Carta Aberta À Fuvest

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O problema

Carta Aberta À Fuvest

A. Razão pela qual escrevemos a carta
 A Fundação Universitária para o Vestibular (FUVEST), que organiza o exame de ingresso à Universidade de São Paulo (USP), anunciou, em dezembro de 2024, a possibilidade de cobrar outros gêneros textuais além do dissertativo-argumentativo, exigido até a edição de 2025. Desde o anúncio, porém, essa alteração não ganhou delimitações claras, sendo divulgada, em diferentes plataformas e mídias, por meio de textos com ambiguidades e lacunas, o que tem provocado incerteza entre os candidatos. 

Diante de tamanha insegurança por parte de quem se dedica a um acesso de antemão desigual ao Ensino Superior, essa carta tem o propósito de reivindicar transparência, visando à qualidade dos estudos e da preparação de aulas que envolvem o corpo discente e docente do país.

B. Quem somos nós e por que acreditamos que devemos ser lidos com atenção

 Somos estudantes. Somos um grupo de jovens que, inseridos no processo intenso e exigente da preparação para o vestibular, compartilha uma rotina não apenas de estudos e de expectativas, mas também de inquietações. 

Essa carta, porém, não nasce do nada, nem da indignação isolada de um grupo; mas sim da reflexão acerca das estruturas sociais que nos atravessam. Nós, sujeitos da sociedade contemporânea neoliberal, cujos aspectos nos impactam diretamente, possuímos o direito e o dever como cidadãos de analisar e criticar a ausência de clareza e de transparência de uma instituição associada à educação pública nacional. Instituição essa que, por meio de suas tradicionais propostas de redação, formou intelectual e criticamente muitos jovens.

Foi por meio da coletânea da prova de 2013, por exemplo — a qual mostrava a imagem de um anúncio publicitário com o slogan “Aproveite o melhor que o mundo tem a oferecer com o cartão de crédito X” — que aprendemos a enxergar os discursos por trás das imagens, suas mentalidades implícitas, seus valores sugeridos e suas visões de mundo. Entendemos que nenhuma mensagem é neutra e que toda construção textual carrega interesses, escolhas e perspectivas. 

Ao expandirmos esse conhecimento e o relacionarmos com outro fragmento marcante — como o excerto de Henri Bergson presente na prova de 2022, sobre as faces do riso — fomos levados a compreender que analisar um fenômeno requer inseri-lo em seu ambiente natural: a sociedade — “impõe-se sobretudo determinar-lhe a função útil, que é uma função social (…)”. E foi a própria FUVEST, ainda na prova de 2017, que nos apresentou um texto do filósofo Kant, em que ele refletiu que: “O homem é o próprio culpado dessa menoridade quando ela não é causada por falta de entendimento mas, sim, por falta de determinação e de coragem para servir-se de seu próprio entendimento sem a tutela de um outro”, conclamando-nos à superação da menoridade intelectual, à coragem de pensar por conta própria, mesmo diante do medo e da dificuldade.

Não é de se estranhar, portanto, que estejamos aqui, hoje, atentos e críticos diante das contradições de uma banca que, em sua própria história, nos ensinou a investigar os discursos que regem o mundo. A mesma prova que nos convidou a refletir sobre os efeitos do consumo e sobre o poder do humor enquanto fenômeno social agora nos confronta com um cenário incerto e lacunoso, onde as regras parecem se dissolver justamente no momento em que mais precisamos delas. É essa formação crítica, construída em parte com o auxílio da própria FUVEST, que hoje nos impulsiona a escrever esta carta — e é também isso que justifica, com ainda mais força, por que devemos ser lidos com atenção.

Àqueles cuja rotina envolve a preparação para provas de alto nível, como é o caso desta de que tratamos, não é segredo que vivemos a realidade de estudar sem poder desenhar muitas projeções e sem qualquer garantia. Talvez o distanciamento entre o mundo acadêmico — o qual imaginamos que dá contornos à rotina dos membros da Fundação — e as vivências de um vestibulando impeçam a compreensão completa da magnitude que as mudanças propostas geram. Por isso, viemos, respeitosamente, trazer a visão de quem está vivendo esse processo — contar a nossa versão da história que, como afirmou a escritora nigeriana Chimamanda Adichie em uma palestra intitulada “Os perigos de uma história única", nunca tem apenas um lado. É, inclusive, perigoso que aos menos poderosos seja sempre atribuída a segunda voz em uma discussão.

Além disso, apesar de a educação ser um direito fundamental, sabemos que, no Brasil, o acesso ao Ensino Superior de qualidade ainda é extremamente restrito. Ingressar em uma universidade pública renomada, como a USP, frequentemente líder nos rankings de avaliação das universidades do país, é tão difícil que, muitas vezes, jovens sequer conhecem essa possibilidade ou não se permitem sonhar com ela. Para aqueles que tentam, o caminho é árduo: o processo de ser vestibulando é oneroso, exige apoio financeiro de terceiros ou impõe a necessidade de conciliar o trabalho com os estudos, o que acarreta um período repleto de pressão psicológica.

A nova identidade visual da FUVEST, nesse sentido, nos sugere que essas são, também, preocupações da Fundação, já que ela traz o lema “Vencerás pela educação”, reforçando a importância da escolarização para a ascensão social, para o "vencer na vida” de uma sociedade neoliberal. É inegável que o acesso ao ensino superior representa um divisor de águas na vida de muitas pessoas — especialmente nas de classes sociais mais baixas. No entanto, a frase carrega em si uma forte noção meritocrática, que alude à naturalização de um processo desigual, ao desconsiderar que a preparação adequada para um vestibular depende, hoje, de condições materiais e não apenas do esforço individual. Nesse sentido, a falta de informações que poderiam garantir alguma forma de equidade ao processo cria uma contradição entre a crença na educação e a crença naquilo que o dinheiro pode comprar.

Ainda que uma banca avaliadora não seja capaz de transformar sozinha a realidade educacional de um país marcado por desigualdades, ela dita o tom de como muitos enxergam a educação. É a partir de suas exigências que se desenrola um processo retroativo que nos alcança, às vezes, no início do Ensino Fundamental (a proposta de 2024, inclusive, nos colocou para pensar sobre o Ensino Básico e sobre como, nele, a reflexão e o ócio são diminuídos em favor de uma lógica produtivista). 

Logo, acreditamos que, diante de tantas renúncias feitas por milhares de candidatos ao longo desse percurso, a clareza dos objetivos da banca é essencial: demonstra o compromisso com uma avaliação justa e respeitosa, contribui para reduzir a ansiedade do processo seletivo e reforça o papel da FUVEST como referência nacional em avaliação há quase 50 anos.

