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Apelamos a que todas as associações, coletivos, partidos políticos e ativistas em nome individual envolvidos na luta pelos direitos LGBTQIA* em Portugal que tomem uma posição relativamente a esta situação.

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- Apelamos ao Braga Fora do Armário que afaste Paula Antunes, enquanto ativista em nome individual e como representante de qualquer associação, coletivo ou partido político, da organização da Marcha Pelos Direitos LGBT - Braga; 

7 de Abril: Braga Fora do Armário decide por unanimidade afastar Paula Antunes até conclusão do processo judicial.

- Apelamos à PATH que afaste Paula Antunes, enquanto ativista em nome individual e como representante de qualquer associação, coletivo ou partido político, da organização da Marcha Contra a Homofobia e Transfobia - Coimbra;

21 de Abril: PATH - Plataforma contra a Transfobia e Homofobia reitera que Paula Antunes e Caleidoscópio LGBT não fazem da sua organização

- Apelamos à Comissão Organizadora da Marcha do Orgulho do Porto que afaste Paula Antunes, enquanto ativista em nome individual e como representante de qualquer associação, coletivo ou partido político, da organização da Marcha do Orgulho do Porto;

17 de Abril: MOP pede o afastamento de todos os intervenientes até conclusão de processo judicial.

- Apelamos a todas as associações, coletivos e partidos políticos, bem como a todos os ativistas em nome individual, que façam parte da organização ou apoiem as Marchas de Braga, de Coimbra e do Porto que boicotem estas marchas caso Paula Antunes não seja afastada enquanto ativista em nome individual e como representante de qualquer associação, coletivo ou partido político das suas organizações.

 

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Comunicado: Situação de Violência dentro do activismo LGBT

Abordaremos um assunto bastante delicado, o da violência doméstica. Por envolver violência a nível físico, sexual, psicológico e económico, pedimos que antes de começarem a ler, respirem fundo.

Fomos vítimas, mas não somos mais. Hoje somos sobreviventes. Para impedir que outras pessoas passem pelo mesmo, vamos falar com quem for preciso, vamos fazer aquilo que seja necessário, vamos lutar para que a justiça seja feita. Esperamos que nos acompanhem até ao fim, de coração e mente aberta, porque isto está longe de ter sido uma história de amor.

No início ela parecia ser uma pessoa encantadora. Falava de como os seus valores morais guiavam a sua vida, de como fazer a coisa certa era a sua bússola e demonstrava ser correta e coerente, tanto na sua vida privada, como na sua vida pública. Muitas pessoas comentavam o seu carisma, a forma como conseguia mobilizar pessoas para fazer o bem, para lutar por quem não o podia fazer. Nós acreditámos nisso. Acreditámos que ela era uma mulher de armas, cujas palavras eram reflexo exato dos seus atos.

Nós fomos enganadas.

Com o passar do tempo, vimos que a sua moral era moldável, que os dogmas que apresentava na sua vida pública ficavam do lado de fora da porta. Sentimos na pele o quão descontrolada aquela pessoa aparentemente contida pode ser. Ouvimos injúrias, calúnias, ameaças. Sentimos empurrões, punhos e pontapés nos nossos corpos. Fomos traídas, enganadas, usadas, manipuladas. Sentimos aquela pessoa apoderar-se dos nossos corpos e das nossas mentes. Tivemos a nossa privacidade e individualidade violadas.

Mafalda tinha 22 anos quando se envolveu com esta pessoa. O relato pessoal que se segue é um exemplo do que ocorreu entre 2007 e 2009.

Inspirei, estava cansada daquela discussão e, no entanto, berros ecoavam por todo o lado. Há dias que tentava falar com ela sobre o facto de ela me ter traído, de se ter deitado com outra pessoa, mas ela recusava-se a ouvir ou a deixar-me falar. Queria expressar-me, dizer como aquilo me fazia sentir, mas a única coisa que ela fez foi dizer-me que a culpa daquilo ter acontecido era minha, como aliás tudo era, aos olhos dela.

Sempre que ela me insultava, a culpa era minha.

Sempre que ela me humilhava, a culpa era minha.

Sempre que ela se embebedava, a culpa era minha.

E sempre que ela me batia a culpa era minha.

Durante dois anos e meio. Foi sempre tudo culpa minha.

Dessa vez não foi diferente. Lembro-me que nem sequer tive tempo para pensar antes de sentir as mãos dela em redor do meu pescoço. Essas mãos apertavam-me enquanto os olhos dela me olhavam com uma frieza que eu nunca antes tinha sentido. Segundos passaram e nesse momento eu estava certa de que iria morrer. Subitamente ela larga-me e retira-se, deixando-me em estado de choque na sala.

Quando voltei a mim, tentei falar com ela, mas assim que bati na porta do quarto dela, ela saiu disparada e lançou-se a mim. Lembro-me de socos, Lembro-me de pontapés. Eu chorava, berrava, pedia para ela parar e ela continuava. A última coisa que eu me lembro dessa noite foi o som de uma porta a rachar com as minhas costas, e ali fiquei eu, no chão, em lágrimas e em dor.

A noite passou. E no dia a seguir...

A culpa continuava a ser minha.

Isabel tinha 18 anos quando se envolveu com esta pessoa. O relato que se segue é um exemplo do que ocorreu entre 2010 e 2014.

