Alteração dos cânones da Igreja Metodista para a inclusão total das pessoas homoafetivas
Alteração dos cânones da Igreja Metodista para a inclusão total das pessoas homoafetivas
O problema
Formulário para Encaminhamento de Sugestão de matéria ao
21º. Concílio Geral
11 a 18/07/2021 – Sorocaba, SP.
Nº de controle de Cada Região: __________
.
Assunto de que trata a proposta: MEMBROS LEIGOS E CLÉRIGOS
Tema (assunto especificado): ACOLHIMENTO PLENO DE PESSOAS HOMOAFETIVAS
Sugestão de proposta:
1. Supressão do § 3. do Art. 13 da “Parte Geral” dos Cânones.
2. Adição do § 5. no Art. 7 da “Parte Especial” dos Cânones, nos seguintes termos:
§ 5° É vedada qualquer forma de discriminação a membros leigos ou clérigos por ocasião de sua raça, cor, origem social, gênero, identidade de gênero ou orientação sexual.
3. Supressão do Inciso VII do Art. 61 da “Parte Especial” dos Cânones.
4. Alteração do Art. 17 da “Parte Especial” dos Cânones, que passa a viger com a seguinte redação:
“Art. 17. Ordem Diaconal é a categoria eclesiástica leiga, na qual a Igreja Metodista, com a autoridade e direção do Espírito Santo, acolhe, em nome de Deus, pessoas que ela reconhece vocacionadas para a prestação de ministérios especiais, reconhecidos pela Igreja, sem distinção de sexo ou orientação sexual, consagrando-as ao desempenho da Missão.”
5. Alteração do Art. 25 (Parte Especial), que passa a viger com a seguinte redação:
“Art. 25. Ordem Presbiteral é a categoria eclesiástica clériga na qual a Igreja Metodista, com a autoridade e a direção do Espírito Santo, acolhe, em nome de Deus, sem distinção de sexo ou orientação sexual, os membros em que reconhece a vocação para o Santo Ministério da Palavra e dos Sacramentos e outros ministérios por ela reconhecidos, ordenando-os para o desempenho da Missão.”
6. Alteração do Art. 36 (Parte Especial), que passa a viger com a seguinte redação:
“Art. 36. Ministério Pastoral é a categoria eclesiástica clériga na qual a Igreja Metodista, com a autoridade e a direção do Espírito Santo, acolhe, em nome de Deus, sem distinção de sexo ou orientação sexual, os membros que reconhece vocacionados para o Santo Ministério da Palavra e dos Sacramentos e outros ministérios por ela reconhecidos, consagrando-os para o desempenho da Missão.”
7. Alteração do Art. 272 (Parte Especial), que passa a viger com a seguinte redação:
“Art. 272. Pastor ou Pastora Suplente é categoria eclesiástica em extinção, na qual a Igreja Metodista, com a autoridade e direção do Espírito Santo, acolhe, em nome de Deus, sem distinção de sexo ou orientação sexual, os membros, que ela reconhece vocacionados para o santo Ministério da Palavra e dos Sacramentos e outros Ministérios por ela reconhecidos, no desempenho da Missão.”
8. Criação de uma comissão ou grupo de trabalho para tratar a temática no contexto da Igreja Metodista, com ampla participação de leigos, leigas, clérigos e clérigas, contando com a presença de membros da igreja que são LGTB.
Justificativa (incluir artigo (s) canônico (s) a ser (em) modificado(s), ser for o caso:
Cada contexto histórico apresenta desafios específicos à vida e missão das igrejas. As respostas que o metodismo brasileiro oferecerá aos desafios atuais determinará se ele será acolhido ou rejeitado por Aquele que o tem chamado a ser Igreja.
Quando se trata do acolhimento pleno de pessoas homossexuais na Igreja Metodista em solo brasileiro, muitos podem ser os equívocos, fundamentados, em geral, nos preconceitos de nossa cultura patriarcal, machista, racista e sexista, sem qualquer relação com um diálogo sério com os fundamentos da fé cristã.
No primeiro século, as igrejas da Judeia e da Ásia viveram grandes desafios. Um dos primeiros e mais decisivos foi o acolhimento de “gentios” à comunhão. Grupos conhecidos como “judaizantes” exigiam que pessoas que não eram judias cumprissem algumas leis para que fossem incluídas na igreja. Paulo se coloca como defensor dos gentios; líderes da igreja de Jerusalém como defensores dos judaizantes; e Pedro vacila, o que o faz ser reprovado por Paulo. A expressão 'em Cristo', na pregação de Paulo e no testemunho daquelas igrejas, especialmente em seu confronto com os judaizantes, nos ensina que o apego a identidades fixas nos afasta do preceito básico da fé - "amar a Deus e às pessoas" - e nos conduz a um tipo de idolatria muito perversa, que destrói a alteridade e impõe um culto de si mesmo a todas as pessoas. "Em Cristo", então, não significa "ser cristão" ou "cristã", mas acolher e amar a outra pessoa em sua singularidade, que nem sempre é admitida pelas muitas identidades sociais, religiosas e culturais.
