Pelo veto ao PL nº 4​.​088/2023. Pela obrigatoriedade da Filosofia e da Sociologia

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O problema

Abaixo-assinado pelo veto ao PL nº 4.088/2023 e pela obrigatoriedade da Filosofia e da Sociologia em toda a educação básica

A FENEFIL, Federação Nacional de Estudantes de Filosofia, vem a público manifestar profunda preocupação com a aprovação do Projeto de Lei nº 4.088/2023 pelo Senado Federal, na quarta-feira, 17 de junho de 2026. O projeto, de autoria da deputada Renata Hellmeister de Abreu (Podemos-SP), aprovado pela Câmara dos Deputados em agosto de 2023, inclui "Educação Política e Direitos da Cidadania" como componente curricular obrigatório da educação básica e segue agora para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A FENEFIL pede expressamente o veto presidencial a essa proposta, porque, sem Filosofia e Sociologia obrigatórias em toda a educação básica, desde a educação infantil, passando pelo ensino fundamental e chegando ao ensino médio, o componente curricular aprovado pelo Congresso Nacional será, na prática, um conteúdo vazio, desprovido das ferramentas conceituais que o sustentam.

O PL nº 4.088/2023 altera o artigo 26 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei nº 9.394, de 1996, acrescentando um parágrafo que obriga os currículos da educação infantil, do ensino fundamental e do ensino médio a incluírem "Educação Política e dos Direitos da Cidadania" no âmbito do estudo da realidade social e política do Brasil.

A FENEFIL denuncia que estamos diante de uma operação de maquiagem legislativa. O Congresso Nacional aprova uma disciplina que soa bem nos discursos, mas omite que, desde a Reforma do Ensino Médio imposta pela Lei nº 13.415, de 2017, no governo Michel Temer, Filosofia e Sociologia deixaram de ser disciplinas obrigatórias nos três anos do Ensino Médio.

A Lei nº 13.415/2017 revogou o inciso IV do artigo 36 da LDB, que havia sido conquistado em 2008, no segundo mandato do presidente Lula, pela Lei nº 11.684/2008, e que garantia a obrigatoriedade de Filosofia e Sociologia em todas as séries do Ensino Médio.

Com a reforma, Filosofia e Sociologia perderam o status de disciplinas e foram rebaixadas à condição de "estudos e práticas", sem carga horária definida, sem obrigatoriedade de oferta e sem garantia de contratação de professores qualificados. Escolas públicas simplesmente extinguiram as disciplinas, professores de Filosofia e Sociologia foram deslocados para outras funções ou demitidos e uma geração de jovens foi privada do pensamento crítico.

A situação piorou com o "Novíssimo" Ensino Médio, aprovado pela Lei nº 14.945, de 31 de julho de 2024. Nesse texto, que vigora desde então, Filosofia é mencionada apenas uma vez, no artigo 35-D, como parte da área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, mas sem qualquer garantia de obrigatoriedade nos três anos, sem carga horária mínima e sem o status de disciplina que possuía antes de 2016.

A BNCC de 2018 já havia reduzido a Filosofia a "estudos e práticas", e o "Novíssimo" Ensino Médio não reverteu esse quadro. O que se viu, na prática, foi a redução da carga horária da Filosofia para cerca de uma hora semanal por série na maioria dos estados, quando não a eliminação completa da oferta.

Isso ocorre em um país onde a disciplina só havia se tornado obrigatória em 2008, após décadas de luta, e no qual a ditadura militar a havia extirpado do currículo entre 1971 e 1996.

A FENEFIL compreende que a Filosofia e a Sociologia não devem estar presentes apenas no Ensino Médio. Defendemos que essas áreas do conhecimento integrem toda a educação básica, desde a educação infantil, passando pelo ensino fundamental e chegando ao ensino médio, de forma adequada a cada etapa do desenvolvimento. A formação filosófica e sociológica deve acompanhar crianças e jovens durante todo o seu percurso escolar, fortalecendo a curiosidade, a reflexão, o diálogo, a convivência democrática, o respeito às diferenças e a construção do pensamento crítico.

