
Apostilamento na educação infantil não é investimento!
O problema
A implementação de material apostilado na Educação Infantil da Rede Municipal de Itajaí nos leva a manifestar uma preocupação que é, antes de tudo, pedagógica. Consideramos importante deixar clara nossa posição: não concordamos com o apostilamento como metodologia orientadora do trabalho pedagógico na Educação Infantil.
Essa posição não representa resistência a mudanças, ao ensino, à organização do trabalho pedagógico ou à utilização de novos recursos. Também não significa defender uma Educação Infantil sem planejamento, objetivos ou intencionalidade. Pelo contrário. Defendemos uma Educação Infantil comprometida com a aprendizagem e com o desenvolvimento integral das crianças, mas entendemos que a maneira como esses conhecimentos são construídos precisa respeitar as especificidades da infância.
A Educação Infantil possui identidade própria. Não é uma antecipação do Ensino Fundamental e não deve assumir progressivamente características de uma escolarização formal pertencente às etapas posteriores.
As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil reconhecem a criança como sujeito histórico e de direitos que brinca, imagina, deseja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre o mundo. A Base Nacional Comum Curricular segue essa concepção ao estabelecer as interações e as brincadeiras como eixos estruturantes e assegurar os direitos de conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se.
Esses princípios precisam ser efetivamente vividos pelas crianças. Não basta que estejam escritos nos documentos ou que uma atividade esteja acompanhada de um código da BNCC. Precisamos observar qual experiência está sendo proporcionada: a criança participa? Escolhe? Investiga? Cria? Levanta hipóteses? Experimenta? Conversa e constrói com outras crianças? Pode encontrar caminhos diferentes daqueles inicialmente previstos pelo adulto? Ou sua participação está predominantemente relacionada a compreender uma orientação e executar aquilo que foi solicitado?
É nesse ponto que encontramos uma das principais dificuldades em relação ao apostilamento. Nenhum material didático consegue abranger a complexidade da educação infantil. Os conhecimentos presentes nos materiais apostilados não estão ausentes da Educação Infantil. Números, quantidades, formas, medidas, relações espaciais, linguagem oral e escrita, literatura, natureza, identidade, corpo, movimento, desenho, arte e música já fazem parte dos planejamentos e das experiências proporcionadas às crianças. Inclusive, aspectos fônicos e o desenvolvimento da consciência fonológica já são trabalhados na Educação Infantil. Mas o conhecimento sobre o mundo que as cercam nasce de um cotidiano de investigação sobre o corpo, o movimento, a linguagem oral, as relações, as letras, os números, as transformações da natureza, as formas de ser e estar no mundo.
Uma criança pode aprender sobre quantidade preenchendo uma atividade de contagem, mas também pode contar quantas crianças vieram naquele dia em um momento do cotidiano, distribuir materiais, organizar objetos, comparar coleções, participar de jogos e resolver problemas surgidos durante uma brincadeira. Pode responder a uma atividade sobre medidas ou pode medir uma mesa, comparar construções, descobrir quantos passos existem entre dois pontos e experimentar recipientes de diferentes capacidades. Pode procurar pelo dia no calendário e fazer a contagem regressiva para o aniversário de uma criança.
Da mesma maneira, a inserção da criança no mundo letrado pode ser desenvolvida de forma viva e contextualizada por meio dos nomes no momento da chamada, de cantigas, rimas, histórias, parlendas e observação das palavras que fazem parte do cotidiano. Existe intencionalidade pedagógica nessas experiências. O professor sabe o que pretende favorecer, observa aquilo que as crianças demonstram interesse e planeja novas situações para ampliar suas descobertas. É um contexto investigativo que possibilita pesquisar o mundo que cerca as crianças. O mundo das histórias, dos números, das letras, do desenho, do movimento, das relações e das emoções.
É o contexto investigativo que surge no cotidiano das escolas da infância que deve fomentar experiências que façam as crianças construírem seus conhecimentos. Esse processo não é vivido em um sistema apostilado, pois, o material didático estabelece um percurso previamente organizado, com páginas e sequências que precisam ser cumpridas. O adulto deixa de olhar para as crianças e suas relações com o mundo e passa a olhar para o material didático.