A história das igrejas cristãs está repleta de momentos como aquele, nos quais elas precisaram abandonar aspectos culturais que aprisionavam as comunidades e tentavam limitar o poder transformador do Espírito Santo. Na Reforma, o protestantismo abriu mão de uma vasta tradição para firmar-se sobre o pressuposto da graça e da justificação mediante a fé. Na guerra civil estadunidense o metodismo daquele país se dividiu entre favoráveis e contrários à escravidão de pessoas negras. Na luta pelos direitos das mulheres a igreja conviveu com pessoas favoráveis e contrárias aos movimentos por emancipação e pelo voto. Pessoas que se separavam em seu relacionamento conjugal também eram impedidas de servir a Deus mediante seus dons na igreja. Durante séculos, crianças foram excluídas da mesa da comunhão com base em leituras bíblicas ofuscadas por preconceitos. Cada um desses momentos foi marcado pela ação de homens e mulheres que, mediante a ação do Espírito Santo, chamaram a igreja a um novo modo de testemunhar o amor de Deus.
Pessoas com orientação sexual diferente da heteronormativa fazem parte da Igreja Metodista e de toda sociedade. São leigos e leigas, clérigos e clérigas que exercem seus dons e ministérios contribuindo para a expansão do Evangelho mesmo sem, muitas vezes, revelarem sua identidade, pois sabem que serão excluídas da oportunidade de oferecerem seus dons a Deus mediante o serviço na igreja. Outras, em geral adolescentes e jovens, se afastam espontaneamente por compreenderem como falso o discurso de amor proferido pelas igrejas. Outras ainda são excluídas de diversos modos do convívio da fé. Outrossim, tentando se fechar em uma realidade particular, a igreja ignora a violência contra as pessoas homossexuais, não oferecendo, de fato, a proteção necessária a essas pessoas. O sangue de vidas que as igrejas lançam cotidianamente à exclusão e à morte, no entanto, será cobrado de seus líderes.
Considerações teológicas
Do ponto de vista teológico, a negação do pleno acolhimento das pessoas homossexuais se dá por uma série de más leituras do texto bíblico e por grandes erros de interpretação. Não raro vemos a fala diabólica “está escrito” (Lc 4:10) para justificar posturas que contradizem o cerne da pregação cristã. Lembrando que o próprio Jesus rebateu ao “está escrito” do diabo por meio do retorno ao cerne do texto e não apenas à sua apropriação indevida.
Quando se discute o tema da homoafetividade dentro do contexto eclesiástico, alguns textos são sempre os mais citados para “fundamentar” a discriminação contra pessoas homossexuais, i.e, os textos de Gn 19:1-11 e Lv 18:22 no AT, e os textos de Rm 1:26-27 e 1Cor 6:9-10 no NT. No entanto, o que se percebe é uma leitura extremamente equivocada destes textos, sem prestar atenção ao contexto de sua escrita, como também sem prestar atenção à interpretação possível dos textos. Como sabemos, o texto bíblico é um texto escrito dentro de um contexto específico e deve ser lido de forma séria para que o teor da palavra chegue a nós não em sua letra morta, mas em seu espírito vivificante (2Cor 3:6).
Neste sentido, para embasar a nossa proposta, expomos de maneira sintética uma exegese dos textos em questão.
O texto de Gn 19:1-11 fala sobre Sodoma e Gomorra, e possui um texto paralelo em Jz 19. Apesar de muito citado, não trata da questão da homossexualidade, mas sim da importante questão para o mundo antigo da hospitalidade. O verdadeiro pecado de Sodoma está descrito em Ez 16:49-50:
“Eis em que que consistia a iniquidade de Sodoma, tua irmã: na voracidade com que comia o seu pão, na despreocupação tranquila com que ela e suas filhas usufruíram os seus bens, enquanto não davam nenhum amparo ao pobre e ao indigente. Eram altivas e cometeram abominação na minha presença. Por isso as eliminei, como viste” (Ez 16:49-50. Tradução Bíblia de Jerusalém).
O termo hebraico utilizado para “abominação” é o termo “toebah”, tendo como significado recorrente na Bíblia a idolatria. O mesmo termo é usado também no contexto de Is 1:1-15, em que se compara Israel com Sodoma e Gomorra. Já o relato de Gênesis sobre Sodoma e Gomorra se insere, como dito acima, dentro do tema da hospitalidade, no âmbito do assim chamado “Código da hospitalidade”, que era uma tradição comum no mundo mediterrâneo. As cidades de Sodoma e Gomorra desrespeitam tal código ao tratar os visitantes como espiões, de modo a tentar subjugá-los e humilhá-los através do estupro.
