Carta aberta: em defesa da vida - contra a mercantilização da Saúde no Brasil e Campinas

Assinantes recentes:
Albanett Nestor e outras 19 pessoas assinaram recentemente.

O problema

À população de Campinas, aos trabalhadores da saúde e aos gestores públicos,

Vivemos um momento histórico de encruzilhadas para as políticas sociais no Brasil e no mundo. Assistimos ao crescimento de forças conservadoras e de ultradireita, marcadas pelo desprezo ao coletivo e pela busca de saídas individuais e mercantis, nas quais tudo pode ser transformado em mercadoria. Para essas forças, o Estado só serve como balcão de negócios para enriquecer ainda mais os de cima, retirando direitos e ampliando o fosso entre ricos e pobres. No Brasil, como temos visto, o Congresso é inimigo do povo: aos ricos e poderosos, tudo; ao povo trabalhador, semana de seis dias, precarização do trabalho e retirada de direitos.

Nesse contexto, o SUS é uma das principais vítimas da extrema direita e do neoliberalismo. Não, eles não querem acabar com o SUS, porque sabem que isso é impossível: sem o SUS seria o caos. O que querem é transformá-lo em um SUS pobre para os pobres. Querem acabar com a saúde como direito universal, deixando apenas uma “cesta básica” mínima de serviços para os muito pobres. Para os demais, a saúde deve ser mercadoria, comprada no mercado como se compra roupa ou sapato.

Não queremos esse SUS. Queremos um SUS universal, com saúde como direito de todos e acesso a toda a tecnologia médica e sanitária de que o mundo já dispõe. Não como favor, mas como direito.

Por isso nos dirigimos a vocês para reafirmar o valor inestimável do Sistema Único de Saúde e denunciar o projeto de desmonte que ameaça sua essência pública e universal.

1. O SUS que queremos: saúde como direito humano universal

O SUS é uma das maiores conquistas da democracia brasileira. É o único sistema do mundo que garante assistência integral e gratuita a mais de 200 milhões de pessoas. Cerca de 75% da população brasileira depende exclusivamente do SUS para seus cuidados em saúde.

Suas vitórias são incontestáveis: o maior sistema público de transplantes do mundo; um programa de imunização que é referência global; um dos melhores sistemas de cuidado às pessoas vivendo com HIV/AIDS; o cuidado em liberdade e no território das pessoas em sofrimento mental; a atenção às pessoas em situação de rua e a outras populações vulneráveis que não dão lucro ao mercado; as ações de promoção da saúde, e não apenas de tratamento do corpo doente; a vigilância da qualidade dos alimentos, medicamentos e da água que consumimos; o atendimento à maior parte das vítimas de acidentes, enchentes e outras emergências. Tente imaginar o Brasil sem o SUS: seria a barbárie.

Por tudo isso, afirmamos: defender o SUS é defender a ética do cuidado — a ideia de que a saúde não é mercadoria, mas direito humano, baseado na nossa interdependência, solidariedade e necessidades mútuas.

2. As ameaças: neoliberalismo, mercado e terceirizações

Apesar de sua força, o SUS sofre um ataque coordenado de forças neoliberais que ocupam espaços crescentes no Legislativo. Esse projeto busca transformar o direito à saúde em nicho de lucro, no qual a doença vira mercadoria. O Estado, que querem mínimo, é usado para garantir um SUS pobre para pobres e, direta ou indiretamente, financiar e fortalecer o setor privado.

Uma das principais causas dos problemas do SUS é o seu subfinanciamento crônico, desde que o neoliberalismo foi imposto no país, na década de 90. Gasta-se com a Saúde Pública no Brasil proporcionalmente metade do que os países europeus gastam com seus sistemas públicos. Soma-se a isto a renuncia a bilhões de reais anualmente por meio de deduções fiscais para hospitais, laboratórios e indústria de medicamentos e equipamentos . Ao permitir que ricos e milionários deduzam do imposto de renda seus gastos com saúde, tira-se do orçamento público aquilo que poderia fortalecer o SUS. Ao terceirizar trabalhadores e a gestão dos serviços, privilegia-se o mercado e se reforça a ideia de que a saúde pode ser mercadorizada.

Além disso, o crescimento desenfreado de emendas parlamentares sem planejamento técnico pulveriza o orçamento, favorece redutos eleitorais em detrimento de políticas de Estado e abre brechas para corrupção e fragmentação do cuidado.

