Parar o Abuso de Autoridade e Transfobia na Exposição Curricular da Museologia (UNIRIO)


Parar o Abuso de Autoridade e Transfobia na Exposição Curricular da Museologia (UNIRIO)
O problema
Carta aberta à Comunidade Acadêmica da UNIRIO e à Sociedade Civil
Nós, estudantes de Museologia, vimos, por meio desta, relatar graves situações ocorridas ao longo do semestre letivo de 2025.1, envolvendo discentes da disciplina Museologia e Comunicação IV noturno, ministrada pelos professores Anaildo Bernardo Baraçal e Priscilla Arigoni Coelho. As situações relatadas dizem respeito à condução autoritária e discriminatória da disciplina, ao tratamento dispensado aos estudantes — em especial à estudante, mulher trans, vítima de um ataque transfóbico explícito. Tornamos pública, ainda, a decisão unilateral dos docentes de cancelar a exposição curricular, bem como o discurso culpabilizador que atribui à turma uma responsabilidade indevida.
No dia 25 de junho de 2025, no grupo de WhatsApp oficial da turma, o professor se dirigiu à vítima utilizando seu nome de registro, com o claro intuito de constrangê-la, apesar de já ter sido informado anteriormente sobre sua preferência pelo uso do nome social. A situação gerou profundo desconforto e indignação, tanto para ela quanto para os demais estudantes presentes. Ao ser interpelado pela atitude, o docente afirmou que não teria obrigação de utilizar o nome social, condicionando o reconhecimento à apresentação de documentação formal e ao cumprimento de trâmites burocráticos. Tal postura evidencia má-fé e a intenção deliberada de provocar e constranger a estudante. Reafirmamos que esse ato configura violência simbólica, transfobia e constrangimento público, além de violar frontalmente o direito ao uso do nome social, garantido legal e institucionalmente.
Este não foi um caso isolado. A disciplina, ao longo de todo o semestre, foi marcada por falas e posturas que revelam insensibilidade, descrédito e, por vezes, ironia ao tratar de questões de gênero, sexualidade e exclusão — o que contraria completamente a proposta pedagógica que se pretende crítica e inclusiva. A presença de condutas discriminatórias por parte de um professor, especialmente em uma disciplina cujo foco é justamente a visibilização das vivências de mulheres trans e travestis, é inadmissível. Além de ferir os princípios éticos da docência, compromete o bem-estar e a permanência de estudantes trans e travestis na universidade.
Somado a isso, denunciamos o processo problemático que levou ao cancelamento da exposição curricular — projeto presencial inicialmente incentivado pelo próprio professor ainda durante a disciplina Museologia e Comunicação III, no semestre anterior. A proposta de uma exposição presencial foi amplamente acolhida pela turma, que desde então se dedicou com empenho à sua construção. No entanto, ao longo deste semestre, o desenvolvimento do projeto foi comprometido por dificuldades de comunicação (inclusive sobre o corte de verba, que só foi informado após questionamento dos estudantes em sala), pela ausência de planejamento claro e por uma postura recorrente de desmobilização e deslegitimação dos esforços da turma. Muitas das tarefas, instruções e prazos não foram formalizados, impossibilitando sua posterior recuperação; as atividades careciam de propostas estruturadas, o que gerou a sensação de falta de planejamento pedagógico e de desconhecimento quanto à burocracia necessária à obtenção de recursos para exposições. Cabe destacar que, em mais de uma ocasião, o próprio professor admitiu em sala de aula estar desatualizado quanto aos trâmites burocráticos envolvidos na realização da exposição curricular, incluindo os procedimentos para solicitação de recursos. Ressaltamos ainda que foi relatado pelos próprios docentes que a turma estaria servindo como “laboratório” para a compreensão de processos que, à altura, já deveriam ser de domínio dos profissionais responsáveis pela disciplina.