C. Reivindicações e argumentos:

Nos dias 26 e 27 de abril de 2025, houve a realização do Simulado de Redação Fuvest, que apresentou as seguintes exigências: “Proposta 1: Redija uma dissertação, na qual você exponha seu ponto de vista sobre o tema: As emoções e sua interferência no processo de comunicação / Proposta 2: Redija uma crônica que envolva um episódio de comunicação emotiva.”

Inicialmente, acreditávamos que a simulação nos ajudaria a compreender as novas diretrizes do processo seletivo — especificamente em torno da prova de redação —, porque estamos bastante habituados a simular provas, isso é parte de nossa preparação. Entretanto, acabamos a atividade com mais perguntas do que respostas. 

Após essa falta de clareza e de transparência do simulado de redação, em entrevista à Revista Educação, Gustavo Monaco, diretor executivo da FUVEST, quando perguntado sobre as alterações avaliativas, disse: “Na redação, passa a ser possível cobrar mais do que um gênero textual. As pessoas estão muito preocupadas com isso. Eu só lembro que não havia uma regra que obrigasse a ser dissertação, isso era um costume. Agora está explícito que podem ser cobrados outros gêneros textuais.” A fala do representante da Fundação nos acendeu um alerta: será que os responsáveis pelas mudanças conhecem a rotina de um vestibulando? Sentimos, ao ler a entrevista, desprezo por parte do representante da instituição diante de uma mudança que afeta o nosso estudo num cenário cada vez mais competitivo (considerando que a Universidade não está, simultaneamente às alterações, abrindo mais inúmeras vagas). Portanto, diante dos aspectos levantados, queremos reivindicar:


I- O acesso à fundamentação teórica e educativa por trás das escolhas da mudança do vestibular 

Uma transformação tão significativa no formato de uma das etapas mais importantes do vestibular — a redação — exige justificativas públicas, pedagógicas e transparentes. No entanto, até o momento, recebemos apenas fragmentos de informações em relação às mudanças de vestibular, seja por stories no Instagram comunicando que no vestibular oficial seria exigida a escrita de apenas uma redação, seja no site da Fuvest, em que foram liberados documentos avulsos que explicavam de forma rasa tanto o simulado ocorrido em abril quanto às mudanças em vigor para o ano de 2025. 

Esse cenário fez com que sentíssemos estar montando um quebra cabeça incompleto, tendo em vista que poucas informações, distribuídas de forma aleatória em mais de um veículo de comunicação, refletem a falta de clareza e de organização quanto à divulgação das mudanças formuladas desde o final de 2022 — como afirmou o diretor-executivo da FUVEST, Gustavo Mônaco, em uma entrevista para a Revista Educação. 

Surgem, como consequência, dúvidas entre os alunos, os professores e os profissionais das Letras e da Educação: 

  • Quais critérios nortearam essa reformulação?
  • Quais lacunas foram identificadas no modelo anterior de dissertação-argumentativa?
  • Houve escuta de especialistas da área de linguagem, professores da educação básica e universitários?
  • A cobrança de gêneros textuais é fixada no modelo do simulado - crônica e dissertação - ou será cobrada uma diversidade de tipos textuais?
  • Tendo em vista a pouca clareza dos enunciados dos simulados, será exigida dos alunos uma memorização mecânica das características de distintos gêneros textuais previamente à situação de prova?                                                                                                                              Podemos, de certa forma, comparar a instauração de novos gêneros textuais na redação da FUVEST com a mudança pensada em 2005 e realizada pela Unicamp no ano de 2010*. Entretanto, os corpos discente e docente nacionais possuem informações completas quanto à base teórica formulada pela Comvest no livro “A Redação No Vestibular Unicamp: O que e como se avalia”, organizado por Márcia Mendonça e Cynthia Agra de Brito Neves, enquanto o cenário atual apresentado da Fuvest se mostra desorganizado, raso e pouco transparente.

Além disso, é de nosso receio a questão de estarmos diante de um esforço genuíno de democratização, de uma tentativa de alinhamento às diretrizes da BNCC, ou da adesão a lógicas neoliberais de flexibilização, de eficiência e de corte de gastos. Essa última, sim, ainda que de forma disfarçada, observamos na prática: vende-se uma nova imagem de gestão ágil e adaptável, mas não se apresentam dados concretos, nem é construído um diálogo com os sujeitos diretamente afetados — alunos e professores. A consequência disso é o esvaziamento progressivo da prova enquanto instrumento sério de avaliação. Em outras palavras, o que se desenha é um grande emaranhado neoliberal, onde se confundem agilidade com improviso, inovação com instabilidade, e eficiência com precarização.

É de nossa reivindicação, portanto, a publicação de respostas quanto às dúvidas já citadas que envolvem as explicações pedagógicas para as reformulações abordadas e os esclarecimentos diante das incertezas apresentadas por nós, alunos.

*https://unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/dezembro2009/ju450_pag03.php 

II- O esclarecimento, de forma clara e detalhada, das novas diretrizes da prova de redação, e que a FUVEST antecipe a divulgação do edital do Vestibular 2026.

 Embora a redação seja, historicamente, uma das etapas que mais suscitam dúvidas entre os estudantes, o único documento divulgado até o momento que trata das possíveis mudanças — o Programa do Vestibular 2026 — dedicou à prova pouco mais de dez linhas. Nesse trecho, afirma-se:

 “A proposta de Redação poderá requerer a elaboração de mais de um gênero textual”, nos quais se evidenciem “traços composicionais distintos daqueles esperados nas dissertações tradicionais”. Também se indica que a prova buscará explorar habilidades listadas para a área de Linguagens e suas Tecnologias, a partir de propostas que: “estabeleçam relações entre textos verbais e multissemióticos”; “observem os usos da língua nos meios digitais em suas múltiplas variações”; considerem “excertos de obras de literaturas em língua portuguesa e de temáticas filosófico-sociais”; exijam “atenção às normas que regulam os textos científicos”; e requeiram uma argumentação sustentada por “princípios retóricos (de comoção, instrução e deleite do leitor)” e por “informações e dados extraídos de fontes verificadas e seguras”.                                    

          Apesar do vocabulário técnico e da aparente robustez atribuída à proposta, o texto peca por ser excessivamente vago justamente nos pontos que mais demandam clareza. Em linhas gerais, o documento reafirma competências que já vinham sendo exploradas nas edições anteriores da prova, como o estabelecimento de relações entre textos verbais e multissemióticos, a mobilização de referências literárias e filosófico-sociais, ou ainda a exigência de argumentação sustentada por dados e informações verificáveis — nenhuma dessas diretrizes representa uma real novidade. Da mesma forma, a menção à necessidade de atenção às normas dos textos científicos, embora importante, não esclarece seu papel na construção do texto do candidato: esses textos aparecerão apenas nas coletâneas? Devem ser simulados na produção textual? Em que medida influenciarão os critérios de correção? De quais textos científicos estamos falando?