O setor privado também pressiona o SUS ao utilizar a rede pública para procedimentos de alto custo que não são lucrativos para os planos, enquanto lucra com atendimentos simples. Outra expressão dessa relação perversa entre público e privado contratado pelo SUS é a existência das “duplas portas”: as dos planos de saúde são limpas, organizadas, bem cuidadas; as do SUS são superlotadas, muitas vezes sujas, com banheiros insuficientes e mal-conservados. É o desprezo pelo povo estampado na porta de entrada do cuidado.

3. A crise em Campinas: gestão fragmentada, ineficaz e desrespeito ao controle social

Em Campinas, a situação é calamitosa. O povo que o diga.

Vivemos há pelo menos uma década e meia grandes dificuldades no SUS local. E não é por acaso. O modelo de gestão desse período priorizou a economicidade, a tecnoburocracia e a terceirização em detrimento da carreira pública, resultando em graves problemas.

A existência da Rede Mário Gatti operando como uma “segunda secretaria” estabelece um duplo comando que dificulta a integração da rede e o planejamento estratégico. A consequência é a piora da qualidade da atenção, algo frequentemente relatado por usuários.

O avanço de empresas terceirizadas em áreas críticas, como os hospitais Mário Gatti e Ouro Verde e as UPAs, trouxe perda de qualidade decorrente da precarização do trabalho, conforme avaliação de conselheiros e usuários. A consequência apareceu de forma dramática no recente surto de bactérias multirresistentes, com fechamento de leitos de UTI e repercussão em todo o SUS local, agravando a superlotação de outros hospitais. Ao contrário do que se prometeu, não se reduziram de forma efetiva os tempos de espera nos pronto-socorros nem para internações e cirurgias eletivas, ao mesmo tempo em que aumentaram as queixas quanto à qualidade dos serviços. E a corrupção, tão frequente em municípios que terceirizaram seus serviços, já esteve presente aqui e segue sempre à espreita.

Também assistimos a um preocupante desrespeito ao Conselho Municipal de Saúde e aos Conselhos Locais. As decisões são tomadas de forma tecnoburocrática, sem escuta real da população, transformando instâncias de participação em meros homologadores do que já foi decidido. Na gestão dos serviços, vale mais o preenchimento de planilhas e o alcance de metas do que o diálogo e planejamento com trabalhadores e usuários, que conhecem concretamente a realidade.

Ao mesmo tempo, a prefeitura demonstra pouca influência na gestão regional da saúde, falhando em coordenar de forma eficaz a retaguarda de leitos e referências com as cidades vizinhas e com o Estado. Inúmeros estudos mostram a necessidade de uma gestão regional forte. No nosso caso, por ser Campinas o município mais importante da região, essa liderança deveria ser exercida com clareza. Mas nossas gestões, incapazes de reconhecer essa responsabilidade, não a assumem como deveriam.

Nossa atenção primária, por sua vez, em grande medida desistiu de seu papel de coordenar o cuidado das pessoas e, com isso, de ordenar os demais níveis do sistema. Uma atenção básica efetiva evita adoecimentos, recupera pessoas doentes, previne crises agudas em pacientes crônicos, reduz encaminhamentos para especialidades, internações e procura por pronto-socorros, além de facilitar diagnóstico precoce e cuidado oportuno. Mas como cumprir esse papel se temos menos equipes do que o necessário e equipes incompletas? Se há territórios sem o número adequado de unidades, criando vazios assistenciais? Se persistem burocracias inúteis, como agendamento de consultas apenas uma vez por mês, exigências descabidas de documentos e fluxos que mais dificultam do que ajudam?

As consequências são conhecidas: filas de madrugada, demora para conseguir cuidado, atraso no início de tratamentos, tratamentos interrompidos, agravamento de doenças, deslegitimação do SUS e formação de um círculo vicioso de sofrimento e descrédito.

