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Projeto Brasil Nação

May 9, 2018
O político e o humano
Lo político y lo humano
The politician and the human being
O político e o humano
Por Celso Amorim
Uma imagem vale mais que mil palavras, diz o provérbio chinês. Mil palavras não serão capazes de descrever, de forma tão pungente, a tristeza profunda experimentada por milhões de brasileiros (e muitas outras pessoas em todo o mundo) quanto a foto de Leonardo Boff, sentado na soleira do prédio da Polícia Federal, em Curitiba, onde está preso o ex-presidente Lula.
Como muitos outros militantes e simpatizantes, acompanhei, no sindicato dos metalúrgicos, em São Bernardo do Campo, o desdobramento do drama político em que o país foi atirado após a decretação da prisão de Lula pelo juiz Sergio Moro, algumas horas depois da denegação do habeas corpus, por estreitíssima margem, pelo Supremo Tribunal Federal.
Nas horas que antecederam a partida do presidente, uma característica de sua personalidade sobressaiu em todos os seus gestos: a profunda humanidade, o interesse real e concreto pelo bem-estar material e espiritual dos que estavam dentro do edifício ou entre a multidão que o rodeava.
Lula não saiu da vida para entrar na história, nem pôs em risco a integridade física dos seus apoiadores. Tampouco cedeu à coreografia planejada por seus algozes. Não obedeceu ao ultimato disfarçado em deferência, mas não permitiu que o episódio da prisão constituísse pretexto para novas provocações por aqueles que desejam cerrar as cortinas sobre a democracia brasileira.
Na segunda-feira (9/4), após um domingo sem festa, muitos de nós fomos a Curitiba visitar o acampamento montado por movimentos sociais, em que gente humilde, juntamente com pessoas da classe média, dava testemunho de sua inconformidade com a violência contra Lula.
Se o afeto e o reconhecimento pelo ex-presidente ofereciam algum consolo à dor de sabê-lo preso, a visão do prédio dava absurda materialidade ao que até então parecia uma ideia abstrata: o encarceramento do ser humano em quem o povo pobre do Brasil vê o seu mais legítimo e querido representante.
Ao longo da minha vida como servidor público, a maior parte da qual no exercício de função diplomática, poucas vezes senti vergonha profunda (distinta de um mero incômodo passageiro) do meu país.
Uma delas foi quando, jovem funcionário servindo no exterior, abri uma revista que regularmente recebia do Brasil e li uma reportagem sobre a morte de um prisioneiro sob tortura. Uma brevíssima brecha na censura imposta pelo regime permitiu que a reportagem fosse publicada. Voltei a experimentar o mesmo sentimento com a recusa aos pedidos de visita a Lula feitos por Adolfo Pérez-Esquivel, prêmio Nobel da Paz em 1980, e pelo amigo de longa data, outro lutador pacífico da paz, Leonardo Boff.
Em 2002, quando o povo teve a coragem de eleger como seu presidente um operário com raízes no sertão do Nordeste, cunhou-se a expressão "a esperança venceu o medo". Neste momento sombrio, não sei o que lamento mais: a ignorância de nossos juízes quanto às normas internacionais sobre tratamento de presos ou a pequenez de espírito dos que se apegam à formalidade das regras para tomar decisões despidas de qualquer sentido de humanidade.
Em meio a tantas arbitrariedades postas a serviço dos poderosos dentro e fora do Brasil, temos que buscar força e inspiração nas atitudes desassombradas de Boff e Esquivel.
Necessitamos eleições livres e justas, com a participação dos candidatos mais representativos do povo, a começar por Lula, para que a paz e a confiança no futuro sejam devolvidas ao povo brasileiro. Não podemos permitir que o ódio e a mesquinharia vençam a esperança.
Celso Amorim: Ex-ministro das Relações Exteriores (2003-2010, governo Lula) e da Defesa (2011-2015, governo Dilma), é pré-candidato do PT ao governo do estado do Rio
The politician and the human being
By Celso Amorim
‘A picture is worth a thousand words’, says the Chinese proverb. A thousand words will not be able to describe in such a poignant fashion the deep sorrow experienced by millions of Brazilians (and many others around the world) as the photograph picturing Leonardo Boff, sitting at the Federal Police Building doorsteps in Curitiba, where former President Lula is imprisoned.
At the Metalworkers’ Union in the city of São Bernardo do Campo, I followed, like many other political allies and sympathizers, the unfolding of the political drama in which the country was thrown when Judge Sergio Moro issued
an arrest order for Lula, just a few hours after the Supreme Court, by a very narrow margin, had denied his request for a writ of habeas corpus.
In the hours leading up to Lula’s departure for prison, a trait of his personality stood out among all his gestures: his deep humanity, expressed in his real and concrete concern with the material and spiritual well-being of those inside the building and of those among the crowd surrounding it.
Lula did not exit Life to enter History (like the late president Getúlio Vargas wrote before killing himself), neither did he endanger the bodily integrity of his supporters. Nor did he yield to the choreography planned by his prosecutors. He did not obey their ultimatum disguised as a deference, neither did he allow the prison episode to be a pretext for new provocations by those who wish to close the curtain on Brazilian democracy.
On Monday, April 9th, after a joyless Sunday, many of us went to Curitiba in order to visit the social movements’ camp in which humble people, along with middle class people, testified to witnessed their nonconformity in regards to the violence committed against Lula.
If the affection and recognition dedicated to the former president offered some consolation from the pain of knowing him trapped, the vision of the police building gave an absurd materiality to what had seemed so far like an abstract idea: the imprisonment of a human being whom the poor people of Brazil see as their most legitimate and dear representative.
