto pedagógico, não vai aceitar a sua desmantelação tão facilmente. A Vila tem uma história marcada por seu público extremamente fiel e particular, estando em um nicho de mercado muito específico. Um público que busca por uma excelência na educação que foi característica da história da Vila até então. Esse grupo não está interessado em um modelo de ensino precarizado e muito menos em descaso e desrespeito ao corpo docente. A política financeira da Bahema e a postura da direção pedagógica não representam um ataque apenas aos professores, ou à comunidade dos pais, mas sim um ataque generalizado a todos que já participaram da história da escola. Como a própria Sônia alegou, “se há realmente uma intenção de ter retorno financeiro e de fazer esse grupo ter força, a única saída possível é fortalecer o ativo [pedagógico] que eles compraram.” Não adianta ter interesse em comprar mais uma série de escolas alinhadas a essas diretrizes pedagógicas enquanto publicamente desmantela as que já comprou. Esse projeto de precarização veio como um tiro na própria cabeça.

Não vamos observar passivamente a transição de uma instituição considerada referência internacional no ensino construtivista e no centro de formação de professores para uma entidade sem autonomia pedagógica e que não possui nenhuma soberania sobre seu próprio corpo educativo. Não vamos nos calar diante da demissão injustificável de professores e funcionários fantásticos que formaram uma infinidade de estudantes com tanta dedicação. Como já foi dito, essa mudança não só enfraquece o projeto educativo, mas o aniquila completamente. Retomando mais uma vez a entrevista com Sônia Barreira, a diretora afirma: “não dediquei 37 anos da minha vida a um projeto em que acredito, para, na hora de garantir sua perenidade, entregar nas mãos de quem iria destruí-lo. Seria no mínimo insensatez.” Ser condescendente com as atitudes recentes da direção é ser cúmplice da mudança brutal no projeto da escola. E não vamos deixar que a instituição de ensino que estudamos nossa vida inteira seja dissolvida pela lógica do grande capital diante de nossos olhos sem lutar.


Estudantes do Ensino Médio, 

mobilizados por meio do Grêmio