No momento em que foi comunicado o corte de verbas, a turma foi consultada sobre a possibilidade de manter a exposição em formato presencial, com adaptações, ou migrar para o formato online. A decisão coletiva foi pela manutenção do formato presencial, justamente por considerá-lo ainda mais necessário diante do novo contexto. Nas semanas seguintes, mesmo após esforços conjuntos da turma e dos próprios docentes para viabilizar alternativas, fomos surpreendidos com a comunicação do cancelamento da exposição, tomada de forma unilateral pelo professor. A justificativa apresentada foi a de que, ainda que houvesse chances de obtenção de recursos — mesmo com atraso na abertura da exposição —, ele não se sentia seguro para buscar tais possibilidades, alegando que a turma não vinha cumprindo os prazos estabelecidos. A decisão, além de desconsiderar o engajamento coletivo diante das dificuldades, transfere indevidamente à turma a responsabilidade pelo encerramento de um processo pedagógico que ainda apresentava condições reais de continuidade. Tal postura representa, ainda, uma tentativa de encobrir os problemas estruturais da universidade e as fragilidades pedagógicas enfrentadas ao longo do semestre.
Diante do exposto, solicitamos:
- Reconhecimento público, por parte da instituição, do episódio de transfobia cometido contra a estudante vitimada;
- Responsabilização ética do docente, com ênfase nas condutas inadequadas relacionadas ao assédio moral praticado contra discentes, bem como na condução pedagógica marcada por decisões unilaterais, tecnicamente frágeis e prejudiciais ao desenvolvimento acadêmico da turma;
- Garantias de que os estudantes não serão prejudicados em suas avaliações finais em razão do não cumprimento da atividade da exposição – cujo cancelamento partiu única e exclusivamente dos professores;
- A criação urgente de mecanismos de escuta e proteção a estudantes trans e travestis no âmbito da Escola, para que casos como este não se repitam nem permaneçam impunes;
- O reconhecimento da responsabilidade institucional da Escola de Museologia e da UNIRIO pelo não cumprimento das condições necessárias à realização da exposição.
Convidamos a comunidade acadêmica e a sociedade civil a assinar o abaixo-assinado que como forma de apoio e solidariedade à estudante e a todas as estudantes afetadas, bem como para reforçar a urgência de providências institucionais diante dos fatos aqui relatados.
Acreditamos que a universidade deve ser um espaço de construção coletiva, respeito à diversidade e compromisso ético com a formação de seus estudantes. O que vivenciamos nesta disciplina foi o oposto disso. Por essa razão, tornamos público nosso posicionamento, na esperança de que a instituição atue com firmeza, responsabilidade e coerência.
Atenciosamente,
Diretório Acadêmico de Museologia
Rio de Janeiro, 26 de junho de 2025.
O problema
Carta aberta à Comunidade Acadêmica da UNIRIO e à Sociedade Civil
Nós, estudantes de Museologia, vimos, por meio desta, relatar graves situações ocorridas ao longo do semestre letivo de 2025.1, envolvendo discentes da disciplina Museologia e Comunicação IV noturno, ministrada pelos professores Anaildo Bernardo Baraçal e Priscilla Arigoni Coelho. As situações relatadas dizem respeito à condução autoritária e discriminatória da disciplina, ao tratamento dispensado aos estudantes — em especial à estudante, mulher trans, vítima de um ataque transfóbico explícito. Tornamos pública, ainda, a decisão unilateral dos docentes de cancelar a exposição curricular, bem como o discurso culpabilizador que atribui à turma uma responsabilidade indevida.
No dia 25 de junho de 2025, no grupo de WhatsApp oficial da turma, o professor se dirigiu à vítima utilizando seu nome de registro, com o claro intuito de constrangê-la, apesar de já ter sido informado anteriormente sobre sua preferência pelo uso do nome social. A situação gerou profundo desconforto e indignação, tanto para ela quanto para os demais estudantes presentes. Ao ser interpelado pela atitude, o docente afirmou que não teria obrigação de utilizar o nome social, condicionando o reconhecimento à apresentação de documentação formal e ao cumprimento de trâmites burocráticos. Tal postura evidencia má-fé e a intenção deliberada de provocar e constranger a estudante. Reafirmamos que esse ato configura violência simbólica, transfobia e constrangimento público, além de violar frontalmente o direito ao uso do nome social, garantido legal e institucionalmente.
Este não foi um caso isolado. A disciplina, ao longo de todo o semestre, foi marcada por falas e posturas que revelam insensibilidade, descrédito e, por vezes, ironia ao tratar de questões de gênero, sexualidade e exclusão — o que contraria completamente a proposta pedagógica que se pretende crítica e inclusiva. A presença de condutas discriminatórias por parte de um professor, especialmente em uma disciplina cujo foco é justamente a visibilização das vivências de mulheres trans e travestis, é inadmissível. Além de ferir os princípios éticos da docência, compromete o bem-estar e a permanência de estudantes trans e travestis na universidade.