É essa lógica que questionamos. A criança não deveria acompanhar o ritmo da apostila. As crianças pequenas precisam viver concretamente muitas das relações que posteriormente serão representadas. Ao invés de traçar letras em cima dos pontilhados, devem compreender a função social da escrita, reconhecer a funcionalidade das letras no nosso mundo, observar os sons da fala a partir de seus nomes, ouvir histórias, contar histórias, ver a professora escrever, registrar as perguntas e os achados dos contextos investigativos que surgem no cotidiano.
Um inseto encontrado no parque pode iniciar uma investigação. Uma construção pode permanecer durante vários dias porque as crianças continuam elaborando hipóteses. Uma brincadeira pode ganhar complexidade e um interesse coletivo pode transformar-se em projeto.
Quando oferecemos uma proposta para a qual existe apenas uma resposta esperada ou apenas uma folha para seguir o modelo, diminuímos essas possibilidades e negamos a complexidade da educação infantil.
Também nos preocupa a escolarização precoce. Preparar uma criança para o Ensino Fundamental não significa antecipar o Ensino Fundamental. Também nesse aspecto precisamos compreender corretamente o trabalho com consciência fonológica e aspectos fônicos. Não somos contrários a essas aprendizagens. Reconhecemos sua importância para o percurso da alfabetização. O que defendemos é que, na Educação Infantil, aconteçam de maneira coerente com essa etapa: pela oralidade, literatura, histórias, músicas, cantigas, parlendas, jogos com palavras, rimas, nomes das crianças e situações reais de leitura e escrita.
Preparar para a alfabetização não significa antecipar exercícios formais de alfabetização. Significa proporcionar uma infância linguísticamente rica, pois, antes de decodificar, a criança precisa sentir sentido na leitura. E fazemos isso em conexão com o corpo, com a cultura, com as brincadeiras e não só no papel. Cantigas de roda, trava-linguas, parlendas, brincadeiras de palma, pular corda são verdadeiros laboratórios vivos da linguagem.
Outro aspecto que precisa ser considerado é o tempo. Toda proposta incluída na rotina ocupa um período que deixa de estar disponível para outra experiência. Por isso, precisamos perguntar: Quanto tempo semanal será destinado ao material apostilado e de onde esse tempo será retirado? Do parque? Da brincadeira livre? Da literatura? Das experiências com a natureza? Dos projetos? Dos ateliês? Das conversas? Do movimento? Das construções? Das investigações? Das interações entre as crianças?
Uma apostila não ocupa apenas espaço dentro de uma mochila ou de uma sala. Ela ocupa tempo dentro da infância. E esse tempo precisa ser protegido.
Também não podemos confundir aquilo que é facilmente demonstrável com aquilo que representa aprendizagem. Uma página preenchida é visível, pode ser arquivada, enviada para casa e contabilizada. Uma experiência nem sempre produz um resultado tão facilmente mensurável.
Uma criança pode permanecer muito tempo tentando construir uma ponte com blocos. Nesse processo, conta peças, compara tamanhos, testa equilíbrio, levanta hipóteses, conversa, enfrenta frustrações, modifica estratégias e resolve problemas. Talvez não exista uma folha para colocar na pasta ao final. Mas houve aprendizagem. O que precisamos é de um professor capaz de planejar, observar e registrar sobre as aprendizagens e um material didático não fará isso.
Por isso, não consideramos adequado associar a qualidade do trabalho pedagógico na Educação Infantil à quantidade de páginas realizadas ou ao cumprimento de uma sequência de atividades.
Também defendemos a potência e a autonomia do professor. Os profissionais que estão diariamente com as crianças conhecem suas falas, brincadeiras, interesses, necessidades, dificuldades, hipóteses e descobertas. Um material produzido previamente não conhece aquele grupo. Não sabe qual pergunta surgiu durante uma refeição, qual descoberta aconteceu no parque, qual brincadeira está mobilizando as crianças ou qual história provocou uma discussão que poderia transformar-se em projeto.
O professor sabe. E esse conhecimento profissional precisa ser valorizado.
O professor não deve ser apenas executor de uma proposta elaborada externamente. Precisa permanecer autor de seu planejamento.
Por isso, nossa posição é clara: não concordamos com o apostilamento na Educação Infantil. Não somos contrários ao ensino, ao planejamento, à intencionalidade pedagógica, aos registros, aos números, às letras, à consciência fonológica, aos aspectos fônicos ou ao conhecimento que é direito da criança. Somos contrários à ideia de que esses conhecimentos precisem ser organizados prioritariamente por meio de um percurso apostilado e previamente determinado.
