CARTA ABERTA À POPULAÇÃO: CONTRA O COVID, FIQUEM EM CASA

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É com grande preocupação e senso de responsabilidade que vemos a epidemia do novo coronavírus (COVID-19) se alastrar pelo país. Dados da Organização Mundial de Saúde indicam que até o final de março terão sido registrados mais de 750.000 casos no mundo, sendo mais de 4.200 no Brasil de acordo com dados do Ministério da Saúde.

Por se tratar de uma situação sem precedentes tanto para a população em geral (aqui incluídas as autoridades públicas), quanto para os profissionais da saúde é inevitável o surgimento de uma série de questionamentos de ordem prática, entre eles: 

  • Alocação de recursos, 
  • Uso de tratamentos médicos experimentais (ou sem eficácia cientificamente comprovada),
  • Burn out da equipe assistencial,
  • Restrição de liberdade da população,
  • Internação compulsória

Muitas vezes não há uma resposta certa para as difíceis circunstâncias que surgirão diariamente no cuidado ao paciente com COVID-19. Mas é certo que esta incerteza gera no profissional de saúde uma terrível sensação de angústia e impotência.

Nestes momentos talvez a resposta mais adequada para nortear os cuidados ao paciente com COVID-19 venha da bioética, um ramo do conhecimento humano que auxilia nos dilemas que surgem do progresso biotecnológico e que conflitam com valores individuais e sociais.

Para se contrapor a esta epidemia de COVID-19, além das medidas sanitárias de prevenção, precisaremos ter os recursos de saúde necessários disponíveis, e assim a questão da distribuição de recursos trará dilemas bioéticos inevitáveis.

Talvez o principal em questão, fora a disponibilidade de profissionais de saúde, seja a alocação dos leitos de terapia intensiva, incluindo ventiladores mecânicos a serem usados nas formas mais graves da doença, ou seja, aquelas que evoluem com pneumonia viral e insuficiência respiratória aguda.

Em situações normais esta alocação de leitos de UTI é feita baseando-se em alguns critérios, sendo os mais frequentes a necessidade (baseada na gravidade do quadro clínico) ou no benefício associado (maximiza-se o impacto social e econômico salvando-se o maior número de vidas levando também em consideração os anos a viver do paciente).

Em uma situação de epidemia como a atual tudo muda. Na Itália está em discussão se pacientes vitimados pelo COVID-19 com mais de 80 anos ou que estiverem em mal estado de saúde terão ou não acesso a leitos de terapia intensiva. O receio dos médicos italianos é que pacientes serão deixados à própria sorte e, inevitavelmente, morrerão.

Do ponto de vista bioético trata-se de uma decisão utilitarista, ou seja, o objetivo é selecionar os pacientes que tem maior chance de sobrevida baseado em anos por vida salva.

O número de pessoas internadas em estado grave em São Paulo com infecção pelo COVID-19 vem aumentando nos últimos dias, ou seja, cresce rapidamente o número de pacientes internados em UTI e que evoluirão com pneumonia grave e insuficiência respiratória aguda.

O receio que não haja ventilador mecânico suficiente para todo paciente em insuficiência respiratória aguda não é alarmismo ou histeria. É uma angústia real para todo profissional da saúde que tem enfrentado esta epidemia sem precedentes na história recente da humanidade.

Como decidir quem deverá ou não ser intubado no caso de haver menos ventiladores mecânicos que o necessário? Quem tomará esta decisão? Baseado em quais dados?

Discutem-se a criação de comitês de médicos que farão esta verdadeira “Escolha de Sofia”, poupando os profissionais da linha de frente deste estresse emocional tão avassalador. Decidir quem vive ou quem morre!

Para evitar que nas próximas semanas os médicos tenham que tomar decisões para as quais nunca foram treinados é essencial que caia o número de casos novos de COVID-19, pois quanto maior o número de casos, maior o número de casos graves e, portanto, maior a dificuldade para o sistema de saúde comportar tais pacientes.

Por isso é essencial que o número de pacientes infectados pelo COVID-19 seja diluído ao longo do tempo e assim poder reduzir o número de pacientes que precisará, simultaneamente, de ventiladores mecânicos.

No momento em que a pandemia de COVID-19 é fato, e inegavelmente já ocorre a transmissão comunitária no Brasil, medidas de isolamento social com fechamento de escolas, universidades, comércio e qualquer serviço não essencial é imperativo.

Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro. Hoje qualquer um que fique em casa pode estar salvando uma vida.