No entanto, o aspecto mais sensível e urgente da mudança — a possibilidade de cobrança de diferentes gêneros textuais — permanece obscuro. Quais seriam, afinal, esses gêneros? Como serão apresentados na prova? O que se espera do candidato em termos de estrutura, linguagem e conteúdo? Como se dará a avaliação dos textos que não seguem o padrão dissertativo-argumentativo? Nenhuma dessas perguntas encontra resposta objetiva no documento.

  Ao evitar explicitar essas questões, a banca transfere para os candidatos e professores a tarefa de interpretar (ou adivinhar) o que virá, impondo-lhes um desafio adicional e desigual. Além disso, sem exemplos concretos, sem delimitações operacionais e com linguagem nebulosa, o texto oficial contribui mais para o aumento da confusão do que para a construção de um percurso formativo sólido. É como se, frente à promessa de uma reforma, deixassem de fora justamente o projeto arquitetônico.

Diante disso, reivindicamos a publicação, com antecedência, do Edital do Vestibular 2026 — documento oficial, normativo, que deve garantir transparência, isonomia de condições e previsibilidade a todos os candidatos. Esse documento precisa ser acompanhado de informações mais completas, linguagem acessível e estrutura compatível com a função pública que ele deve cumprir: a de fornecer a nós informações claras e detalhadas sobre o novo formato da prova. 

Em um contexto de tamanhas dúvidas, a postergação da divulgação desse material — que geralmente ocorre no segundo semestre do ano —reforça o abismo entre quem planeja o exame e quem precisa enfrentá-lo. Pior: colabora para uma cultura de desgaste emocional e de incerteza permanente, transferindo o peso da adaptação para os mais vulneráveis, como se fosse responsabilidade do candidato se virar para decifrar o que a banca ainda não disse. 

III- A responsabilização ética e institucional por parte da FUVEST na comunicação pública de qualquer mudança relativa ao vestibular.

O fluxo de informações nas redes, bem como a efemeridade de recursos, como stories e tweets, não dinamiza ou mesmo “moderniza” a comunicação vestibular-vestibulando, mas sim a deixa confusa e desorganizada ao pulverizá-la por inúmeras plataformas, passando por entrevistas pouco esclarecedoras em periódicos virtuais de nicho — a Revista Educação, por exemplo. Comunicar-se com clareza e responsabilidade não é um favor: é uma obrigação ética de qualquer instituição que se proponha a organizar uma das maiores provas de acesso ao ensino superior do país. A FUVEST, no entanto, tem recorrido a práticas comunicacionais que mais confundem do que esclarecem.

  O uso de canais midiáticos fragmentados e a falta de consistência nos posicionamentos revelam uma postura que relativiza o direito à informação dos candidatos. Tal atitude só se sustenta porque a relação entre banca e estudante ainda é assimétrica: a primeira age, a segunda se adapta. Mas é justamente esse modelo — autorreferente, opaco, distante — que precisamos desmontar. Exigimos que a Fundação reveja sua postura institucional e se comprometa com uma política de comunicação pública transparente, honesta e acessível.

IV. - A necessidade de maior precisão vocabular nos enunciados e sua relação com a coletânea

 As propostas de redação da FUVEST sempre foram amplamente reconhecidas como referência entre os vestibulares que exigem dissertação argumentativa. Muito elogiadas por professores, e ao mesmo tempo temidas por muitos estudantes, elas se destacavam pela elaboração criteriosa das coletâneas, que apresentavam textos motivadores interconectados de maneira coesa, alinhados à frase temática e capazes de provocar reflexões sobre o mundo contemporâneo. Exigia-se dos candidatos um alto grau de interpretação de texto e domínio da escrita, mas a clareza conceitual, a construção lógica e a ausência de ambiguidades limitantes possibilitavam a produção de boas redações.

Um excelente exemplo dessa qualidade pode ser visto na prova de 2015, cujo tema foi: “Camarotização da sociedade brasileira: a segregação das classes sociais e a democracia.” A banca, de forma didática, definiu o termo “camarotização” e apresentou, através de textos do professor Michael J. Sandel, a relação entre grupos socioeconômicos e o impacto sobre ideários democráticos. Assim, o vestibulando, conduzido a compreender o fenômeno e, ainda, convidado a expandi-lo com o que observa no seu cotidiano, demonstrava pensamento crítico e argumentação sólida.

 No entanto, ao analisarmos a proposta de 2025, cujo o tema foi: “As relações sociais por meio da solidariedade”, notamos uma brusca mudança. A ausência de definições claras para o conceito central dificultou a distinção entre solidariedade e caridade, termos que, inclusive, pareceram ser utilizados como sinônimos na própria coletânea. A interconexão entre os textos motivadores não ficou clara, nos gerando insegurança na interpretação da proposta e comprometendo a construção argumentativa. 

Essa mesma situação ocorreu no Simulado de Redação da FUVEST, em que a frase temática era “As emoções e sua interferência no processo de comunicação”; os textos guiavam o aluno a refletir sobre os tipos de linguagem que rodeiam a sociedade, já o tema exigia argumentação acerca da comunicação. Embora sejam termos de campos semânticos próximos, eles não são intercambiáveis, o que desencadeia uma ambiguidade na compreensão da proposta e, consequentemente, gera uma desestruturação no planejamento do texto a ser redigido.

Outro impasse também foi observado em relação à construção do enunciado para a produção da crônica, já que este não fornecia um detalhamento preciso sobre o tipo de texto que estava sendo solicitado. O gênero crônica é flexível e admite várias construções, podendo ela ser narrativa, descritiva, jornalística, dissertativa, humorística, entre outros. A imprecisão do enunciado somada à escassez de tempo gerou diversas dúvidas e comprometeu a elaboração textual, entrando em conflito com uma das principais intenções do simulado: entender como seria a abordagem de novos gêneros.

Além disso, a coletânea oferecida no simulado contava com um texto do filósofo Martin Heidegger, presente em sua obra “Construir, Habitar, Pensar”, que exigia dos participantes uma habilidade para além da interpretação: o conhecimento sobre conceitos da linguística. A falta deste afetava em grande parte a capacidade de relação e de compreensão das intersecções do pensamento filosófico com a frase temática tanto da dissertação como da crônica. A ausência de tal disciplina na educação básica coloca em contradição a seleção da filosofia heideggeriana, afinal, uma das intenções da mudança da prova era aproximá-la da BNCC. Ao mesmo tempo, ela simula essa modificação exigindo habilidades as quais não são fornecidas pelo ensino que antecede o ingresso nas universidades.