O comentário da Bíblia de Oxford reafirma que o grande problema do relato de Sodoma e Gomorra é a questão da hospitalidade. O pecado dessas cidades não tem nenhuma relação com a questão homoafetiva, mas sim com a questão da violação desse código tradicional sobre o devido tratamento aos visitantes estrangeiros. Os homens que vêm à casa de Ló querem violentar os visitantes que ele hospeda. O código de hospitalidade é tão sério naquele contexto que Ló chega a oferecer suas duas filhas virgens no lugar dos hóspedes. No entanto, a proposta de Ló acaba fazendo com que os próprios hóspedes sejam obrigados a ir em socorro dele, puxando-o para dentro e fechando a porta. Enquanto Abraão se mostra como um perfeito modelo de hospitalidade (Gn 18:1-16), a figura de Ló é retratada como alguém que não tem condições de se colocar como herdeiro de Abraão. A contraposição entre Abraão e Ló se segue quando comparado o texto de Gn 18:1-16 com o texto de Gn 19:1-11.
O próprio Jesus, ao citar Sodoma e Gomorra, o faz dentro do contexto do código da hospitalidade. (Mt 10:14-15; Lc 10:10-12): “Mas se alguém não vos recebe e não dá ouvidos às vossas palavras, saí daquela casa ou daquela cidade e sacudi o pó de vossos pés. Em verdade vos digo: no Dia do Julgamento haverá menos rigor para Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade” (Mt 10:14-15)
O segundo texto, Lv 18:22, deve ser lido também em seu contexto maior, que é o próprio livro do Levítico como um manual de trabalho sacerdotal. E também deve ser observado o seu contexto mais próximo, que é o código de santidade (ou pureza ritual) como descrito nos capítulos 17 a 26. Se olharmos atentamente para o capítulo 18 (pois nenhum versículo deve ser lido de maneira isolada), percebemos que o contexto das proibições ali descritas tem a ver com a ordem de não imitar os cananeus (Lv 18:1-3), ao passo que os versículos 21-23 tem em mente, especificamente, a séria questão da idolatria. Isso fica muito claro no versículo 21, em que o autor faz uma proibição tendo em mente uma prática pagã do culto a Moloque (Lv 20:1-5). O culto a Moloque fazia passar pelo fogo as crianças que eram oferecidas à divindade. Tal rito é condenado no texto bíblico várias vezes (Lv 20:2-5; Dt 12:31; 18:10).
O versículo de Lv 18:22 tem a ver também com uma parte dos rituais cananeus que era o sexo com prostitutos sagrados. Novamente o termo “toebah” é usado aqui, em seu sentido de “idolatria”. O versículo 23 continua tratando de ritos cananeus e seus cultos agrícolas para favorecer a fertilidade, com suas práticas de sexo ritual com animais. A questão do versículo 22, portanto, é a idolatria, praticada através do sexo ritual com prostitutas (kedesha) e prostitutos (kadesh) cultuais. Essa prática é mencionada e proibida em Dt 23:18.
No Novo Testamento, um dos textos mais utilizados para a discriminação contra as pessoas homossexuais é, sem dúvida, o texto de Rm 1:26-27. E, novamente aqui, percebe-se um erro de leitura grande que favorece apenas a discriminação contra essas pessoas. Quando prestamos atenção ao texto amplo de Rm 1.18-29, percebemos que o tema em questão é o problema da idolatria. Os versículos 26 e 27 fazem parte dessa argumentação paulina maior e isso se evidencia pelo início do versículo 26, com a expressão “por isso” ou “pelo que”, que remete ao contexto anterior imediato.
O versículo 26 trata de mulheres que “mudaram as relações naturais por relações contra a natureza”, o que no contexto do paulino não tem nada a ver com a homossexualidade em si, mas é uma citação direta ao texto de Lv 18:22 (já analisado por nós) e remete à prostituição sagrada praticada nas religiões pagãs, prática comum também em Roma e todo o império romano. Ou seja, Paulo está se referindo exatamente aos cultos com prostituição cultual, como os citados no Antigo Testamento (Lv 18:22; 19:29; 20:13; Dt 23:17).