4. Propostas para a superação: o caminho do cuidado ético, solidário e como direito

Para reverter esse quadro e salvar o SUS em nossa cidade, propomos:

  • fim das barreiras na atenção primária, com agendamentos todos os dias e a todo momento nas unidades básicas, acolhimento durante todo o horário de funcionamento e serviços como vacinação e entrega de medicamentos disponíveis durante todo o tempo de funcionamento da unidade;
  • completar imediatamente as equipes da atenção primária, dos ambulatórios, hospitais e UPAs;
  • ampliar o número de equipes de Saúde da Família e de Saúde Bucal, priorizando os territórios mais vulneráveis;
  • construir novas unidades de saúde, acabando com os vazios assistenciais;
  • extinguir o duplo comando, centralizando a autoridade sanitária na Secretaria Municipal de Saúde para garantir uma rede única e integrada;
  • substituir gradativamente as terceirizações por profissionais concursados, garantindo continuidade do cuidado e a “alma” da atenção primária;
  • ampliar o cuidado em saúde mental, melhorando o acolhimento de pacientes em crise e fortalecendo o vínculo com os usuários, com aumento do número de CECOS, CAPS e outros serviços;
  • melhorar o plano de cargos e carreiras para os profissionais da saúde, valorizando o tempo de serviço e a fixação em territórios vulneráveis;
  • promover uma democracia radical na saúde, transformando os Conselhos Locais em verdadeiros instrumentos de cogestão, nos quais orçamento e prioridades do território sejam decididos em parceria com a comunidade.
  • liderar a gestão regional do SUS, melhorando a integração com os outros municípios da região metropolitana.

 

A saúde não pode esperar e a vida não tem preço. Somente um SUS público, estatal, universal e participativo poderá garantir a dignidade do povo de Campinas.

 

Campinas, SP, abril de 2026
Assinam este documento:

MOPS (Movimento Popular de Saúde de Campinas)

Conselho Municipal de Saúde de Campinas
ADACAMP – Associação Desenvolvimento Autistas Campinas
ADUNICAMP – Associação Docentes UNICAMP
AEESSP – Associação Educadoras Educadores Sociais SP
AIEJI – Associação Internacional de Educadores Sociais
Associação Mulheres Campinas
ASSUCAMP – Associação Surdos Campinas
Brigada Suçuarana
CDDH Campinas – Centro de Defesa de Direitos Humanos
CEDAP – Centro de Educação e Assessoria Popular
Conselho Local de Saúde Ambulatório Transcender
Conselho Local de Saúde Barão Geraldo
Conselho Local de Saúde Conceição
Conselho Local de Saúde CR IST AIDS HepVirais
Conselho Local de Saúde DIC1
Conselho Local de Saúde Jardim Aurélia
Conselho Local de Saúde Orozimbo Maia
Conselho Local de Saúde Santa Rosa
Conselho Local de Saúde Santos Dumont
Conselho Local de Saúde São Cristóvão
Conselho Local de Saúde São José
Conselho Local de Saúde Taquaral
Coletivo Rua Tem Voz
Conselho Distrital de Saúde Leste
Conselho Distrital de Saúde Norte
Conselho Distrital de Saúde Sudoeste
Cozinha Solidária São Marcos
CTB – Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil
CUT Campinas – Central Única dos Trabalhadores
DCE UNICAMP – Diretório Central dos Estudantes
FCCR – Federação Comunitária de Campinas e região
FMDDHC – Fórum Municipal de Defesa dos Direitos Humanos de Campinas
Fórum Popular LGBTQAIPN+
Identidade – Grupo de Luta pela Diversidade Sexual
LCB – Liga Comunista Brasileira
Linhas Andorinhas
Mandato vereador Gustavo Petta
Mandato vereadora Guida Calixto
Marcha da Maconha de Campinas
MLAC – Movimento de Luta Antimanicomial de Campinas
MNU – Movimento Negro Unificado
OGG - Organização Gana Ganja
Oposição Unidade Luta
Pastoral da Criança
Pastoral Operária Campinas
PCBR – Partido Comunista Brasileiro Revolucionário
PCdoB Campinas – Partido Comunista do Brasil
PLP Cida da Terra – Promotoras Legais Populares
PSOL Campinas – Partido Socialismo e Liberdade
PT Campinas – Partido dos Trabalhadores
Radio Noroeste FM
SINDAE - Sindicato dos Trabalhadores da SANASA
Sindicato Construção Civil Campinas
Sindicato dos Bancários Campinas
Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas
Sindicato Químicos Unificados
Sindicato Radialistas SP
Sindicato Unificado Petroleiros SP - Regional Campinas
Sinergia Campinas – Sindicato Eletricitários
SINPOSPETRO Campinas - Sindicato dos Frentistas
SINPRO Campinas – Sindicato Professores
SintPq – Sindicato Trabalhadores em Pesquisa, Ciência e Tecnologia SP
STU – Sindicato Trabalhadores Unicamp
UNALGBT – União Nacional LGBT
UNEGRO – União de Negros e Negras pela Igualdade

136

Assinantes recentes:
Albanett Nestor e outras 19 pessoas assinaram recentemente.