 A decisão da USP em extinguir o curso de licenciatura em linguística, no dia 24 de abril, reforça ainda mais essa contradição na medida em que as justificativas foram a baixa demanda de mercado e a ausência dessa disciplina na educação básica brasileira. Nessa perspectiva, é paradoxal a expectativa da banca que tenhamos — ou que busquemos — tal conhecimento enquanto a própria instituição vota para acabar com a disciplina capaz de formar professores para ensiná-lo.

As propostas que antes pareciam ser cuidadosamente pensadas para impulsionar a produção de boas dissertações, hoje frequentemente geram confusão e reforçam a insegurança dos candidatos — que já enfrentam, naturalmente, um momento de grande tensão durante a prova.

 Reivindicamos coletâneas bem elaboradas, redigidas por especialistas em Letras e em Educação que compreendam a complexidade do vestibular e as reais condições dos estudantes. Esperamos textos motivadores que apresentem interconexões possíveis, clareza nos conceitos centrais, linguagem acessível, mesmo quando mais acadêmica, e temas relacionados a fenômenos observáveis na realidade contemporânea.

 Só assim será possível restabelecer a confiança dos candidatos na proposta de redação, resgatando seu papel como referência de excelência e permitindo que possamos estudar com clareza e, no dia da prova, expressar nosso potencial com textos coerentes, críticos e bem fundamentados.


V. A coerência com os valores e pensamentos que a banca valoriza na prova

A partir das exposições anteriores, fica evidente o papel da Fuvest na formação do senso crítico de seus candidatos, ao relacionar características sociais e bons textos motivadores, muitas vezes de caráter filosófico, sociológico, antropológico, a banca fornece substrato não só à criação de bons textos, como também para relevantes reflexões. 

No entanto, ao propagar um estado de pouca clareza, seja comunicacional, seja direcional, a banca instaura uma tensão e ansiedade generalizada entre os alunos; desnorteados pela incoerência comunicativa e os já penosos itinerários de estudo, resta a eles gerenciar os seus tempos entre o navegar pelas redes sociais da banca em busca de informações fragmentadas e o estudo mecânico dos conteúdos cobrados pela prova – a reflexão, no meio dessa operação multitarefa — fica para segundo ou mesmo terceiro plano. 

A FUVEST, assim, contradiz as ideias que propaga. O tema da edição de ingresso de 2024, cujo tema da redação — já citado por nós — era “ Educação básica e formação profissional: entre a multitarefa e a reflexão” trazia uma coletânea crítica à multitarefa. O texto 1, fragmento do livro “Sociedade do cansaço”, do pensador germano-coreano Byung-Chul-Han, associa essa característica a um retrocesso à animalidade, estado no qual não há contemplação. O texto 2, de Domenico de Masi, é, no entanto, elogioso ao ócio, ressaltando uma educação que poderia valorizar o tempo solitário, o lúdico e a interioridade. 

Exigimos, portanto, um alinhamento às próprias reflexões propagadas pela banca. Afinal, quando esta não alinha o discurso com a prática, a crítica torna-se apenas um corpo grande, desengonçado e sem direcionamento .

VI.  A transparência dos gastos e do balanço patrimonial do vestibular

 A FUVEST é uma fundação privada sem fins lucrativos, de modo que dedica uma área de seu site à transparência institucional. No entanto, observamos que o último balanço patrimonial divulgado foi referente ao ano de 2022 e o último relatório anual disponível data de 2023. Coincidentemente, em julho de 2022 houve a troca de toda a diretoria executiva e da presidência do conselho curador, momento em que os atuais membros assumiram suas funções. Ao analisarmos os currículos dos integrantes da nova gestão, constatamos que poucos possuem trajetória profissional consolidada em áreas diretamente ligadas diretamente à educação — em contraste com gestões anteriores, como a da ex-diretora executiva, Belmira Amelia de Barros Oliveira Bueno, vinculada à Faculdade de Educação da USP (FEUSP).

 Desde essa transição, circularam nas mídias rumores sobre possíveis mudanças no modelo da prova, que viriam a se confirmar em dezembro de 2024, com o anúncio da introdução de gêneros textuais diversos na redação do vestibular, rompendo com o histórico da dissertação argumentativa. 


 Cabe destacar ainda que, entre 2021 e 2022 — ano da mudança de gestão — os documentos da própria fundação revelam que os gastos diretamente relacionados à realização do vestibular caíram de R$23.257.074 para R$15.418.171, configurando um decréscimo de R$7.838.903 ou cerca de 33,5%. Paralelamente, o valor da taxa de inscrição aumentou de R$182 para R$191. Tal aumento, contudo, não parece ter sido revertido em melhorias na aplicação ou na qualidade da prova.

 Diante desses fatos, solicitamos que a FUVEST preste esclarecimentos sobre os balanços patrimoniais e relatórios anuais mais recentes, de forma a justificar as decisões tomadas pela banca, os cortes orçamentários e as mudanças que têm impactado significativamente a experiência dos candidatos.

 

 

 

 

 

 FUVEST. Fuvest, 2025. Balanços Patrimoniais. Disponível em: <https://www.fuvest.br/wp-content/uploads/FUVEST_2022_Balanco.pdf >. Acesso em: 28 de maio de 2025

D. Conclusão e convocação à ação 

Assim, a arbitrariedade apresentada tem ganhado maior escopo diante da lógica de reprodução do capital, cada vez mais inflada na era das redes sociais pelo seu caráter efêmero, o que reflete a falta de clareza e direcionamento adequado quanto ao vestibular realizado pela FUVEST. Por isso, nós contamos com o apoio da academia, dos professores e dos demais estudantes impactados por este novo modelo de gestão da Fundação, para que se juntem a nós, em prol de maiores informações acerca do que se espera com a nova redação do vestibular. Afinal, a mudança é boa quando acompanhada pela comunidade.

Convidamos outros estudantes, professores, coletivos educacionais e instituições de ensino a se somarem a esta carta. Esta não é apenas uma reivindicação por maior clareza em um edital: trata-se de uma defesa ativa da educação pública, do direito à informação e da justiça nos processos de seleção. O vestibular não é um espaço neutro — é uma arena de disputas simbólicas e materiais que determina, em grande medida, quem pode sonhar e com quais ferramentas.

Por isso, esta carta não busca encerrar o debate, mas abri-lo. Que ela seja ponto de partida para novas conversas, articulações e ações coletivas. Seguiremos mobilizados, atentos e críticos, e esperamos que a FUVEST se disponha a escutar não apenas vozes, mas argumentos. Somos sujeitos históricos. E é em nome dessa consciência que exigimos mudanças — e convidamos todos aqueles que compartilham dessa inquietação a se unir a nós.

