Carta aberta por representatividade nos Congressos de Pedagogia Waldorf

Vitória

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O problema

Carta aberta ao VII Congresso Brasileiro de Pedagogia Waldorf

À Comissão Organizadora, às escolas, às educadoras, aos educadores e a toda a comunidade Waldorf,

Escrevemos movidos pelo amor.

Pelo amor às crianças.

Pela confiança de que educar é um ato profundamente humano.

Pela esperança de que a Pedagogia Waldorf continue viva justamente porque é capaz de se transformar quando encontra novas perguntas.

É por esse amor que fazemos um convite.

O Congresso afirma seu compromisso com uma educação humanizadora, inclusiva e em diálogo com os desafios do nosso tempo. Acreditamos nessa intenção. Mas acreditamos também que toda intenção precisa encontrar expressão concreta.

Vivemos em um país em que raça, gênero e classe continuam definindo quem fala, quem é ouvido, quem ocupa os espaços de poder e quem permanece sendo convidado apenas a escutar.

Não basta que todas as pessoas se sintam bem-vindas.

É preciso perguntar: quem constrói o conhecimento que circula neste congresso? Quais experiências são reconhecidas como referência? Quais vozes seguem sendo tratadas como exceção?

Pertencimento não é apenas sentir-se acolhido.

Pertencimento é reconhecer-se nas pessoas que ensinam, nas histórias que são contadas, nas perguntas consideradas relevantes e nos conhecimentos legitimados.

Há um risco silencioso quando instituições oferecem apenas um sentimento de acolhimento sem transformar suas estruturas. Criamos uma espécie de "salário psicológico": a sensação de fazer parte de uma comunidade amorosa, enquanto a distribuição do poder, da fala e da representação permanece praticamente inalterada. O afeto, sozinho, não substitui a justiça.

Por isso, pedimos que os próximos Congressos Brasileiros de Pedagogia Waldorf assumam publicamente o compromisso de estabelecer cotas mínimas para palestrantes negros, negras e indígenas.

Não como um gesto simbólico, nem como uma concessão. Mas como reconhecimento de que intelectuais, mestres da tradição oral, pesquisadores, artistas e educadores desses povos produzem conhecimentos indispensáveis para compreender a infância brasileira.

Os afetos e a formação de consciência que levam as instituições e pessoas que as formam a verem somente brancos como referência de construção de conhecimento são elaborações históricas que utilizaram amplamente a estrutura do estado pra enraizar nas mentes e corações que o negro, que o índigena e demais povos não são capazes de construir cultura, técnica e nada que vem da sensibilidade e alma humana.

Isso foi feito de forma tão constante e intensa que esses afetos e pensamentos se tornaram inconscientes, principalmente para os brancos, por isso as cotas são uma ação necessária, porque a dependência da mera vontade esbarra nessa barreira inconsciente criada por esse longo processo histórico de opressão.

Pedimos, portanto, que haja mesas permanentes dedicadas às relações entre raça, gênero e classe na educação.

Esses temas não são externos à Pedagogia Waldorf, eles atravessam diariamente nossas escolas e habitam nossas salas de aula.

Ignorá-las não as faz desaparecer. Ao contrário: fortalece as estruturas que desejamos transformar.

A fenomenologia nos ensina a observar o mundo antes de interpretá-lo. Que possamos observar também quem ainda não ocupa nossos palcos, quem ainda não coordena nossas mesas, quem ainda é lembrado apenas quando o tema é diversidade.

Ampliar as vozes não diminui ninguém. Ao contrário, expande a própria Pedagogia Waldorf.

Reconhecemos os movimentos que vêm sendo feitos pela FEWB na direção de uma educação mais inclusiva e plural. São passos importantes e dignos de celebração. Mas acreditamos que chegou o momento de transformar iniciativas em compromisso institucional, para que a diversidade deixe de depender de convites ocasionais e passe a constituir um princípio permanente da organização dos congressos.

Esse é um pedido por coerência.

Que um congresso comprometido com a formação integral do ser humano represente, também em seus palcos, a diversidade de nossxs efucadorxs.

Que possamos ouvir mais mulheres negras,
Mais intelectuais indígenas, mais educadorxs das periferias, mestras e mestres, mais pesquisadores comprometidos com as intersecções entre educação, raça, gênero e classe.

Porque não existe educação verdadeiramente humanizadora quando alguns conhecimentos permanecem no centro e outros continuam às margens.

Uma pedagogia que deseja formar seres humanos livres precisa também libertar seus próprios espaços de produção de conhecimento.

Seguimos acreditando, construindo, oferecendo este convite com firmeza, esperança e amor.

Acreditamos profundamente que a Pedagogia Waldorf só se engrandece com este gesto que propomos aqui.

E desejamos vê-la cada vez mais plural, mais corajosa e mais comprometida com todas as crianças.
Encaminhamentos práticos

Para que esta carta não seja apenas um manifesto, mas um instrumento de transformação concreta, solicitamos:

1. Que a comissão organizadora do VII Congresso e das edições futuras divulgue publicamente os critérios de seleção de palestrantes, bem como a composição da equipe de curadoria e produção executiva do evento, garantindo transparência sobre quem decide e com base em quais parâmetros as vozes são escolhidas .
2. Que os próximos congressos incluam em sua programação mesas permanentes dedicadas às relações entre raça, gênero, classe e educação, reconhecendo que esses temas não são periféricos, mas estruturantes da realidade educacional brasileira.
3. Que seja instituída uma política de cotas mínimas para palestrantes negros, negras e indígenas, como reconhecimento de que esses povos produzem conhecimentos indispensáveis para a compreensão da infância e da educação no Brasil — e não como gesto de boa vontade, mas como compromisso institucional .

Seguimos acreditando, construindo, oferecendo este convite com firmeza, esperança e amor.

Acreditamos profundamente que a Pedagogia Waldorf só se engrandece com este gesto que propomos aqui.

E desejamos vê-la cada vez mais plural, mais corajosa e mais comprometida com todas as crianças.

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Cecília SchucmanCriador do abaixo-assinado

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