Diante desse cenário de retrocesso, a FENEFIL, ABEFil, APROFFIB e ABECS vêm mobilizando a sociedade civil em torno de duas proposições que podem reverter esse quadro.

O PL nº 1.466/2026, apresentado pela deputada Lenir de Assis (PT/PR) em 27 de março de 2026, propõe alterar o artigo 36 da LDB para incluir Filosofia e Sociologia como componentes curriculares obrigatórios nos currículos do Ensino Médio, com no mínimo duas aulas semanais em cada série.

O projeto foi encaminhado às Comissões de Educação e de Constituição e Justiça e de Cidadania em 18 de maio de 2026, e a deputada Maria do Rosário (PT-RS) foi designada relatora em 20 de maio de 2026.

Paralelamente, a SUG nº 05/2026, protocolada no Senado em 20 de fevereiro de 2026, propõe exatamente a mesma medida e foi distribuída à senadora Professora Dorinha Seabra (União-TO) para relatoria em 28 de fevereiro de 2026, na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa.

De que adianta aprovar "Educação Política e dos Direitos da Cidadania" na educação básica se crianças e jovens continuam privados do acesso à Filosofia e à Sociologia, justamente as disciplinas que desenvolvem a reflexão crítica, a compreensão da democracia, dos direitos, da cidadania e das desigualdades sociais? Se a proposta é formar cidadãos, essa formação precisa começar desde a educação infantil e permanecer durante toda a educação básica.

De que adianta falar em direitos da cidadania se estudantes não têm acesso à Sociologia, que analisa as estruturas de desigualdade, as relações de poder e os mecanismos de exclusão social?

De que adianta citar a realidade social e política do Brasil se estudantes não têm acesso à Filosofia, que desenvolve o pensamento crítico, a argumentação, a capacidade de questionar e de posicionar-se?

A proposta aprovada pelo Senado corre o risco de se transformar em adestramento cívico, em memorização de deveres sem o desenvolvimento da capacidade de exigir direitos.

Sem Filosofia e Sociologia obrigatórias, a proposta é um discurso bonito que esconde a continuidade do esvaziamento das Humanidades no currículo brasileiro. E esse esvaziamento é político.

Em um contexto de crescente desinformação, de ataques às instituições democráticas e de naturalização das desigualdades estruturais, retirar do currículo as disciplinas que ensinam a pensar criticamente é conveniente para quem lucra com a alienação.

A história brasileira já mostrou isso.

Em 1969, a ditadura militar extinguiu Filosofia e Sociologia do currículo escolar pelo Decreto-Lei nº 869, de 1969, regulamentado pelo Decreto nº 68.065, de 1971. Substituiu ambas as disciplinas por Educação Moral e Cívica (EMC) e Organização Social e Política Brasileira (OSPB), justamente para produzir cidadãos dóceis, incapazes de questionar.

O mesmo padrão se repete agora, só que com outra retórica.

A FENEFIL exige que o presidente Lula vete o PL nº 4.088/2023 e, em seu lugar, apoie urgentemente o PL nº 1.466/2026 e a SUG nº 05/2026, importantes para a recuperação da Filosofia e da Sociologia no Ensino Médio, e avance na construção de uma política nacional que garanta a presença dessas disciplinas em toda a educação básica, desde a educação infantil.

A FENEFIL convoca estudantes de Filosofia, professores, pesquisadores e toda a sociedade civil a acompanhar de perto a tramitação do PL nº 1.466/2026 na Câmara dos Deputados e da SUG nº 05/2026 no Senado Federal.

Lutemos pela obrigatoriedade da Filosofia e da Sociologia em toda a educação básica, desde a educação infantil, passando pelo ensino fundamental e chegando ao ensino médio. A Filosofia e a Sociologia são um direito da infância, da juventude e da classe trabalhadora brasileira.

Federação Nacional de Estudantes de Filosofia (FENEFIL)

Os tomadores de decisão

Kátia Schweickardt
Kátia Schweickardt
Secretária de Educação Básica
Luiz Curi
Luiz Curi
Presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE)
Danielle Cancela
Danielle Cancela
Casa Civil
Leonardo Barchini
Leonardo Barchini
Ministro da Educação

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