Para adesões e contato, escreva para: cartaabertafuvest2026@gmail.com

Se você quiser se juntar a essa reivindicação, convidamos à assinatura desta carta abaixo.

 

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Diante de tamanha insegurança por parte de quem se dedica a um acesso de antemão desigual ao Ensino Superior, essa carta tem o propósito de reivindicar transparência, visando à qualidade dos estudos e da preparação de aulas que envolvem o corpo discente e docente do país.

B. Quem somos nós e por que acreditamos que devemos ser lidos com atenção

 Somos estudantes. Somos um grupo de jovens que, inseridos no processo intenso e exigente da preparação para o vestibular, compartilha uma rotina não apenas de estudos e de expectativas, mas também de inquietações. 

Essa carta, porém, não nasce do nada, nem da indignação isolada de um grupo; mas sim da reflexão acerca das estruturas sociais que nos atravessam. Nós, sujeitos da sociedade contemporânea neoliberal, cujos aspectos nos impactam diretamente, possuímos o direito e o dever como cidadãos de analisar e criticar a ausência de clareza e de transparência de uma instituição associada à educação pública nacional. Instituição essa que, por meio de suas tradicionais propostas de redação, formou intelectual e criticamente muitos jovens.

Foi por meio da coletânea da prova de 2013, por exemplo — a qual mostrava a imagem de um anúncio publicitário com o slogan “Aproveite o melhor que o mundo tem a oferecer com o cartão de crédito X” — que aprendemos a enxergar os discursos por trás das imagens, suas mentalidades implícitas, seus valores sugeridos e suas visões de mundo. Entendemos que nenhuma mensagem é neutra e que toda construção textual carrega interesses, escolhas e perspectivas. 

Ao expandirmos esse conhecimento e o relacionarmos com outro fragmento marcante — como o excerto de Henri Bergson presente na prova de 2022, sobre as faces do riso — fomos levados a compreender que analisar um fenômeno requer inseri-lo em seu ambiente natural: a sociedade — “impõe-se sobretudo determinar-lhe a função útil, que é uma função social (…)”. E foi a própria FUVEST, ainda na prova de 2017, que nos apresentou um texto do filósofo Kant, em que ele refletiu que: “O homem é o próprio culpado dessa menoridade quando ela não é causada por falta de entendimento mas, sim, por falta de determinação e de coragem para servir-se de seu próprio entendimento sem a tutela de um outro”, conclamando-nos à superação da menoridade intelectual, à coragem de pensar por conta própria, mesmo diante do medo e da dificuldade.

Não é de se estranhar, portanto, que estejamos aqui, hoje, atentos e críticos diante das contradições de uma banca que, em sua própria história, nos ensinou a investigar os discursos que regem o mundo. A mesma prova que nos convidou a refletir sobre os efeitos do consumo e sobre o poder do humor enquanto fenômeno social agora nos confronta com um cenário incerto e lacunoso, onde as regras parecem se dissolver justamente no momento em que mais precisamos delas. É essa formação crítica, construída em parte com o auxílio da própria FUVEST, que hoje nos impulsiona a escrever esta carta — e é também isso que justifica, com ainda mais força, por que devemos ser lidos com atenção.

Àqueles cuja rotina envolve a preparação para provas de alto nível, como é o caso desta de que tratamos, não é segredo que vivemos a realidade de estudar sem poder desenhar muitas projeções e sem qualquer garantia. Talvez o distanciamento entre o mundo acadêmico — o qual imaginamos que dá contornos à rotina dos membros da Fundação — e as vivências de um vestibulando impeçam a compreensão completa da magnitude que as mudanças propostas geram. Por isso, viemos, respeitosamente, trazer a visão de quem está vivendo esse processo — contar a nossa versão da história que, como afirmou a escritora nigeriana Chimamanda Adichie em uma palestra intitulada “Os perigos de uma história única", nunca tem apenas um lado. É, inclusive, perigoso que aos menos poderosos seja sempre atribuída a segunda voz em uma discussão.

Além disso, apesar de a educação ser um direito fundamental, sabemos que, no Brasil, o acesso ao Ensino Superior de qualidade ainda é extremamente restrito. Ingressar em uma universidade pública renomada, como a USP, frequentemente líder nos rankings de avaliação das universidades do país, é tão difícil que, muitas vezes, jovens sequer conhecem essa possibilidade ou não se permitem sonhar com ela. Para aqueles que tentam, o caminho é árduo: o processo de ser vestibulando é oneroso, exige apoio financeiro de terceiros ou impõe a necessidade de conciliar o trabalho com os estudos, o que acarreta um período repleto de pressão psicológica.

A nova identidade visual da FUVEST, nesse sentido, nos sugere que essas são, também, preocupações da Fundação, já que ela traz o lema “Vencerás pela educação”, reforçando a importância da escolarização para a ascensão social, para o "vencer na vida” de uma sociedade neoliberal. É inegável que o acesso ao ensino superior representa um divisor de águas na vida de muitas pessoas — especialmente nas de classes sociais mais baixas. No entanto, a frase carrega em si uma forte noção meritocrática, que alude à naturalização de um processo desigual, ao desconsiderar que a preparação adequada para um vestibular depende, hoje, de condições materiais e não apenas do esforço individual. Nesse sentido, a falta de informações que poderiam garantir alguma forma de equidade ao processo cria uma contradição entre a crença na educação e a crença naquilo que o dinheiro pode comprar.

Ainda que uma banca avaliadora não seja capaz de transformar sozinha a realidade educacional de um país marcado por desigualdades, ela dita o tom de como muitos enxergam a educação. É a partir de suas exigências que se desenrola um processo retroativo que nos alcança, às vezes, no início do Ensino Fundamental (a proposta de 2024, inclusive, nos colocou para pensar sobre o Ensino Básico e sobre como, nele, a reflexão e o ócio são diminuídos em favor de uma lógica produtivista). 

Logo, acreditamos que, diante de tantas renúncias feitas por milhares de candidatos ao longo desse percurso, a clareza dos objetivos da banca é essencial: demonstra o compromisso com uma avaliação justa e respeitosa, contribui para reduzir a ansiedade do processo seletivo e reforça o papel da FUVEST como referência nacional em avaliação há quase 50 anos.

C. Reivindicações e argumentos:

Nos dias 26 e 27 de abril de 2025, houve a realização do Simulado de Redação Fuvest, que apresentou as seguintes exigências: “Proposta 1: Redija uma dissertação, na qual você exponha seu ponto de vista sobre o tema: As emoções e sua interferência no processo de comunicação / Proposta 2: Redija uma crônica que envolva um episódio de comunicação emotiva.”