No versículo 27 Paulo utiliza o verbo grego “katerrgotzumai”, que pode ser traduzido por “cometer”, mas dando a ideia específica de “esforço para realizar algo”, ou seja, fazer algo que não é comum para a pessoa, que exige dela um esforço. Segundo o comentário da Bíblia de Oxford:
Apesar de amplamente lido hoje como uma referência à homossexualidade, a linguagem de relação não-natural era mais comumente utilizada nos dias de Paulo para denotar não a orientação do desejo sexual, mas sua indulgência imoderada, a qual se acreditava enfraquecer o corpo[1]. (OXFORD ANNOTATED BIBLE 2007 p. 1978)
Neste contexto, o primeiro versículo do capítulo 2 de Rm é interessante, pois Paulo afirma que os judeus estariam praticando todas essas mesmas coisas que condenavam nos gentios.
O último texto que trazemos é 1Cor 6:9-10. Os termos utilizados por Paulo são interessantes. Paulo utiliza a princícipio o termo akidos: ímpio, injusto, mau, iníquo, para qualificar de modo geral todos os que ele citará na sequência em seu catálogo de vícios. Então, entre outros, vem o termo malakoi, que significa literalmente “fino”, como em “roupas finas” (Mt 11:8; Lc 7:25), e macio ao toque. A tradução de João Ferreira de Almeida traduz o termo “malakoi” por “efeminados”, no entanto a Bíblia de Jerusalém o traduz por “depravados”, e na tradução de Lutero esse mesmo termo é traduzido por “moralmente fraco”.
Na sequência imediata, Paulo utiliza o termo Arsenokoitai, que a tradução de João Ferreira traduz por “homossexuais”, mas a Bíblia de Jerusalém traduz por “pessoas de costumes infames”. O significado exato do termo Arsenokoitai (arseno = macho; koitai = cama) é desconhecido e não permite uma tradução pela aglutinação simples de palavras. O mais complicado é o fato de que tal expressão só aparece na Bíblia, e apenas duas vezes. Além da carta aos Coríntios, a segunda é em Tm 1:10, de forma que o termo é quase um hápax legómenon (um termo que aparece apenas uma vez em textos antigos). A ausência de referências para comparação do termo torna a sua tradução correta praticamente impossível. Alguns exegetas trabalham com a possibilidade de tal termo ser um neologismo paulino que pode estar ligado à prostituição cultual, em uma tentativa de traduzir para o grego a expressão de Lv 18:22 e 20,13. O comentário da Bíblia de Oxford acredita que as duas palavras juntas, malakoi e arsenokoitai, refiram-se à prática cultural grega da pederastia.
O que fica claro para nós, depois desta pequena análise exegética dos textos bíblicos, é que esses textos são utilizados para discriminação contra pessoas homossexuais por uma questão de preconceito, pois não tratam de relacionamentos humanos fundamentados no amor mútuo, mas sim de práticas rituais ocorridas exclusivamente dentro de rituais pagãos de fertilidade e percebidas nesse contexto de idolatria. Como a Bíblia é a nossa regra de fé e prática, e ela não dá margem para condenar o relacionamento homoafetivo, fica difícil sustentar qualquer tipo de posicionamento eclesial contra a plena inclusão dessas pessoas. Desse modo, propomos que a Igreja Metodista promulgue o pleno acolhimento de pessoas homossexuais no exercício de seus dons e ministérios da igreja.
PROPOSTA FORMULADA POR FABIANO VELIQ E VALESCA ATHAYDE – MEMBROS LEIGOS DA Igreja Metodista Izabela Hendrix – Proposta inspirada pela proposta apresentada pelos clérigos Pedro Nolasco Camargo Guimarães e Eliad Dias dos Santos da IIIRE
Fabiano Veliq é Filósofo formado pela UFMG, Especialista em Teologia pela Faculdade Batista de Belo Horizonte. Mestre em Filosofia pela FAJE. Doutor em Psicanálise pela PUC Minas. Doutorando em Filosofia pela UFMG. Psicanalista formado pela Escola Freudiana de Belo Horizonte.
Valesca Athayde é Bacharel em Direito pelo Instituto Metodista Granbery. Mestre em Direitos humanos pela FUMEC. Advogada. Professora de Inglês na Obra Social São José Operário - SEIAS, graduanda de Pedagogia na UEMG, graduanda de Letras no Claretiano - MG
Controle do Processual da sugestão recebida:
Examinada pela delegação em ___/___/2020
( ) Recusada pela delegação
( ) Encaminhada para Sede Nacional em __/___2020.
Visto: _________________
Examinada pelo Colégio Episcopal em ___/___/2020
Encaminhamento dado pelo Colégio Episcopal
_______________________
( ) Incluída no Caderno Único
Outra situação:
Nº. _________ (Atribuído p/ Secretaria Executiva)
[1] Original em inglês: Although widely read today as a reference to homosexuality, the language of unnatural intercourse was more often used in Paul’s day to denote not the orientation of sexual desire but its immoderate indulgence, which was believed to weaken the body. (Tradução nossa)

O problema
Formulário para Encaminhamento de Sugestão de matéria ao
21º. Concílio Geral
11 a 18/07/2021 – Sorocaba, SP.