Também é fundamental reconhecer que a Rede Municipal de Itajaí possui uma trajetória pedagógica construída ao longo dos anos. Existem profissionais que estudam, formações realizadas, projetos desenvolvidos, práticas consolidadas e conhecimentos produzidos dentro das próprias unidades. Por isso, entendemos ser necessária uma reavaliação da política de apostilamento na Educação Infantil da Rede Municipal de Itajaí, com escuta efetiva de professores, gestores, coordenadores, supervisores e demais profissionais.
É justamente por acreditarmos na capacidade das crianças de aprender que não concordamos com o apostilamento como metodologia orientadora da Educação Infantil. A discussão, portanto, não é apenas sobre uma apostila. É sobre qual concepção de criança, de professor, de currículo e de Educação Infantil queremos para a Rede Municipal de Itajaí.
Não queremos material didático.
Não desejamos um processo de apostilamento.
Queremos políticas públicas que, coletivamente com os profissionais da educação infantil:
- revisitem as Diretrizes Municipais. Quando foi nossa última revisão?
repensem a documentação pedagógica com instrumentos que deem visibilidade a tudo que é vivido e aprendido nas instituições de educação infantil. Nossa planilha de planejamento consegue tornar visível as sutilezas do cotidiano ou foca em lista de atividades? - reelaborem as Diretrizes de Avaliação, pensado-a enquanto documentação pedagógica. Onde estão as mini-histórias, os contextos de aprendizagem, os desenhos, garatujas e autorretratos? Onde estão o que as crianças falam? Como brincam? Como escrevem? O que criam?
- criem um sistema tecnológico e eficaz para aperfeiçoar o trabalho do professor e melhore a comunicação entre família e escola. De que forma as famílias se comunicam com os CEIs? Nossa atual plataforma, Google Class, consegue dar visibilidade aos caminhos percorridos no cotidiano?
- construam projetos que invistam no aperfeiçoamento da organização dos espaços das salas referências e espaços externos dos CEIs. Uma criança pequena aprende em mesas e cadeiras? Onde está a natureza e o tempo ao ar livre? Onde estão os espaços para o movimento, para os riscantes, para a arte, para os livros?
- ampliem o suporte pedagógico planejando a inserção das supervisoras escolares nos espaços da educação infantil. Se somos mais do que um lugar para as crianças ficarem, por que não temos um acompanhamento efetivo sobre as questões pedagógicas?
- reavaliem a compra de materiais para a etapa da educação infantil. Há muita régua, lápis, caderno e borrachas nas instituições. Mas, onde estão as lupas de mesa, os microscópios de mão, as mesas de manipulação, as caixas de luz, os blocos de madeira, os alfabetos móveis, as estantes na altura das crianças?
- revisitem os contratos com as empresas que prestam serviço terceirizado. Nossas unidades de ensino dispõem de talheres do tamanho adequado? Possuem buffet para as crianças se servirem e desenvolverem ainda mais sua autonomia? Elas têm seu tempo adequado de refeição ou precisam ser apressadas porque as cozinheiras e auxiliares de limpeza precisam encerrar o seu turno?
- busquem uma relação intersetorial com Saúde e Assistência Social para que nossas crianças e famílias tenham encaminhamentos adequados. Quem auxilia o professor em casos de crianças que precisam de orientação de multiprofissionais? Conseguimos ter uma visão geral das nossas crianças e temos informações da Secretaria de Saúde, Conselho Tutelar ou Assistência Social quando necessário?
- construam políticas de educação especial que entendam a complexidade e a necessidade das crianças atípicas e suas famílias. Quantas crianças estão sendo negligenciadas por falta de ações intersetoriais?
- planejem formações que busquem a reflexão do nosso fazer educativo a partir de um plano de formação com formadores qualificados e conhecedores do cotidiano da educação infantil. E que isso aconteça em pequenos grupos para que a construção coletiva e as mudanças sejam acompanhadas.
- Nesse aspecto, também é importante começar a discutir a construção de um Centro de Pesquisa e Formação que seja referência em infância e educação para a cidade de Itajaí. Atualmente, a gestão municipal está pensando em suas ações baseada em quais concepções teóricas? Precisamos refletir sobre isso e muito mais.
Nós, profissionais da educação infantil, queremos que a complexidade da escola da infância seja respeitada e valorizada pelas políticas públicas.