Inicialmente, acreditávamos que a simulação nos ajudaria a compreender as novas diretrizes do processo seletivo — especificamente em torno da prova de redação —, porque estamos bastante habituados a simular provas, isso é parte de nossa preparação. Entretanto, acabamos a atividade com mais perguntas do que respostas. 

Após essa falta de clareza e de transparência do simulado de redação, em entrevista à Revista Educação, Gustavo Monaco, diretor executivo da FUVEST, quando perguntado sobre as alterações avaliativas, disse: “Na redação, passa a ser possível cobrar mais do que um gênero textual. As pessoas estão muito preocupadas com isso. Eu só lembro que não havia uma regra que obrigasse a ser dissertação, isso era um costume. Agora está explícito que podem ser cobrados outros gêneros textuais.” A fala do representante da Fundação nos acendeu um alerta: será que os responsáveis pelas mudanças conhecem a rotina de um vestibulando? Sentimos, ao ler a entrevista, desprezo por parte do representante da instituição diante de uma mudança que afeta o nosso estudo num cenário cada vez mais competitivo (considerando que a Universidade não está, simultaneamente às alterações, abrindo mais inúmeras vagas). Portanto, diante dos aspectos levantados, queremos reivindicar:


I- O acesso à fundamentação teórica e educativa por trás das escolhas da mudança do vestibular 

Uma transformação tão significativa no formato de uma das etapas mais importantes do vestibular — a redação — exige justificativas públicas, pedagógicas e transparentes. No entanto, até o momento, recebemos apenas fragmentos de informações em relação às mudanças de vestibular, seja por stories no Instagram comunicando que no vestibular oficial seria exigida a escrita de apenas uma redação, seja no site da Fuvest, em que foram liberados documentos avulsos que explicavam de forma rasa tanto o simulado ocorrido em abril quanto às mudanças em vigor para o ano de 2025. 

Esse cenário fez com que sentíssemos estar montando um quebra cabeça incompleto, tendo em vista que poucas informações, distribuídas de forma aleatória em mais de um veículo de comunicação, refletem a falta de clareza e de organização quanto à divulgação das mudanças formuladas desde o final de 2022 — como afirmou o diretor-executivo da FUVEST, Gustavo Mônaco, em uma entrevista para a Revista Educação. 

Surgem, como consequência, dúvidas entre os alunos, os professores e os profissionais das Letras e da Educação: 

  • Quais critérios nortearam essa reformulação?
  • Quais lacunas foram identificadas no modelo anterior de dissertação-argumentativa?
  • Houve escuta de especialistas da área de linguagem, professores da educação básica e universitários?
  • A cobrança de gêneros textuais é fixada no modelo do simulado - crônica e dissertação - ou será cobrada uma diversidade de tipos textuais?
  • Tendo em vista a pouca clareza dos enunciados dos simulados, será exigida dos alunos uma memorização mecânica das características de distintos gêneros textuais previamente à situação de prova?                                                                                                                              Podemos, de certa forma, comparar a instauração de novos gêneros textuais na redação da FUVEST com a mudança pensada em 2005 e realizada pela Unicamp no ano de 2010*. Entretanto, os corpos discente e docente nacionais possuem informações completas quanto à base teórica formulada pela Comvest no livro “A Redação No Vestibular Unicamp: O que e como se avalia”, organizado por Márcia Mendonça e Cynthia Agra de Brito Neves, enquanto o cenário atual apresentado da Fuvest se mostra desorganizado, raso e pouco transparente.

Além disso, é de nosso receio a questão de estarmos diante de um esforço genuíno de democratização, de uma tentativa de alinhamento às diretrizes da BNCC, ou da adesão a lógicas neoliberais de flexibilização, de eficiência e de corte de gastos. Essa última, sim, ainda que de forma disfarçada, observamos na prática: vende-se uma nova imagem de gestão ágil e adaptável, mas não se apresentam dados concretos, nem é construído um diálogo com os sujeitos diretamente afetados — alunos e professores. A consequência disso é o esvaziamento progressivo da prova enquanto instrumento sério de avaliação. Em outras palavras, o que se desenha é um grande emaranhado neoliberal, onde se confundem agilidade com improviso, inovação com instabilidade, e eficiência com precarização.

É de nossa reivindicação, portanto, a publicação de respostas quanto às dúvidas já citadas que envolvem as explicações pedagógicas para as reformulações abordadas e os esclarecimentos diante das incertezas apresentadas por nós, alunos.

*https://unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/dezembro2009/ju450_pag03.php 

II- O esclarecimento, de forma clara e detalhada, das novas diretrizes da prova de redação, e que a FUVEST antecipe a divulgação do edital do Vestibular 2026.

 Embora a redação seja, historicamente, uma das etapas que mais suscitam dúvidas entre os estudantes, o único documento divulgado até o momento que trata das possíveis mudanças — o Programa do Vestibular 2026 — dedicou à prova pouco mais de dez linhas. Nesse trecho, afirma-se:

 “A proposta de Redação poderá requerer a elaboração de mais de um gênero textual”, nos quais se evidenciem “traços composicionais distintos daqueles esperados nas dissertações tradicionais”. Também se indica que a prova buscará explorar habilidades listadas para a área de Linguagens e suas Tecnologias, a partir de propostas que: “estabeleçam relações entre textos verbais e multissemióticos”; “observem os usos da língua nos meios digitais em suas múltiplas variações”; considerem “excertos de obras de literaturas em língua portuguesa e de temáticas filosófico-sociais”; exijam “atenção às normas que regulam os textos científicos”; e requeiram uma argumentação sustentada por “princípios retóricos (de comoção, instrução e deleite do leitor)” e por “informações e dados extraídos de fontes verificadas e seguras”.                                    

          Apesar do vocabulário técnico e da aparente robustez atribuída à proposta, o texto peca por ser excessivamente vago justamente nos pontos que mais demandam clareza. Em linhas gerais, o documento reafirma competências que já vinham sendo exploradas nas edições anteriores da prova, como o estabelecimento de relações entre textos verbais e multissemióticos, a mobilização de referências literárias e filosófico-sociais, ou ainda a exigência de argumentação sustentada por dados e informações verificáveis — nenhuma dessas diretrizes representa uma real novidade. Da mesma forma, a menção à necessidade de atenção às normas dos textos científicos, embora importante, não esclarece seu papel na construção do texto do candidato: esses textos aparecerão apenas nas coletâneas? Devem ser simulados na produção textual? Em que medida influenciarão os critérios de correção? De quais textos científicos estamos falando?