Somado a isso, denunciamos o processo problemático que levou ao cancelamento da exposição curricular — projeto presencial inicialmente incentivado pelo próprio professor ainda durante a disciplina Museologia e Comunicação III, no semestre anterior. A proposta de uma exposição presencial foi amplamente acolhida pela turma, que desde então se dedicou com empenho à sua construção. No entanto, ao longo deste semestre, o desenvolvimento do projeto foi comprometido por dificuldades de comunicação (inclusive sobre o corte de verba, que só foi informado após questionamento dos estudantes em sala), pela ausência de planejamento claro e por uma postura recorrente de desmobilização e deslegitimação dos esforços da turma. Muitas das tarefas, instruções e prazos não foram formalizados, impossibilitando sua posterior recuperação; as atividades careciam de propostas estruturadas, o que gerou a sensação de falta de planejamento pedagógico e de desconhecimento quanto à burocracia necessária à obtenção de recursos para exposições. Cabe destacar que, em mais de uma ocasião, o próprio professor admitiu em sala de aula estar desatualizado quanto aos trâmites burocráticos envolvidos na realização da exposição curricular, incluindo os procedimentos para solicitação de recursos. Ressaltamos ainda que foi relatado pelos próprios docentes que a turma estaria servindo como “laboratório” para a compreensão de processos que, à altura, já deveriam ser de domínio dos profissionais responsáveis pela disciplina.
No momento em que foi comunicado o corte de verbas, a turma foi consultada sobre a possibilidade de manter a exposição em formato presencial, com adaptações, ou migrar para o formato online. A decisão coletiva foi pela manutenção do formato presencial, justamente por considerá-lo ainda mais necessário diante do novo contexto. Nas semanas seguintes, mesmo após esforços conjuntos da turma e dos próprios docentes para viabilizar alternativas, fomos surpreendidos com a comunicação do cancelamento da exposição, tomada de forma unilateral pelo professor. A justificativa apresentada foi a de que, ainda que houvesse chances de obtenção de recursos — mesmo com atraso na abertura da exposição —, ele não se sentia seguro para buscar tais possibilidades, alegando que a turma não vinha cumprindo os prazos estabelecidos. A decisão, além de desconsiderar o engajamento coletivo diante das dificuldades, transfere indevidamente à turma a responsabilidade pelo encerramento de um processo pedagógico que ainda apresentava condições reais de continuidade. Tal postura representa, ainda, uma tentativa de encobrir os problemas estruturais da universidade e as fragilidades pedagógicas enfrentadas ao longo do semestre.
Diante do exposto, solicitamos:
- Reconhecimento público, por parte da instituição, do episódio de transfobia cometido contra a estudante vitimada;
- Responsabilização ética do docente, com ênfase nas condutas inadequadas relacionadas ao assédio moral praticado contra discentes, bem como na condução pedagógica marcada por decisões unilaterais, tecnicamente frágeis e prejudiciais ao desenvolvimento acadêmico da turma;
- Garantias de que os estudantes não serão prejudicados em suas avaliações finais em razão do não cumprimento da atividade da exposição – cujo cancelamento partiu única e exclusivamente dos professores;
- A criação urgente de mecanismos de escuta e proteção a estudantes trans e travestis no âmbito da Escola, para que casos como este não se repitam nem permaneçam impunes;
- O reconhecimento da responsabilidade institucional da Escola de Museologia e da UNIRIO pelo não cumprimento das condições necessárias à realização da exposição.
Convidamos a comunidade acadêmica e a sociedade civil a assinar o abaixo-assinado que como forma de apoio e solidariedade à estudante e a todas as estudantes afetadas, bem como para reforçar a urgência de providências institucionais diante dos fatos aqui relatados.
Acreditamos que a universidade deve ser um espaço de construção coletiva, respeito à diversidade e compromisso ético com a formação de seus estudantes. O que vivenciamos nesta disciplina foi o oposto disso. Por essa razão, tornamos público nosso posicionamento, na esperança de que a instituição atue com firmeza, responsabilidade e coerência.
Atenciosamente,
Diretório Acadêmico de Museologia
Rio de Janeiro, 26 de junho de 2025.
Vitória
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Abaixo-assinado criado em 26 de junho de 2025