Carta aberta à comissão organizadora do P&D Design 2026

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O problema

Em nome dos pesquisadores, avaliadores e demais interessados em participar da 16º edição do P&D Design — seja como ouvintes ou como apresentadores de trabalhos — que subscrevem esta carta, manifestamos publicamente nosso repúdio diante da possibilidade de terem ocorrido arbitrariedades no processo de seleção e classificação dos trabalhos destinados às sessões de comunicações orais, previstas para ocorrer nos dias de 7 a 9 de outubro, na Cesar School, em Recife-PE.
Em contexto em que houve volume recorde de submissões, segundo a organização do P&D Design 2026 foram mais de 1700 artigos, prorrogação dos prazos, adiamento da divulgação dos resultados e, até o momento, indisponibilidade dos pareceres e das métricas que nortearam a avaliação dos trabalhos submetidos, sentimo-nos profundamente desrespeitados, entre outras coisas, após termos tido acesso a relatos de membros da comissão avaliadora que colocavam em xeque o curso dos resultados dos trabalhos divulgados pela comissão organizadora como "aprovados e classificados" e "aprovados e não classificados". Tais comentários, em síntese, questionam a idoneidade do processo de classificação, aprovação e reprovação  dos artigos submetidos, uma vez que, após divulgação de esclarecimentos quanto à lista de trabalhos selecionados, por parte da Comissão Organizadora do P&D, no último 11 de agosto, veio à tona a suspeita de que parte dos critérios utilizados para a classificação dos trabalhos selecionados para compor as comunicações orais do evento teria sido alterada, a fim de reduzir o contingente de trabalhos aprovados e tornar viável a logística das apresentações nos locais que sediarão o evento. Entretanto, o que nos é extremamente preocupante é justamente o fato de que tais medidas foram tomadas após avaliações já terem sido concluídas pelos pareceristas.
Em outras palavras, pessoas que se identificaram como integrantes da comissão de pareceristas sugerem discrepância entre os critérios apresentados pela organização do P&D Design 2026 (posteriormente à divulgação dos resultados) e aqueles que foram previamente informados aos pareceristas e, então, utilizados para orientar avaliações realizadas antes dessa data. 
Critérios que interferem na classificação dos trabalhos precisam ser universais a todos os trabalhos, além de previamente definidos e comunicados tanto aos avaliadores quanto aos autores, que empregaram tempo, trabalho intelectual e recursos financeiros na submissão dos resultados de suas pesquisas a um dos mais importantes congressos brasileiros da área de Design.
Se houve, de fato, incongruência entre os critérios previamente informados e aqueles posteriormente adotados para a classificação, torna-se necessário esclarecer como os trabalhos puderam ser comparados de maneira isonômica.
A classificação por nota pode ser um procedimento legítimo quando existem critérios claros, previamente estabelecidos e aplicados de maneira equivalente. Sem essas condições, entretanto, tratar notas produzidas sob condições potencialmente distintas como diretamente comparáveis pode resultar em uma classificação cuja isonomia é questionável.
A preocupação se torna ainda maior diante de relatos de autores cujos trabalhos teriam recebido pareceres indicando aprovação mediante ajustes, mas que não constam na lista final de trabalhos classificados divulgada pelo Comitê Científico do P&D Design 2026 nos dias 10 e 11 de agosto.
Diante desse conjunto de circunstâncias, consideramos necessário que a organização esclareça publicamente quais foram os critérios efetivamente utilizados, quando foram definidos, se foram posteriormente modificados e de que maneira essas eventuais alterações afetaram o processo de classificação.
Frente à possibilidade de haver incongruências entre os critérios de avaliação utilizados pelos pareceristas e os informados pela comissão organizadora, identificamos precedentes para questionar até que ponto os pareceristas tiveram autonomia para definir os resultados da lista de aprovados, haja vista que, segundo os próprios esclarecimentos prestados pela comissão organizadora, os artigos aprovados de cada eixo temático passaram a concorrer entre si por uma vaga nos anais do P&D. Afinal, não seria atribuição exclusiva dos pareceristas o poder de definir quais trabalhos seriam aprovados e reprovados? Caso tivessem sabido que os trabalhos de temas e objetos de pesquisa tão distintos, embora partícipes de um mesmo eixo temático, seriam comparados entre si, como merecedores ou não de participarem do P&D 2026, não teriam os pareceristas os avaliado de maneira diferente? Que critérios universais teriam sido estes, capazes de classificar pesquisas tão distintas entre si, de maneira justa, se eles sequer teriam sido informados aos pareceristas confiados à tarefa de aprovação e reprovação dos trabalhos?
Não obstante, as indagações direcionadas a organização do evento tornaram-se ainda mais excruciantes após o perfil do P&D 2026 no Instagram ter ocultado tais comentários e questionamentos na referida e polêmica postagem cujo objetivo alegado era promover esclarecimentos, justamente após intenso engajamento de participantes e avaliadores. Tal postura, por parte da organização desta edição do Congresso, revela ausência ou limitações no que poderíamos chamar de interesse em manter público o acesso a eventuais críticas a respeito de eventuais incoerências entre discurso e medidas adotadas. 
Discordâncias e críticas, quando formuladas de maneira respeitosa, fazem parte do debate acadêmico. A liberdade de expressão e o contraditório são valores fundamentais da comunidade científica. Por isso, entendemos que questionamentos sobre a organização de um evento acadêmico devem ser respondidos com transparência, diálogo e esclarecimentos, e não simplesmente silenciados e ocultados, ainda que estejamos tratando de comentários públicos em uma postagem em rede social.
Quanto aos atrasos na divulgação dos resultados, informações divulgadas tardiamente podem produzir prejuízos concretos que não podem ser simplesmente transferidos aos participantes, dado que avaliadores, apresentadores e ouvintes precisam organizar previamente sua disponibilidade e os recursos financeiros necessários à participação em um Congresso dessa dimensão. Para pesquisadores que dependem de financiamento ou de auxílios institucionais, a antecedência é especialmente importante para viabilizar a aquisição de passagens, hospedagem, inscrições e demais despesas.