No entanto, o aspecto mais sensível e urgente da mudança — a possibilidade de cobrança de diferentes gêneros textuais — permanece obscuro. Quais seriam, afinal, esses gêneros? Como serão apresentados na prova? O que se espera do candidato em termos de estrutura, linguagem e conteúdo? Como se dará a avaliação dos textos que não seguem o padrão dissertativo-argumentativo? Nenhuma dessas perguntas encontra resposta objetiva no documento.

  Ao evitar explicitar essas questões, a banca transfere para os candidatos e professores a tarefa de interpretar (ou adivinhar) o que virá, impondo-lhes um desafio adicional e desigual. Além disso, sem exemplos concretos, sem delimitações operacionais e com linguagem nebulosa, o texto oficial contribui mais para o aumento da confusão do que para a construção de um percurso formativo sólido. É como se, frente à promessa de uma reforma, deixassem de fora justamente o projeto arquitetônico.

Diante disso, reivindicamos a publicação, com antecedência, do Edital do Vestibular 2026 — documento oficial, normativo, que deve garantir transparência, isonomia de condições e previsibilidade a todos os candidatos. Esse documento precisa ser acompanhado de informações mais completas, linguagem acessível e estrutura compatível com a função pública que ele deve cumprir: a de fornecer a nós informações claras e detalhadas sobre o novo formato da prova. 

Em um contexto de tamanhas dúvidas, a postergação da divulgação desse material — que geralmente ocorre no segundo semestre do ano —reforça o abismo entre quem planeja o exame e quem precisa enfrentá-lo. Pior: colabora para uma cultura de desgaste emocional e de incerteza permanente, transferindo o peso da adaptação para os mais vulneráveis, como se fosse responsabilidade do candidato se virar para decifrar o que a banca ainda não disse. 

III- A responsabilização ética e institucional por parte da FUVEST na comunicação pública de qualquer mudança relativa ao vestibular.

O fluxo de informações nas redes, bem como a efemeridade de recursos, como stories e tweets, não dinamiza ou mesmo “moderniza” a comunicação vestibular-vestibulando, mas sim a deixa confusa e desorganizada ao pulverizá-la por inúmeras plataformas, passando por entrevistas pouco esclarecedoras em periódicos virtuais de nicho — a Revista Educação, por exemplo. Comunicar-se com clareza e responsabilidade não é um favor: é uma obrigação ética de qualquer instituição que se proponha a organizar uma das maiores provas de acesso ao ensino superior do país. A FUVEST, no entanto, tem recorrido a práticas comunicacionais que mais confundem do que esclarecem.

  O uso de canais midiáticos fragmentados e a falta de consistência nos posicionamentos revelam uma postura que relativiza o direito à informação dos candidatos. Tal atitude só se sustenta porque a relação entre banca e estudante ainda é assimétrica: a primeira age, a segunda se adapta. Mas é justamente esse modelo — autorreferente, opaco, distante — que precisamos desmontar. Exigimos que a Fundação reveja sua postura institucional e se comprometa com uma política de comunicação pública transparente, honesta e acessível.

IV. - A necessidade de maior precisão vocabular nos enunciados e sua relação com a coletânea

 As propostas de redação da FUVEST sempre foram amplamente reconhecidas como referência entre os vestibulares que exigem dissertação argumentativa. Muito elogiadas por professores, e ao mesmo tempo temidas por muitos estudantes, elas se destacavam pela elaboração criteriosa das coletâneas, que apresentavam textos motivadores interconectados de maneira coesa, alinhados à frase temática e capazes de provocar reflexões sobre o mundo contemporâneo. Exigia-se dos candidatos um alto grau de interpretação de texto e domínio da escrita, mas a clareza conceitual, a construção lógica e a ausência de ambiguidades limitantes possibilitavam a produção de boas redações.

Um excelente exemplo dessa qualidade pode ser visto na prova de 2015, cujo tema foi: “Camarotização da sociedade brasileira: a segregação das classes sociais e a democracia.” A banca, de forma didática, definiu o termo “camarotização” e apresentou, através de textos do professor Michael J. Sandel, a relação entre grupos socioeconômicos e o impacto sobre ideários democráticos. Assim, o vestibulando, conduzido a compreender o fenômeno e, ainda, convidado a expandi-lo com o que observa no seu cotidiano, demonstrava pensamento crítico e argumentação sólida.

 No entanto, ao analisarmos a proposta de 2025, cujo o tema foi: “As relações sociais por meio da solidariedade”, notamos uma brusca mudança. A ausência de definições claras para o conceito central dificultou a distinção entre solidariedade e caridade, termos que, inclusive, pareceram ser utilizados como sinônimos na própria coletânea. A interconexão entre os textos motivadores não ficou clara, nos gerando insegurança na interpretação da proposta e comprometendo a construção argumentativa. 

Essa mesma situação ocorreu no Simulado de Redação da FUVEST, em que a frase temática era “As emoções e sua interferência no processo de comunicação”; os textos guiavam o aluno a refletir sobre os tipos de linguagem que rodeiam a sociedade, já o tema exigia argumentação acerca da comunicação. Embora sejam termos de campos semânticos próximos, eles não são intercambiáveis, o que desencadeia uma ambiguidade na compreensão da proposta e, consequentemente, gera uma desestruturação no planejamento do texto a ser redigido.

Outro impasse também foi observado em relação à construção do enunciado para a produção da crônica, já que este não fornecia um detalhamento preciso sobre o tipo de texto que estava sendo solicitado. O gênero crônica é flexível e admite várias construções, podendo ela ser narrativa, descritiva, jornalística, dissertativa, humorística, entre outros. A imprecisão do enunciado somada à escassez de tempo gerou diversas dúvidas e comprometeu a elaboração textual, entrando em conflito com uma das principais intenções do simulado: entender como seria a abordagem de novos gêneros.

Além disso, a coletânea oferecida no simulado contava com um texto do filósofo Martin Heidegger, presente em sua obra “Construir, Habitar, Pensar”, que exigia dos participantes uma habilidade para além da interpretação: o conhecimento sobre conceitos da linguística. A falta deste afetava em grande parte a capacidade de relação e de compreensão das intersecções do pensamento filosófico com a frase temática tanto da dissertação como da crônica. A ausência de tal disciplina na educação básica coloca em contradição a seleção da filosofia heideggeriana, afinal, uma das intenções da mudança da prova era aproximá-la da BNCC. Ao mesmo tempo, ela simula essa modificação exigindo habilidades as quais não são fornecidas pelo ensino que antecede o ingresso nas universidades.

 A decisão da USP em extinguir o curso de licenciatura em linguística, no dia 24 de abril, reforça ainda mais essa contradição na medida em que as justificativas foram a baixa demanda de mercado e a ausência dessa disciplina na educação básica brasileira. Nessa perspectiva, é paradoxal a expectativa da banca que tenhamos — ou que busquemos — tal conhecimento enquanto a própria instituição vota para acabar com a disciplina capaz de formar professores para ensiná-lo.