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O problema
A implementação de material apostilado na Educação Infantil da Rede Municipal de Itajaí nos leva a manifestar uma preocupação que é, antes de tudo, pedagógica. Consideramos importante deixar clara nossa posição: não concordamos com o apostilamento como metodologia orientadora do trabalho pedagógico na Educação Infantil.
Essa posição não representa resistência a mudanças, ao ensino, à organização do trabalho pedagógico ou à utilização de novos recursos. Também não significa defender uma Educação Infantil sem planejamento, objetivos ou intencionalidade. Pelo contrário. Defendemos uma Educação Infantil comprometida com a aprendizagem e com o desenvolvimento integral das crianças, mas entendemos que a maneira como esses conhecimentos são construídos precisa respeitar as especificidades da infância.
A Educação Infantil possui identidade própria. Não é uma antecipação do Ensino Fundamental e não deve assumir progressivamente características de uma escolarização formal pertencente às etapas posteriores.
As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil reconhecem a criança como sujeito histórico e de direitos que brinca, imagina, deseja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre o mundo. A Base Nacional Comum Curricular segue essa concepção ao estabelecer as interações e as brincadeiras como eixos estruturantes e assegurar os direitos de conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se.
Esses princípios precisam ser efetivamente vividos pelas crianças. Não basta que estejam escritos nos documentos ou que uma atividade esteja acompanhada de um código da BNCC. Precisamos observar qual experiência está sendo proporcionada: a criança participa? Escolhe? Investiga? Cria? Levanta hipóteses? Experimenta? Conversa e constrói com outras crianças? Pode encontrar caminhos diferentes daqueles inicialmente previstos pelo adulto? Ou sua participação está predominantemente relacionada a compreender uma orientação e executar aquilo que foi solicitado?
É nesse ponto que encontramos uma das principais dificuldades em relação ao apostilamento. Nenhum material didático consegue abranger a complexidade da educação infantil. Os conhecimentos presentes nos materiais apostilados não estão ausentes da Educação Infantil. Números, quantidades, formas, medidas, relações espaciais, linguagem oral e escrita, literatura, natureza, identidade, corpo, movimento, desenho, arte e música já fazem parte dos planejamentos e das experiências proporcionadas às crianças. Inclusive, aspectos fônicos e o desenvolvimento da consciência fonológica já são trabalhados na Educação Infantil. Mas o conhecimento sobre o mundo que as cercam nasce de um cotidiano de investigação sobre o corpo, o movimento, a linguagem oral, as relações, as letras, os números, as transformações da natureza, as formas de ser e estar no mundo.
Uma criança pode aprender sobre quantidade preenchendo uma atividade de contagem, mas também pode contar quantas crianças vieram naquele dia em um momento do cotidiano, distribuir materiais, organizar objetos, comparar coleções, participar de jogos e resolver problemas surgidos durante uma brincadeira. Pode responder a uma atividade sobre medidas ou pode medir uma mesa, comparar construções, descobrir quantos passos existem entre dois pontos e experimentar recipientes de diferentes capacidades. Pode procurar pelo dia no calendário e fazer a contagem regressiva para o aniversário de uma criança.
Da mesma maneira, a inserção da criança no mundo letrado pode ser desenvolvida de forma viva e contextualizada por meio dos nomes no momento da chamada, de cantigas, rimas, histórias, parlendas e observação das palavras que fazem parte do cotidiano. Existe intencionalidade pedagógica nessas experiências. O professor sabe o que pretende favorecer, observa aquilo que as crianças demonstram interesse e planeja novas situações para ampliar suas descobertas. É um contexto investigativo que possibilita pesquisar o mundo que cerca as crianças. O mundo das histórias, dos números, das letras, do desenho, do movimento, das relações e das emoções.
É o contexto investigativo que surge no cotidiano das escolas da infância que deve fomentar experiências que façam as crianças construírem seus conhecimentos. Esse processo não é vivido em um sistema apostilado, pois, o material didático estabelece um percurso previamente organizado, com páginas e sequências que precisam ser cumpridas. O adulto deixa de olhar para as crianças e suas relações com o mundo e passa a olhar para o material didático.