Eu saía das aulas todos os dias e ia a pé às compras para o jantar. Ela tinha carro e passava o dia inteiro em casa, no sofá, em frente ao computador, ou a dormir. Não interessava se estava a chover, tinha de ir. Também não podia ter outros planos, nem ir ter com ninguém. Nestes 4 anos não podia ter outros amigos, afastei-me de todos. Todos os dias lhe comprava litros de álcool. Tinha vergonha quando chegava à caixa do supermercado, porque enchia a mochila de garrafas: duas garrafas de vinho; três de litro de cerveja. Era isso que ela me mandava levar-lhe e que bebia ao jantar. Quando chegava, ia pôr-lhe a mesa, preparar o jantar, preparar-lhe o sofá para ela se deitar confortavelmente. Jantávamos numa mesa pequena na sala. Eu não me podia sentar no sofá, tinha de ficar num puff desconfortável. O jantar durava horas. Ela punha um filme da vontade dela e ficava a ver. Eu tinha de me levantar dezenas de vezes para lhe ir aquecer a comida ou servir-lhe bebidas. Mesmo que tivesse aulas no dia seguinte ou trabalhos para fazer, tinha de ficar acordada com ela a noite toda até que ela me autorizasse a ir dormir. Não podia deitar-me sem lavar a loiça toda. Nessas alturas, ela bebia cada vez mais e tornava-se mais implicativa e violenta. Eu cada vez mais cansada. Quando adormecia no puff, ela obrigava-me a acordar. Destapava-me e fazia-me ficar com frio para não adormecer. Quando ela não tinha tabaco, tinha de me vestir para ir à rua. Se não fizesse o que ela mandava, ameaçava expulsar-me de casa, sabendo que não tinha para onde ir.

As discussões pioravam quando eu me recusava a cumprir ordens.

Quando me ia deitar sem ela me autorizar, ficava cheia de medo. Quando parecia que as coisas já tinham acalmado, ela saía da sala, enchia um recipiente com água e despejava-mo em cima. Isto acontecia tão frequentemente que quando eu me deitava todas as noites entrava em pânico sempre que a ouvia sair da sala. Nunca sabia se ela ia fazer isso de novo ou mandar limpar/fazer alguma coisa. Frequentemente ouvia-a a ir vomitar o álcool que bebia e muitas vezes tive de o limpar.

Como eu adormecia de exaustão na sala enquanto ela ainda estava a jantar, ela arranjou um borrifador e borrifava-me com água para eu não adormecer. Tinha-o sempre ao pé dela.

Num dos dias em que me recusei a sair da cama quando ela quis, ela, já bêbada, gritou comigo, ameaçou e insultou-me como sempre. Como não obedeci, agarrou-me com uma mão pelos cabelos e arrastou-me do quarto até à sala. Deixou-me no chão a chorar e foi deitar-se.

O pior de tudo eram as horas em pânico depois das discussões. Ela ia dormir e eu ficava a noite toda a pensar que ia ficar sozinha e que ela não voltaria a falar comigo.

Mas no dia seguinte, ela agia como se nada tivesse acontecido. Isso fazia-me duvidar de que o terror todo tivesse sido real. Não havia ninguém que o pudesse confirmar. Ainda assim, pensava: a partir de agora vai ser diferente. Mas a violência, os insultos, as ordens e a chantagem voltavam sempre.

E se disséssemos que provavelmente conhecem esta pessoa?

A pessoa que referimos chama-se Paula Antunes, gere o Caleidoscópio LGBT, e está envolvida na organização das Marchas de Braga, de Coimbra e do Porto.

Expomos aquilo de que fomos vítimas, não por despeito ou vingança, mas porque não queremos que outras pessoas passem por aquilo que passamos nas mãos desta pessoa. Queremos que se faça justiça. Sabemos que não são vocês que farão justiça por nós, já existe uma queixa crime para que esta situação seja tratada na esfera judicial.

Contudo, não podemos calar-nos perante ao facto de que a Paula Antunes continua a estar envolvida no ativismo, continua a levantar um estandarte de retidão na sua vida pública, quando entre quatro paredes nos agrediu física, emocional, sexual e economicamente.

O nosso objetivo com este comunicado é dar-vos a conhecer esta realidade e pedir o vosso apoio para retirar esta pessoa de um ambiente que deveria ser seguro.

Umx agressorx não se pode esconder por trás de Marchas e causas que lutam contra a violência doméstica/de género/LGBT e pelos direitos humanos. Não permitam que isto continue a acontecer. Não sejam coniventes.

Pelo bem maior, em prol da luta que travamos diariamente pelos nossos direitos e pela nossa segurança, juntem-se a nós nesta batalha pela construção de um espaço seguro para todxs.

Assinamos em conjunto: Isabel Martinez e Mafalda Gomes

Associações, Coletivos e Partidos Políticos que subscrevem:

  • AMPLOS
  • Ação Pela Identidade - API
  • Actibistas
  • Associação ComuniDária
  • Associação de Estudantes da Escola Superior de Música, Artes e Espectáculo
  • Bichas Cobardes
  • Braga Fora do Armário
  • O Clítoris da Razão
  • Lóbula
  • PolyPortugal
  • Quïruption
  • rede ex aequo


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