Nº de controle de Cada Região: __________
.
Assunto de que trata a proposta: MEMBROS LEIGOS E CLÉRIGOS
Tema (assunto especificado): ACOLHIMENTO PLENO DE PESSOAS HOMOAFETIVAS
Sugestão de proposta:
1. Supressão do § 3. do Art. 13 da “Parte Geral” dos Cânones.
2. Adição do § 5. no Art. 7 da “Parte Especial” dos Cânones, nos seguintes termos:
§ 5° É vedada qualquer forma de discriminação a membros leigos ou clérigos por ocasião de sua raça, cor, origem social, gênero, identidade de gênero ou orientação sexual.
3. Supressão do Inciso VII do Art. 61 da “Parte Especial” dos Cânones.
4. Alteração do Art. 17 da “Parte Especial” dos Cânones, que passa a viger com a seguinte redação:
“Art. 17. Ordem Diaconal é a categoria eclesiástica leiga, na qual a Igreja Metodista, com a autoridade e direção do Espírito Santo, acolhe, em nome de Deus, pessoas que ela reconhece vocacionadas para a prestação de ministérios especiais, reconhecidos pela Igreja, sem distinção de sexo ou orientação sexual, consagrando-as ao desempenho da Missão.”
5. Alteração do Art. 25 (Parte Especial), que passa a viger com a seguinte redação:
“Art. 25. Ordem Presbiteral é a categoria eclesiástica clériga na qual a Igreja Metodista, com a autoridade e a direção do Espírito Santo, acolhe, em nome de Deus, sem distinção de sexo ou orientação sexual, os membros em que reconhece a vocação para o Santo Ministério da Palavra e dos Sacramentos e outros ministérios por ela reconhecidos, ordenando-os para o desempenho da Missão.”
6. Alteração do Art. 36 (Parte Especial), que passa a viger com a seguinte redação:
“Art. 36. Ministério Pastoral é a categoria eclesiástica clériga na qual a Igreja Metodista, com a autoridade e a direção do Espírito Santo, acolhe, em nome de Deus, sem distinção de sexo ou orientação sexual, os membros que reconhece vocacionados para o Santo Ministério da Palavra e dos Sacramentos e outros ministérios por ela reconhecidos, consagrando-os para o desempenho da Missão.”
7. Alteração do Art. 272 (Parte Especial), que passa a viger com a seguinte redação:
“Art. 272. Pastor ou Pastora Suplente é categoria eclesiástica em extinção, na qual a Igreja Metodista, com a autoridade e direção do Espírito Santo, acolhe, em nome de Deus, sem distinção de sexo ou orientação sexual, os membros, que ela reconhece vocacionados para o santo Ministério da Palavra e dos Sacramentos e outros Ministérios por ela reconhecidos, no desempenho da Missão.”
8. Criação de uma comissão ou grupo de trabalho para tratar a temática no contexto da Igreja Metodista, com ampla participação de leigos, leigas, clérigos e clérigas, contando com a presença de membros da igreja que são LGTB.
Justificativa (incluir artigo (s) canônico (s) a ser (em) modificado(s), ser for o caso:
Cada contexto histórico apresenta desafios específicos à vida e missão das igrejas. As respostas que o metodismo brasileiro oferecerá aos desafios atuais determinará se ele será acolhido ou rejeitado por Aquele que o tem chamado a ser Igreja.
Quando se trata do acolhimento pleno de pessoas homossexuais na Igreja Metodista em solo brasileiro, muitos podem ser os equívocos, fundamentados, em geral, nos preconceitos de nossa cultura patriarcal, machista, racista e sexista, sem qualquer relação com um diálogo sério com os fundamentos da fé cristã.
No primeiro século, as igrejas da Judeia e da Ásia viveram grandes desafios. Um dos primeiros e mais decisivos foi o acolhimento de “gentios” à comunhão. Grupos conhecidos como “judaizantes” exigiam que pessoas que não eram judias cumprissem algumas leis para que fossem incluídas na igreja. Paulo se coloca como defensor dos gentios; líderes da igreja de Jerusalém como defensores dos judaizantes; e Pedro vacila, o que o faz ser reprovado por Paulo. A expressão 'em Cristo', na pregação de Paulo e no testemunho daquelas igrejas, especialmente em seu confronto com os judaizantes, nos ensina que o apego a identidades fixas nos afasta do preceito básico da fé - "amar a Deus e às pessoas" - e nos conduz a um tipo de idolatria muito perversa, que destrói a alteridade e impõe um culto de si mesmo a todas as pessoas. "Em Cristo", então, não significa "ser cristão" ou "cristã", mas acolher e amar a outra pessoa em sua singularidade, que nem sempre é admitida pelas muitas identidades sociais, religiosas e culturais.