É essa lógica que questionamos. A criança não deveria acompanhar o ritmo da apostila. As crianças pequenas precisam viver concretamente muitas das relações que posteriormente serão representadas. Ao invés de traçar letras em cima dos pontilhados, devem compreender a função social da escrita, reconhecer a funcionalidade das letras no nosso mundo, observar os sons da fala a partir de seus nomes, ouvir histórias, contar histórias, ver a professora escrever, registrar as perguntas e os achados dos contextos investigativos que surgem no cotidiano.
Um inseto encontrado no parque pode iniciar uma investigação. Uma construção pode permanecer durante vários dias porque as crianças continuam elaborando hipóteses. Uma brincadeira pode ganhar complexidade e um interesse coletivo pode transformar-se em projeto.
Quando oferecemos uma proposta para a qual existe apenas uma resposta esperada ou apenas uma folha para seguir o modelo, diminuímos essas possibilidades e negamos a complexidade da educação infantil.
Também nos preocupa a escolarização precoce. Preparar uma criança para o Ensino Fundamental não significa antecipar o Ensino Fundamental. Também nesse aspecto precisamos compreender corretamente o trabalho com consciência fonológica e aspectos fônicos. Não somos contrários a essas aprendizagens. Reconhecemos sua importância para o percurso da alfabetização. O que defendemos é que, na Educação Infantil, aconteçam de maneira coerente com essa etapa: pela oralidade, literatura, histórias, músicas, cantigas, parlendas, jogos com palavras, rimas, nomes das crianças e situações reais de leitura e escrita.
Preparar para a alfabetização não significa antecipar exercícios formais de alfabetização. Significa proporcionar uma infância linguísticamente rica, pois, antes de decodificar, a criança precisa sentir sentido na leitura. E fazemos isso em conexão com o corpo, com a cultura, com as brincadeiras e não só no papel. Cantigas de roda, trava-linguas, parlendas, brincadeiras de palma, pular corda são verdadeiros laboratórios vivos da linguagem.
Outro aspecto que precisa ser considerado é o tempo. Toda proposta incluída na rotina ocupa um período que deixa de estar disponível para outra experiência. Por isso, precisamos perguntar: Quanto tempo semanal será destinado ao material apostilado e de onde esse tempo será retirado? Do parque? Da brincadeira livre? Da literatura? Das experiências com a natureza? Dos projetos? Dos ateliês? Das conversas? Do movimento? Das construções? Das investigações? Das interações entre as crianças?
Uma apostila não ocupa apenas espaço dentro de uma mochila ou de uma sala. Ela ocupa tempo dentro da infância. E esse tempo precisa ser protegido.
Também não podemos confundir aquilo que é facilmente demonstrável com aquilo que representa aprendizagem. Uma página preenchida é visível, pode ser arquivada, enviada para casa e contabilizada. Uma experiência nem sempre produz um resultado tão facilmente mensurável.
Uma criança pode permanecer muito tempo tentando construir uma ponte com blocos. Nesse processo, conta peças, compara tamanhos, testa equilíbrio, levanta hipóteses, conversa, enfrenta frustrações, modifica estratégias e resolve problemas. Talvez não exista uma folha para colocar na pasta ao final. Mas houve aprendizagem. O que precisamos é de um professor capaz de planejar, observar e registrar sobre as aprendizagens e um material didático não fará isso.
Por isso, não consideramos adequado associar a qualidade do trabalho pedagógico na Educação Infantil à quantidade de páginas realizadas ou ao cumprimento de uma sequência de atividades.
Também defendemos a potência e a autonomia do professor. Os profissionais que estão diariamente com as crianças conhecem suas falas, brincadeiras, interesses, necessidades, dificuldades, hipóteses e descobertas. Um material produzido previamente não conhece aquele grupo. Não sabe qual pergunta surgiu durante uma refeição, qual descoberta aconteceu no parque, qual brincadeira está mobilizando as crianças ou qual história provocou uma discussão que poderia transformar-se em projeto.
O professor sabe. E esse conhecimento profissional precisa ser valorizado.
O professor não deve ser apenas executor de uma proposta elaborada externamente. Precisa permanecer autor de seu planejamento.
Por isso, nossa posição é clara: não concordamos com o apostilamento na Educação Infantil. Não somos contrários ao ensino, ao planejamento, à intencionalidade pedagógica, aos registros, aos números, às letras, à consciência fonológica, aos aspectos fônicos ou ao conhecimento que é direito da criança. Somos contrários à ideia de que esses conhecimentos precisem ser organizados prioritariamente por meio de um percurso apostilado e previamente determinado.