In the course of my life as public servant most of which in the exercise of diplomatic functions, I have rarely felt such a deep shame (distinct from a simple and quick discomfort) of my country. As a young official serving abroad, I once
opened a magazine I regularly received from Brazil and read a report about the death of a prisoner under torture. A very brief gap in the censorship imposed by the military regime allowed the report to be published. I experienced that same feeling again upon the denial of the request to visit Lula submitted by Adolfo Pérez-Esquivel – the 1980 Nobel Peace Prize -; the same denial was made to his longtime friend Leonardo Boff, another peace loving spiritual leader
In 2002, when the people had the courage to elect as their president a blue-collar worker who had emigrated from
one of Brazil's poorest regions, the expression "hope overcame fear" was coined. At this gloomy moment, I do not know what I lament the most: the ignorance of our judges regarding the international rules on the treatment of prisoners or the
intellectual poverty of those who cling to the mere formalities of the rules, making decisions devoid of any sense of humanity.
Amidst so much arbitrariness at the service of the powerful both inside and outside Brazil, we must seek strength and inspiration in Boff’s and Esquivel's heartfelt attitudes.
We need free and fair elections, with the participation of the most representative candidates of the people
(and this starts with Lula), so that the Brazilian people will get back peace and trust in the future. We must not allow hatred and meanness to overcome hope.
Celso Amorim: Former Foreign Secretary (2003-2010, Lula government) and Defense Secretary (2011-2015, Dilma government) of Brazil.
Lo político y lo humano
Una imagen vale más que mil palabras, dice el proverbio chino. Mil palabras no serán capaces de describir, de manera tan pungente, la tristeza profunda experimentada por millones de brasileños (y muchas otras personas por todo el mundo) sobre la foto de Leonardo Boff, sentado a la solera del edificio de la Policia Federal, en Curitiba, donde está detenido el ex-presidente Lula da Silva.
Como muchos otros militantes y simpatizantes, seguí, en el Sindicato de los Metalúrgicos en São Bernardo do Campo, el despliegue del drama político al que el país fue arrastrado posteriormente al ser decretado el arresto de Lula por el juez Sergio Moro, horas después de la denegación de su habeas corpus, por diferencia muy estrecha, por el Supremo Tribunal Federal.
En las horas que precedieron la partida del presidente, una característica de su personalidad sobresalió en sus gestos: la profunda humanidad, el interés real y concreto por el bienestar material y espiritual de todos que estaban dentro del edificio o entre la multitud que lo circundaba.
Lula no salió de la vida para entrar en la historia, ni ha puesto en riesgo la integridad física de sus apoyadores. Tampoco cedió a la coreografía planeada por sus verdugos (secuestradores). No ha obedecido al ultimátum disfrazado en deferencia, pero no ha permitido que el episodio de su arresto se convirtiera en pretexto para nuevas provocaciones por aquellos que desean cerrar las cortinas sobre la democracia brasileña.
En lunes (9/4), después de un domingo sin fiesta, fuimos a Curitiba a visitar el campamento montado por movimientos sociales, en que la gente humilde, juntamente con personas de clase media, testimoniaron su inconformidad con la violencia contra Lula.
Si el afecto y el reconocimiento por el ex presidente ofrecían algún consuelo al dolor de saberlo preso, la visión del edificio daba absurda materialidad al que entonces parecía una idea abstracta: el encarcelamiento del ser humano en quien el pueblo pobre de Brasil ve su más legítimo y querido representante.
A lo largo de mi vida como funcionario público, la mayor parte en ejercicio de la función diplomática, pocas veces sentí tanta vergüenza (distinta de una mera incomodidad pasajera) de mi país.
Una de ellas ocurrió cuando, siendo joven funcionario sirviendo en el exterior, abrí una revista que regularmente recibía de Brasil y leí un reportaje sobre la muerte de un prisionero bajo tortura. Una breve brecha en la censura impuesta por el régimen permitió que el reportaje fuera publicado. Volví a experimentar el mismo sentimiento con el rechazo a los pedidos de visita a Lula hechos por Adolfo Pérez Esquivel, Premio Nobel de la Paz en 1980, y por el amigo de larga data, otro pacífico luchador de la paz, Leonardo Boff.
En 2002, cuando el pueblo tuvo coraje para elegir como su presidente un operario con raíces en el agreste del nordeste, se acuño la expresión "la esperanza venció el miedo". En este momento sombrío, no sé lo que lamento más: la ignorancia de nuestros jueces cuanto a las normas internacionales sobre tratamiento de presos o la pequeñez de espíritu de los que se apegan a la formalidad de las reglas para tomar decisiones desprovistas de cualquier sentido de humanidad.
En medio de tantas arbitrariedades puestas al servicio de los poderosos dentro y fuera de Brasil, tenemos que buscar fuerza e inspiración en las actitudes valientes de Boff y Esquivel.
Necesitamos elecciones libres y justas, con la participación de los candidatos más representativos del pueblo, empezando por Lula, para que la paz y la confianza en el futuro sean devueltas al pueblo brasileño. No podemos permitir que el odio y la mezquindad venzan la esperanza.
Celso Amorim
Ex-ministro de Relaciones Exteriores (2003-2010, gobierno Lula) y de Defensa (2011-2015, gobierno Dilma), precandidato del PT a gobernador del Estado de Rio de Janeiro
(Traduzido por Julie Guedes y Danillo Bragança).
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