As propostas que antes pareciam ser cuidadosamente pensadas para impulsionar a produção de boas dissertações, hoje frequentemente geram confusão e reforçam a insegurança dos candidatos — que já enfrentam, naturalmente, um momento de grande tensão durante a prova.

 Reivindicamos coletâneas bem elaboradas, redigidas por especialistas em Letras e em Educação que compreendam a complexidade do vestibular e as reais condições dos estudantes. Esperamos textos motivadores que apresentem interconexões possíveis, clareza nos conceitos centrais, linguagem acessível, mesmo quando mais acadêmica, e temas relacionados a fenômenos observáveis na realidade contemporânea.

 Só assim será possível restabelecer a confiança dos candidatos na proposta de redação, resgatando seu papel como referência de excelência e permitindo que possamos estudar com clareza e, no dia da prova, expressar nosso potencial com textos coerentes, críticos e bem fundamentados.


V. A coerência com os valores e pensamentos que a banca valoriza na prova

A partir das exposições anteriores, fica evidente o papel da Fuvest na formação do senso crítico de seus candidatos, ao relacionar características sociais e bons textos motivadores, muitas vezes de caráter filosófico, sociológico, antropológico, a banca fornece substrato não só à criação de bons textos, como também para relevantes reflexões. 

No entanto, ao propagar um estado de pouca clareza, seja comunicacional, seja direcional, a banca instaura uma tensão e ansiedade generalizada entre os alunos; desnorteados pela incoerência comunicativa e os já penosos itinerários de estudo, resta a eles gerenciar os seus tempos entre o navegar pelas redes sociais da banca em busca de informações fragmentadas e o estudo mecânico dos conteúdos cobrados pela prova – a reflexão, no meio dessa operação multitarefa — fica para segundo ou mesmo terceiro plano. 

A FUVEST, assim, contradiz as ideias que propaga. O tema da edição de ingresso de 2024, cujo tema da redação — já citado por nós — era “ Educação básica e formação profissional: entre a multitarefa e a reflexão” trazia uma coletânea crítica à multitarefa. O texto 1, fragmento do livro “Sociedade do cansaço”, do pensador germano-coreano Byung-Chul-Han, associa essa característica a um retrocesso à animalidade, estado no qual não há contemplação. O texto 2, de Domenico de Masi, é, no entanto, elogioso ao ócio, ressaltando uma educação que poderia valorizar o tempo solitário, o lúdico e a interioridade. 

Exigimos, portanto, um alinhamento às próprias reflexões propagadas pela banca. Afinal, quando esta não alinha o discurso com a prática, a crítica torna-se apenas um corpo grande, desengonçado e sem direcionamento .

VI.  A transparência dos gastos e do balanço patrimonial do vestibular

 A FUVEST é uma fundação privada sem fins lucrativos, de modo que dedica uma área de seu site à transparência institucional. No entanto, observamos que o último balanço patrimonial divulgado foi referente ao ano de 2022 e o último relatório anual disponível data de 2023. Coincidentemente, em julho de 2022 houve a troca de toda a diretoria executiva e da presidência do conselho curador, momento em que os atuais membros assumiram suas funções. Ao analisarmos os currículos dos integrantes da nova gestão, constatamos que poucos possuem trajetória profissional consolidada em áreas diretamente ligadas diretamente à educação — em contraste com gestões anteriores, como a da ex-diretora executiva, Belmira Amelia de Barros Oliveira Bueno, vinculada à Faculdade de Educação da USP (FEUSP).

 Desde essa transição, circularam nas mídias rumores sobre possíveis mudanças no modelo da prova, que viriam a se confirmar em dezembro de 2024, com o anúncio da introdução de gêneros textuais diversos na redação do vestibular, rompendo com o histórico da dissertação argumentativa. 


 Cabe destacar ainda que, entre 2021 e 2022 — ano da mudança de gestão — os documentos da própria fundação revelam que os gastos diretamente relacionados à realização do vestibular caíram de R$23.257.074 para R$15.418.171, configurando um decréscimo de R$7.838.903 ou cerca de 33,5%. Paralelamente, o valor da taxa de inscrição aumentou de R$182 para R$191. Tal aumento, contudo, não parece ter sido revertido em melhorias na aplicação ou na qualidade da prova.

 Diante desses fatos, solicitamos que a FUVEST preste esclarecimentos sobre os balanços patrimoniais e relatórios anuais mais recentes, de forma a justificar as decisões tomadas pela banca, os cortes orçamentários e as mudanças que têm impactado significativamente a experiência dos candidatos.

 

 

 

 

 

 FUVEST. Fuvest, 2025. Balanços Patrimoniais. Disponível em: <https://www.fuvest.br/wp-content/uploads/FUVEST_2022_Balanco.pdf >. Acesso em: 28 de maio de 2025

D. Conclusão e convocação à ação 

Assim, a arbitrariedade apresentada tem ganhado maior escopo diante da lógica de reprodução do capital, cada vez mais inflada na era das redes sociais pelo seu caráter efêmero, o que reflete a falta de clareza e direcionamento adequado quanto ao vestibular realizado pela FUVEST. Por isso, nós contamos com o apoio da academia, dos professores e dos demais estudantes impactados por este novo modelo de gestão da Fundação, para que se juntem a nós, em prol de maiores informações acerca do que se espera com a nova redação do vestibular. Afinal, a mudança é boa quando acompanhada pela comunidade.

Convidamos outros estudantes, professores, coletivos educacionais e instituições de ensino a se somarem a esta carta. Esta não é apenas uma reivindicação por maior clareza em um edital: trata-se de uma defesa ativa da educação pública, do direito à informação e da justiça nos processos de seleção. O vestibular não é um espaço neutro — é uma arena de disputas simbólicas e materiais que determina, em grande medida, quem pode sonhar e com quais ferramentas.

Por isso, esta carta não busca encerrar o debate, mas abri-lo. Que ela seja ponto de partida para novas conversas, articulações e ações coletivas. Seguiremos mobilizados, atentos e críticos, e esperamos que a FUVEST se disponha a escutar não apenas vozes, mas argumentos. Somos sujeitos históricos. E é em nome dessa consciência que exigimos mudanças — e convidamos todos aqueles que compartilham dessa inquietação a se unir a nós.

Para adesões e contato, escreva para: cartaabertafuvest2026@gmail.com

Se você quiser se juntar a essa reivindicação, convidamos à assinatura desta carta abaixo.

 

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Abaixo-assinado criado em 29 de maio de 2025