Também é fundamental reconhecer que a Rede Municipal de Itajaí possui uma trajetória pedagógica construída ao longo dos anos. Existem profissionais que estudam, formações realizadas, projetos desenvolvidos, práticas consolidadas e conhecimentos produzidos dentro das próprias unidades. Por isso, entendemos ser necessária uma reavaliação da política de apostilamento na Educação Infantil da Rede Municipal de Itajaí, com escuta efetiva de professores, gestores, coordenadores, supervisores e demais profissionais.
É justamente por acreditarmos na capacidade das crianças de aprender que não concordamos com o apostilamento como metodologia orientadora da Educação Infantil. A discussão, portanto, não é apenas sobre uma apostila. É sobre qual concepção de criança, de professor, de currículo e de Educação Infantil queremos para a Rede Municipal de Itajaí.
Não queremos material didático.
Não desejamos um processo de apostilamento.
Queremos políticas públicas que, coletivamente com os profissionais da educação infantil:
- revisitem as Diretrizes Municipais. Quando foi nossa última revisão?
repensem a documentação pedagógica com instrumentos que deem visibilidade a tudo que é vivido e aprendido nas instituições de educação infantil. Nossa planilha de planejamento consegue tornar visível as sutilezas do cotidiano ou foca em lista de atividades? - reelaborem as Diretrizes de Avaliação, pensado-a enquanto documentação pedagógica. Onde estão as mini-histórias, os contextos de aprendizagem, os desenhos, garatujas e autorretratos? Onde estão o que as crianças falam? Como brincam? Como escrevem? O que criam?
- criem um sistema tecnológico e eficaz para aperfeiçoar o trabalho do professor e melhore a comunicação entre família e escola. De que forma as famílias se comunicam com os CEIs? Nossa atual plataforma, Google Class, consegue dar visibilidade aos caminhos percorridos no cotidiano?
- construam projetos que invistam no aperfeiçoamento da organização dos espaços das salas referências e espaços externos dos CEIs. Uma criança pequena aprende em mesas e cadeiras? Onde está a natureza e o tempo ao ar livre? Onde estão os espaços para o movimento, para os riscantes, para a arte, para os livros?
- ampliem o suporte pedagógico planejando a inserção das supervisoras escolares nos espaços da educação infantil. Se somos mais do que um lugar para as crianças ficarem, por que não temos um acompanhamento efetivo sobre as questões pedagógicas?
- reavaliem a compra de materiais para a etapa da educação infantil. Há muita régua, lápis, caderno e borrachas nas instituições. Mas, onde estão as lupas de mesa, os microscópios de mão, as mesas de manipulação, as caixas de luz, os blocos de madeira, os alfabetos móveis, as estantes na altura das crianças?
- revisitem os contratos com as empresas que prestam serviço terceirizado. Nossas unidades de ensino dispõem de talheres do tamanho adequado? Possuem buffet para as crianças se servirem e desenvolverem ainda mais sua autonomia? Elas têm seu tempo adequado de refeição ou precisam ser apressadas porque as cozinheiras e auxiliares de limpeza precisam encerrar o seu turno?
- busquem uma relação intersetorial com Saúde e Assistência Social para que nossas crianças e famílias tenham encaminhamentos adequados. Quem auxilia o professor em casos de crianças que precisam de orientação de multiprofissionais? Conseguimos ter uma visão geral das nossas crianças e temos informações da Secretaria de Saúde, Conselho Tutelar ou Assistência Social quando necessário?
- construam políticas de educação especial que entendam a complexidade e a necessidade das crianças atípicas e suas famílias. Quantas crianças estão sendo negligenciadas por falta de ações intersetoriais?
- planejem formações que busquem a reflexão do nosso fazer educativo a partir de um plano de formação com formadores qualificados e conhecedores do cotidiano da educação infantil. E que isso aconteça em pequenos grupos para que a construção coletiva e as mudanças sejam acompanhadas.
- Nesse aspecto, também é importante começar a discutir a construção de um Centro de Pesquisa e Formação que seja referência em infância e educação para a cidade de Itajaí. Atualmente, a gestão municipal está pensando em suas ações baseada em quais concepções teóricas? Precisamos refletir sobre isso e muito mais.
Nós, profissionais da educação infantil, queremos que a complexidade da escola da infância seja respeitada e valorizada pelas políticas públicas.

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Abaixo-assinado criado em 9 de setembro de 2026