O problema

À população de Campinas, aos trabalhadores da saúde e aos gestores públicos,

Vivemos um momento histórico de encruzilhadas para as políticas sociais no Brasil e no mundo. Assistimos ao crescimento de forças conservadoras e de ultradireita, marcadas pelo desprezo ao coletivo e pela busca de saídas individuais e mercantis, nas quais tudo pode ser transformado em mercadoria. Para essas forças, o Estado só serve como balcão de negócios para enriquecer ainda mais os de cima, retirando direitos e ampliando o fosso entre ricos e pobres. No Brasil, como temos visto, o Congresso é inimigo do povo: aos ricos e poderosos, tudo; ao povo trabalhador, semana de seis dias, precarização do trabalho e retirada de direitos.

Nesse contexto, o SUS é uma das principais vítimas da extrema direita e do neoliberalismo. Não, eles não querem acabar com o SUS, porque sabem que isso é impossível: sem o SUS seria o caos. O que querem é transformá-lo em um SUS pobre para os pobres. Querem acabar com a saúde como direito universal, deixando apenas uma “cesta básica” mínima de serviços para os muito pobres. Para os demais, a saúde deve ser mercadoria, comprada no mercado como se compra roupa ou sapato.

Não queremos esse SUS. Queremos um SUS universal, com saúde como direito de todos e acesso a toda a tecnologia médica e sanitária de que o mundo já dispõe. Não como favor, mas como direito.

Por isso nos dirigimos a vocês para reafirmar o valor inestimável do Sistema Único de Saúde e denunciar o projeto de desmonte que ameaça sua essência pública e universal.

1. O SUS que queremos: saúde como direito humano universal

O SUS é uma das maiores conquistas da democracia brasileira. É o único sistema do mundo que garante assistência integral e gratuita a mais de 200 milhões de pessoas. Cerca de 75% da população brasileira depende exclusivamente do SUS para seus cuidados em saúde.

Suas vitórias são incontestáveis: o maior sistema público de transplantes do mundo; um programa de imunização que é referência global; um dos melhores sistemas de cuidado às pessoas vivendo com HIV/AIDS; o cuidado em liberdade e no território das pessoas em sofrimento mental; a atenção às pessoas em situação de rua e a outras populações vulneráveis que não dão lucro ao mercado; as ações de promoção da saúde, e não apenas de tratamento do corpo doente; a vigilância da qualidade dos alimentos, medicamentos e da água que consumimos; o atendimento à maior parte das vítimas de acidentes, enchentes e outras emergências. Tente imaginar o Brasil sem o SUS: seria a barbárie.

Por tudo isso, afirmamos: defender o SUS é defender a ética do cuidado — a ideia de que a saúde não é mercadoria, mas direito humano, baseado na nossa interdependência, solidariedade e necessidades mútuas.

2. As ameaças: neoliberalismo, mercado e terceirizações

Apesar de sua força, o SUS sofre um ataque coordenado de forças neoliberais que ocupam espaços crescentes no Legislativo. Esse projeto busca transformar o direito à saúde em nicho de lucro, no qual a doença vira mercadoria. O Estado, que querem mínimo, é usado para garantir um SUS pobre para pobres e, direta ou indiretamente, financiar e fortalecer o setor privado.

Uma das principais causas dos problemas do SUS é o seu subfinanciamento crônico, desde que o neoliberalismo foi imposto no país, na década de 90. Gasta-se com a Saúde Pública no Brasil proporcionalmente metade do que os países europeus gastam com seus sistemas públicos. Soma-se a isto a renuncia a bilhões de reais anualmente por meio de deduções fiscais para hospitais, laboratórios e indústria de medicamentos e equipamentos . Ao permitir que ricos e milionários deduzam do imposto de renda seus gastos com saúde, tira-se do orçamento público aquilo que poderia fortalecer o SUS. Ao terceirizar trabalhadores e a gestão dos serviços, privilegia-se o mercado e se reforça a ideia de que a saúde pode ser mercadorizada.

Além disso, o crescimento desenfreado de emendas parlamentares sem planejamento técnico pulveriza o orçamento, favorece redutos eleitorais em detrimento de políticas de Estado e abre brechas para corrupção e fragmentação do cuidado.