A história das igrejas cristãs está repleta de momentos como aquele, nos quais elas precisaram abandonar aspectos culturais que aprisionavam as comunidades e tentavam limitar o poder transformador do Espírito Santo. Na Reforma, o protestantismo abriu mão de uma vasta tradição para firmar-se sobre o pressuposto da graça e da justificação mediante a fé. Na guerra civil estadunidense o metodismo daquele país se dividiu entre favoráveis e contrários à escravidão de pessoas negras. Na luta pelos direitos das mulheres a igreja conviveu com pessoas favoráveis e contrárias aos movimentos por emancipação e pelo voto. Pessoas que se separavam em seu relacionamento conjugal também eram impedidas de servir a Deus mediante seus dons na igreja. Durante séculos, crianças foram excluídas da mesa da comunhão com base em leituras bíblicas ofuscadas por preconceitos. Cada um desses momentos foi marcado pela ação de homens e mulheres que, mediante a ação do Espírito Santo, chamaram a igreja a um novo modo de testemunhar o amor de Deus.
Pessoas com orientação sexual diferente da heteronormativa fazem parte da Igreja Metodista e de toda sociedade. São leigos e leigas, clérigos e clérigas que exercem seus dons e ministérios contribuindo para a expansão do Evangelho mesmo sem, muitas vezes, revelarem sua identidade, pois sabem que serão excluídas da oportunidade de oferecerem seus dons a Deus mediante o serviço na igreja. Outras, em geral adolescentes e jovens, se afastam espontaneamente por compreenderem como falso o discurso de amor proferido pelas igrejas. Outras ainda são excluídas de diversos modos do convívio da fé. Outrossim, tentando se fechar em uma realidade particular, a igreja ignora a violência contra as pessoas homossexuais, não oferecendo, de fato, a proteção necessária a essas pessoas. O sangue de vidas que as igrejas lançam cotidianamente à exclusão e à morte, no entanto, será cobrado de seus líderes.
Considerações teológicas
Do ponto de vista teológico, a negação do pleno acolhimento das pessoas homossexuais se dá por uma série de más leituras do texto bíblico e por grandes erros de interpretação. Não raro vemos a fala diabólica “está escrito” (Lc 4:10) para justificar posturas que contradizem o cerne da pregação cristã. Lembrando que o próprio Jesus rebateu ao “está escrito” do diabo por meio do retorno ao cerne do texto e não apenas à sua apropriação indevida.
Quando se discute o tema da homoafetividade dentro do contexto eclesiástico, alguns textos são sempre os mais citados para “fundamentar” a discriminação contra pessoas homossexuais, i.e, os textos de Gn 19:1-11 e Lv 18:22 no AT, e os textos de Rm 1:26-27 e 1Cor 6:9-10 no NT. No entanto, o que se percebe é uma leitura extremamente equivocada destes textos, sem prestar atenção ao contexto de sua escrita, como também sem prestar atenção à interpretação possível dos textos. Como sabemos, o texto bíblico é um texto escrito dentro de um contexto específico e deve ser lido de forma séria para que o teor da palavra chegue a nós não em sua letra morta, mas em seu espírito vivificante (2Cor 3:6).
Neste sentido, para embasar a nossa proposta, expomos de maneira sintética uma exegese dos textos em questão.
O texto de Gn 19:1-11 fala sobre Sodoma e Gomorra, e possui um texto paralelo em Jz 19. Apesar de muito citado, não trata da questão da homossexualidade, mas sim da importante questão para o mundo antigo da hospitalidade. O verdadeiro pecado de Sodoma está descrito em Ez 16:49-50:
“Eis em que que consistia a iniquidade de Sodoma, tua irmã: na voracidade com que comia o seu pão, na despreocupação tranquila com que ela e suas filhas usufruíram os seus bens, enquanto não davam nenhum amparo ao pobre e ao indigente. Eram altivas e cometeram abominação na minha presença. Por isso as eliminei, como viste” (Ez 16:49-50. Tradução Bíblia de Jerusalém).
O termo hebraico utilizado para “abominação” é o termo “toebah”, tendo como significado recorrente na Bíblia a idolatria. O mesmo termo é usado também no contexto de Is 1:1-15, em que se compara Israel com Sodoma e Gomorra. Já o relato de Gênesis sobre Sodoma e Gomorra se insere, como dito acima, dentro do tema da hospitalidade, no âmbito do assim chamado “Código da hospitalidade”, que era uma tradição comum no mundo mediterrâneo. As cidades de Sodoma e Gomorra desrespeitam tal código ao tratar os visitantes como espiões, de modo a tentar subjugá-los e humilhá-los através do estupro.