Diante disso, solicitamos:
1. A divulgação pública e detalhada dos critérios utilizados na avaliação e na classificação dos trabalhos, incluindo a cronologia de sua definição e eventual alteração;
2. O esclarecimento público sobre os procedimentos efetivamente utilizados para estabelecer a classificação das comunicações orais, inclusive quanto à comparabilidade das notas atribuídas;
3. A disponibilização dos pareceres aos autores, permitindo que compreendam as avaliações recebidas e as decisões delas decorrentes;
4. A revisão da classificação dos trabalhos, caso seja constatada qualquer alteração de critérios posterior ao início do processo avaliativo que possa ter interferido nos resultados;
5. A preservação da condição de aprovados nos Anais dos trabalhos que já tenham sido aprovados no processo de avaliação, independentemente de sua classificação para apresentação oral;
6. A adoção de medidas concretas para que pesquisadores não sejam prejudicados por limitações estruturais, atrasos ou problemas de organização do Congresso.

Há alternativas
A eventual limitação do número de apresentações presenciais não precisa transformar trabalhos aprovados em trabalhos desclassificados.
Uma possibilidade seria manter nos Anais todos os trabalhos aprovados e organizar as apresentações presenciais de acordo com a capacidade disponível, dando prioridade aos “trabalhos classificados”.
Os autores dos demais trabalhos aprovados poderiam gravar suas apresentações e disponibilizá-las gratuitamente em plataformas como o YouTube, com os respectivos links divulgados pelos canais do próprio Congresso, como ocorreram em edições anteriores.
Além disso, caso algum autor de trabalho classificado não possa comparecer presencialmente — inclusive em razão do curto prazo para organização de viagens, hospedagem ou obtenção de financiamento —, sua apresentação gravada poderia permanecer disponível ao público, enquanto a vaga presencial seria destinada, conforme a ordem classificatória, ao próximo trabalho aprovado.
Dessa forma, a limitação da estrutura presencial não seria transformada em uma penalização acadêmica para pesquisadores cujos trabalhos já foram aprovados.
Essas soluções permitiriam preservar o trabalho científico produzido, ampliar o acesso às pesquisas e reduzir os prejuízos causados aos participantes, sem exigir do Congresso uma estrutura presencial incompatível com o volume excepcional de submissões.
Ainda há tempo para uma solução mais justa, transparente e respeitosa.
O P&D Design é maior do que esta edição e maior do que seus resultados individuais. Sua credibilidade foi construída ao longo de anos pelo trabalho de pesquisadores, professores, avaliadores e estudantes que acreditam na ciência e na importância de fortalecer o campo do Design no Brasil.
Por isso, solicitamos à comissão organizadora que reconheça os problemas apontados, preste os devidos esclarecimentos, reveja eventuais procedimentos comprometidos e adote providências capazes de preservar os trabalhos aprovados e minimizar os prejuízos daqueles que foram afetados.
Não se trata de reivindicar privilégios. Trata-se de exigir transparência, isonomia, responsabilidade e respeito ao trabalho científico de centenas de pesquisadores.
A credibilidade do P&D Design também depende da forma como o Congresso trata aqueles que o constroem.

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Pedro RamalhoCriador do abaixo-assinado

Os tomadores de decisão

maureen.schaefer@gmail.com
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