O setor privado também pressiona o SUS ao utilizar a rede pública para procedimentos de alto custo que não são lucrativos para os planos, enquanto lucra com atendimentos simples. Outra expressão dessa relação perversa entre público e privado contratado pelo SUS é a existência das “duplas portas”: as dos planos de saúde são limpas, organizadas, bem cuidadas; as do SUS são superlotadas, muitas vezes sujas, com banheiros insuficientes e mal-conservados. É o desprezo pelo povo estampado na porta de entrada do cuidado.

3. A crise em Campinas: gestão fragmentada, ineficaz e desrespeito ao controle social

Em Campinas, a situação é calamitosa. O povo que o diga.

Vivemos há pelo menos uma década e meia grandes dificuldades no SUS local. E não é por acaso. O modelo de gestão desse período priorizou a economicidade, a tecnoburocracia e a terceirização em detrimento da carreira pública, resultando em graves problemas.

A existência da Rede Mário Gatti operando como uma “segunda secretaria” estabelece um duplo comando que dificulta a integração da rede e o planejamento estratégico. A consequência é a piora da qualidade da atenção, algo frequentemente relatado por usuários.

O avanço de empresas terceirizadas em áreas críticas, como os hospitais Mário Gatti e Ouro Verde e as UPAs, trouxe perda de qualidade decorrente da precarização do trabalho, conforme avaliação de conselheiros e usuários. A consequência apareceu de forma dramática no recente surto de bactérias multirresistentes, com fechamento de leitos de UTI e repercussão em todo o SUS local, agravando a superlotação de outros hospitais. Ao contrário do que se prometeu, não se reduziram de forma efetiva os tempos de espera nos pronto-socorros nem para internações e cirurgias eletivas, ao mesmo tempo em que aumentaram as queixas quanto à qualidade dos serviços. E a corrupção, tão frequente em municípios que terceirizaram seus serviços, já esteve presente aqui e segue sempre à espreita.

Também assistimos a um preocupante desrespeito ao Conselho Municipal de Saúde e aos Conselhos Locais. As decisões são tomadas de forma tecnoburocrática, sem escuta real da população, transformando instâncias de participação em meros homologadores do que já foi decidido. Na gestão dos serviços, vale mais o preenchimento de planilhas e o alcance de metas do que o diálogo e planejamento com trabalhadores e usuários, que conhecem concretamente a realidade.

Ao mesmo tempo, a prefeitura demonstra pouca influência na gestão regional da saúde, falhando em coordenar de forma eficaz a retaguarda de leitos e referências com as cidades vizinhas e com o Estado. Inúmeros estudos mostram a necessidade de uma gestão regional forte. No nosso caso, por ser Campinas o município mais importante da região, essa liderança deveria ser exercida com clareza. Mas nossas gestões, incapazes de reconhecer essa responsabilidade, não a assumem como deveriam.

Nossa atenção primária, por sua vez, em grande medida desistiu de seu papel de coordenar o cuidado das pessoas e, com isso, de ordenar os demais níveis do sistema. Uma atenção básica efetiva evita adoecimentos, recupera pessoas doentes, previne crises agudas em pacientes crônicos, reduz encaminhamentos para especialidades, internações e procura por pronto-socorros, além de facilitar diagnóstico precoce e cuidado oportuno. Mas como cumprir esse papel se temos menos equipes do que o necessário e equipes incompletas? Se há territórios sem o número adequado de unidades, criando vazios assistenciais? Se persistem burocracias inúteis, como agendamento de consultas apenas uma vez por mês, exigências descabidas de documentos e fluxos que mais dificultam do que ajudam?

As consequências são conhecidas: filas de madrugada, demora para conseguir cuidado, atraso no início de tratamentos, tratamentos interrompidos, agravamento de doenças, deslegitimação do SUS e formação de um círculo vicioso de sofrimento e descrédito.

4. Propostas para a superação: o caminho do cuidado ético, solidário e como direito

Para reverter esse quadro e salvar o SUS em nossa cidade, propomos:

  • fim das barreiras na atenção primária, com agendamentos todos os dias e a todo momento nas unidades básicas, acolhimento durante todo o horário de funcionamento e serviços como vacinação e entrega de medicamentos disponíveis durante todo o tempo de funcionamento da unidade;
  • completar imediatamente as equipes da atenção primária, dos ambulatórios, hospitais e UPAs;
  • ampliar o número de equipes de Saúde da Família e de Saúde Bucal, priorizando os territórios mais vulneráveis;
  • construir novas unidades de saúde, acabando com os vazios assistenciais;
  • extinguir o duplo comando, centralizando a autoridade sanitária na Secretaria Municipal de Saúde para garantir uma rede única e integrada;
  • substituir gradativamente as terceirizações por profissionais concursados, garantindo continuidade do cuidado e a “alma” da atenção primária;
  • ampliar o cuidado em saúde mental, melhorando o acolhimento de pacientes em crise e fortalecendo o vínculo com os usuários, com aumento do número de CECOS, CAPS e outros serviços;
  • melhorar o plano de cargos e carreiras para os profissionais da saúde, valorizando o tempo de serviço e a fixação em territórios vulneráveis;
  • promover uma democracia radical na saúde, transformando os Conselhos Locais em verdadeiros instrumentos de cogestão, nos quais orçamento e prioridades do território sejam decididos em parceria com a comunidade.
  • liderar a gestão regional do SUS, melhorando a integração com os outros municípios da região metropolitana.

 

A saúde não pode esperar e a vida não tem preço. Somente um SUS público, estatal, universal e participativo poderá garantir a dignidade do povo de Campinas.

 

Campinas, SP, abril de 2026
Assinam este documento:

MOPS (Movimento Popular de Saúde de Campinas)

Conselho Municipal de Saúde de Campinas
ADACAMP – Associação Desenvolvimento Autistas Campinas
ADUNICAMP – Associação Docentes UNICAMP
AEESSP – Associação Educadoras Educadores Sociais SP
AIEJI – Associação Internacional de Educadores Sociais
Associação Mulheres Campinas
ASSUCAMP – Associação Surdos Campinas
Brigada Suçuarana
CDDH Campinas – Centro de Defesa de Direitos Humanos
CEDAP – Centro de Educação e Assessoria Popular
Conselho Local de Saúde Ambulatório Transcender
Conselho Local de Saúde Barão Geraldo
Conselho Local de Saúde Conceição
Conselho Local de Saúde CR IST AIDS HepVirais
Conselho Local de Saúde DIC1
Conselho Local de Saúde Jardim Aurélia
Conselho Local de Saúde Orozimbo Maia
Conselho Local de Saúde Santa Rosa
Conselho Local de Saúde Santos Dumont
Conselho Local de Saúde São Cristóvão
Conselho Local de Saúde São José
Conselho Local de Saúde Taquaral
Coletivo Rua Tem Voz
Conselho Distrital de Saúde Leste
Conselho Distrital de Saúde Norte
Conselho Distrital de Saúde Sudoeste
Cozinha Solidária São Marcos
CTB – Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil
CUT Campinas – Central Única dos Trabalhadores
DCE UNICAMP – Diretório Central dos Estudantes
FCCR – Federação Comunitária de Campinas e região
FMDDHC – Fórum Municipal de Defesa dos Direitos Humanos de Campinas
Fórum Popular LGBTQAIPN+
Identidade – Grupo de Luta pela Diversidade Sexual
LCB – Liga Comunista Brasileira
Linhas Andorinhas
Mandato vereador Gustavo Petta
Mandato vereadora Guida Calixto
Marcha da Maconha de Campinas
MLAC – Movimento de Luta Antimanicomial de Campinas
MNU – Movimento Negro Unificado
OGG - Organização Gana Ganja
Oposição Unidade Luta
Pastoral da Criança
Pastoral Operária Campinas
PCBR – Partido Comunista Brasileiro Revolucionário
PCdoB Campinas – Partido Comunista do Brasil
PLP Cida da Terra – Promotoras Legais Populares
PSOL Campinas – Partido Socialismo e Liberdade
PT Campinas – Partido dos Trabalhadores
Radio Noroeste FM
SINDAE - Sindicato dos Trabalhadores da SANASA
Sindicato Construção Civil Campinas
Sindicato dos Bancários Campinas
Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas
Sindicato Químicos Unificados
Sindicato Radialistas SP
Sindicato Unificado Petroleiros SP - Regional Campinas
Sinergia Campinas – Sindicato Eletricitários
SINPOSPETRO Campinas - Sindicato dos Frentistas
SINPRO Campinas – Sindicato Professores
SintPq – Sindicato Trabalhadores em Pesquisa, Ciência e Tecnologia SP
STU – Sindicato Trabalhadores Unicamp
UNALGBT – União Nacional LGBT
UNEGRO – União de Negros e Negras pela Igualdade

136 pessoas assinaram esta semana

136


Mensagens de apoiadores

Atualizações do abaixo-assinado
Compartilhar este abaixo-assinado
Abaixo-assinado criado em 30 de março de 2026