O comentário da Bíblia de Oxford reafirma que o grande problema do relato de Sodoma e Gomorra é a questão da hospitalidade. O pecado dessas cidades não tem nenhuma relação com a questão homoafetiva, mas sim com a questão da violação desse código tradicional sobre o devido tratamento aos visitantes estrangeiros. Os homens que vêm à casa de Ló querem violentar os visitantes que ele hospeda. O código de hospitalidade é tão sério naquele contexto que Ló chega a oferecer suas duas filhas virgens no lugar dos hóspedes. No entanto, a proposta de Ló acaba fazendo com que os próprios hóspedes sejam obrigados a ir em socorro dele, puxando-o para dentro e fechando a porta. Enquanto Abraão se mostra como um perfeito modelo de hospitalidade (Gn 18:1-16), a figura de Ló é retratada como alguém que não tem condições de se colocar como herdeiro de Abraão. A contraposição entre Abraão e Ló se segue quando comparado o texto de Gn 18:1-16 com o texto de Gn 19:1-11.
O próprio Jesus, ao citar Sodoma e Gomorra, o faz dentro do contexto do código da hospitalidade. (Mt 10:14-15; Lc 10:10-12): “Mas se alguém não vos recebe e não dá ouvidos às vossas palavras, saí daquela casa ou daquela cidade e sacudi o pó de vossos pés. Em verdade vos digo: no Dia do Julgamento haverá menos rigor para Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade” (Mt 10:14-15)
O segundo texto, Lv 18:22, deve ser lido também em seu contexto maior, que é o próprio livro do Levítico como um manual de trabalho sacerdotal. E também deve ser observado o seu contexto mais próximo, que é o código de santidade (ou pureza ritual) como descrito nos capítulos 17 a 26. Se olharmos atentamente para o capítulo 18 (pois nenhum versículo deve ser lido de maneira isolada), percebemos que o contexto das proibições ali descritas tem a ver com a ordem de não imitar os cananeus (Lv 18:1-3), ao passo que os versículos 21-23 tem em mente, especificamente, a séria questão da idolatria. Isso fica muito claro no versículo 21, em que o autor faz uma proibição tendo em mente uma prática pagã do culto a Moloque (Lv 20:1-5). O culto a Moloque fazia passar pelo fogo as crianças que eram oferecidas à divindade. Tal rito é condenado no texto bíblico várias vezes (Lv 20:2-5; Dt 12:31; 18:10).
O versículo de Lv 18:22 tem a ver também com uma parte dos rituais cananeus que era o sexo com prostitutos sagrados. Novamente o termo “toebah” é usado aqui, em seu sentido de “idolatria”. O versículo 23 continua tratando de ritos cananeus e seus cultos agrícolas para favorecer a fertilidade, com suas práticas de sexo ritual com animais. A questão do versículo 22, portanto, é a idolatria, praticada através do sexo ritual com prostitutas (kedesha) e prostitutos (kadesh) cultuais. Essa prática é mencionada e proibida em Dt 23:18.
No Novo Testamento, um dos textos mais utilizados para a discriminação contra as pessoas homossexuais é, sem dúvida, o texto de Rm 1:26-27. E, novamente aqui, percebe-se um erro de leitura grande que favorece apenas a discriminação contra essas pessoas. Quando prestamos atenção ao texto amplo de Rm 1.18-29, percebemos que o tema em questão é o problema da idolatria. Os versículos 26 e 27 fazem parte dessa argumentação paulina maior e isso se evidencia pelo início do versículo 26, com a expressão “por isso” ou “pelo que”, que remete ao contexto anterior imediato.
O versículo 26 trata de mulheres que “mudaram as relações naturais por relações contra a natureza”, o que no contexto do paulino não tem nada a ver com a homossexualidade em si, mas é uma citação direta ao texto de Lv 18:22 (já analisado por nós) e remete à prostituição sagrada praticada nas religiões pagãs, prática comum também em Roma e todo o império romano. Ou seja, Paulo está se referindo exatamente aos cultos com prostituição cultual, como os citados no Antigo Testamento (Lv 18:22; 19:29; 20:13; Dt 23:17).
No versículo 27 Paulo utiliza o verbo grego “katerrgotzumai”, que pode ser traduzido por “cometer”, mas dando a ideia específica de “esforço para realizar algo”, ou seja, fazer algo que não é comum para a pessoa, que exige dela um esforço. Segundo o comentário da Bíblia de Oxford:
Apesar de amplamente lido hoje como uma referência à homossexualidade, a linguagem de relação não-natural era mais comumente utilizada nos dias de Paulo para denotar não a orientação do desejo sexual, mas sua indulgência imoderada, a qual se acreditava enfraquecer o corpo[1]. (OXFORD ANNOTATED BIBLE 2007 p. 1978)
Neste contexto, o primeiro versículo do capítulo 2 de Rm é interessante, pois Paulo afirma que os judeus estariam praticando todas essas mesmas coisas que condenavam nos gentios.
O último texto que trazemos é 1Cor 6:9-10. Os termos utilizados por Paulo são interessantes. Paulo utiliza a princícipio o termo akidos: ímpio, injusto, mau, iníquo, para qualificar de modo geral todos os que ele citará na sequência em seu catálogo de vícios. Então, entre outros, vem o termo malakoi, que significa literalmente “fino”, como em “roupas finas” (Mt 11:8; Lc 7:25), e macio ao toque. A tradução de João Ferreira de Almeida traduz o termo “malakoi” por “efeminados”, no entanto a Bíblia de Jerusalém o traduz por “depravados”, e na tradução de Lutero esse mesmo termo é traduzido por “moralmente fraco”.
Na sequência imediata, Paulo utiliza o termo Arsenokoitai, que a tradução de João Ferreira traduz por “homossexuais”, mas a Bíblia de Jerusalém traduz por “pessoas de costumes infames”. O significado exato do termo Arsenokoitai (arseno = macho; koitai = cama) é desconhecido e não permite uma tradução pela aglutinação simples de palavras. O mais complicado é o fato de que tal expressão só aparece na Bíblia, e apenas duas vezes. Além da carta aos Coríntios, a segunda é em Tm 1:10, de forma que o termo é quase um hápax legómenon (um termo que aparece apenas uma vez em textos antigos). A ausência de referências para comparação do termo torna a sua tradução correta praticamente impossível. Alguns exegetas trabalham com a possibilidade de tal termo ser um neologismo paulino que pode estar ligado à prostituição cultual, em uma tentativa de traduzir para o grego a expressão de Lv 18:22 e 20,13. O comentário da Bíblia de Oxford acredita que as duas palavras juntas, malakoi e arsenokoitai, refiram-se à prática cultural grega da pederastia.
O que fica claro para nós, depois desta pequena análise exegética dos textos bíblicos, é que esses textos são utilizados para discriminação contra pessoas homossexuais por uma questão de preconceito, pois não tratam de relacionamentos humanos fundamentados no amor mútuo, mas sim de práticas rituais ocorridas exclusivamente dentro de rituais pagãos de fertilidade e percebidas nesse contexto de idolatria. Como a Bíblia é a nossa regra de fé e prática, e ela não dá margem para condenar o relacionamento homoafetivo, fica difícil sustentar qualquer tipo de posicionamento eclesial contra a plena inclusão dessas pessoas. Desse modo, propomos que a Igreja Metodista promulgue o pleno acolhimento de pessoas homossexuais no exercício de seus dons e ministérios da igreja.
PROPOSTA FORMULADA POR FABIANO VELIQ E VALESCA ATHAYDE – MEMBROS LEIGOS DA Igreja Metodista Izabela Hendrix – Proposta inspirada pela proposta apresentada pelos clérigos Pedro Nolasco Camargo Guimarães e Eliad Dias dos Santos da IIIRE
Fabiano Veliq é Filósofo formado pela UFMG, Especialista em Teologia pela Faculdade Batista de Belo Horizonte. Mestre em Filosofia pela FAJE. Doutor em Psicanálise pela PUC Minas. Doutorando em Filosofia pela UFMG. Psicanalista formado pela Escola Freudiana de Belo Horizonte.
Valesca Athayde é Bacharel em Direito pelo Instituto Metodista Granbery. Mestre em Direitos humanos pela FUMEC. Advogada. Professora de Inglês na Obra Social São José Operário - SEIAS, graduanda de Pedagogia na UEMG, graduanda de Letras no Claretiano - MG
Controle do Processual da sugestão recebida:
Examinada pela delegação em ___/___/2020
( ) Recusada pela delegação
( ) Encaminhada para Sede Nacional em __/___2020.
Visto: _________________
Examinada pelo Colégio Episcopal em ___/___/2020
Encaminhamento dado pelo Colégio Episcopal
_______________________
( ) Incluída no Caderno Único
Outra situação:
Nº. _________ (Atribuído p/ Secretaria Executiva)
[1] Original em inglês: Although widely read today as a reference to homosexuality, the language of unnatural intercourse was more often used in Paul’s day to denote not the orientation of sexual desire but its immoderate indulgence, which was believed to weaken the body. (Tradução nossa)

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Abaixo-assinado criado em 14 de julho de 2020