Em defesa da Mancha dos Bombeiros

O problema

Os abaixo-assinados, cidadãos paulistanos, solicitam à Prefeitura Municipal de São Paulo imediatas providências para proteção da “Mancha dos Bombeiros” (território delimitado pelas Ruas Tutóia, Leme, Álvaro de Meneses, pelo quartel do 8º Batalhão da Polícia do Exército e pela Avenida Brigadeiro Luís Antônio, até uma vila sem denominação localizada no número 3.193, inclusive, e sua projeção ideal até o fechamento do polígono). O território é contíguo ao vértice norte da antiga “Invernada dos Bombeiros”, área que congrega hoje o Complexo Desportivo Constâncio Vaz Guimarães, a Assembleia Legislativa, o Comando do Sudeste e o 8º Batalhão da Polícia do Exército (cujo processo de tombamento foi instaurado recentemente, nos termos da Resolução CONPRESP 06/2023).

Este pequeno território, no miolo do bairro do Paraíso, contém oito vilas e travessas, densamente ocupadas por casas geminadas, a maioria edificada entre as décadas de 30/60, para renda com aluguel. Por sua ambiência peculiar, o território preserva uma forma de ser/estar na cidade “como de antigamente”, prestando testemunho vivo da história. Seu conjunto arquitetônico e traçado urbano, até hoje bem preservados, não são meros ecos do passado, desconectados da vida dos atuais moradores. Muito pelo contrário: esse patrimônio material emoldura um quadro social vívido, onde uma população diversificada convive e frui coletivamente do espaço público de uma forma muito diferente da esterilidade das relações humanas que se vê nas porções mais verticalizadas da cidade.

De forma – ainda – não fragmentada, referido território alberga bens que, a par de seu excepcional interesse estético e histórico, dão testemunho das mudanças na arquitetura e urbanização da cidade de São Paulo, bem como da evolução da forma de divisão do trabalho entre proprietários, investidores, desenvolvedores, incorporadores, arquitetos, projetistas e construtores: 

(1) “Conjunto Almirantes” (Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 3185). Edifício habitacional vertical constituído por duas lâminas curvas, construído na década de 1960. Foi um dos primeiros projetos do arquiteto JAIME LERNER (1934/2021) e do construtor ADOLPHO LINDENBERG. Raro representante em São Paulo da obra do arquiteto e urbanista paranaense, cujo recente passamento dá ensejo a merecido reconhecimento póstumo.

(2) “Vila Calabi” (Rua Oswaldo Moreira Pompeo). Projeto de habitação coletiva, composto por 16 casas geminadas de par em par, arrematada em cul-de-sac, de autoria do arquiteto judeu-italiano DANIELE CALABI (1906-1964), profissional com importante e pioneira atuação modernista tanto na Itália quanto no Brasil, e construído em 1942 pela CONSTRUTORA O. MATARAZZO & CO..

(3) “Vila Liscio” (Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 3005). Conjunto de sobrados de estilo eclético moderado, projetados e construídos pelo “arquiteto não diplomado” AUGUSTO BERNADELLI MARCHESINI em 1934 (autor do já tombado Teatro São Pedro), por conta e ordem do empresário italiano LUIZ LISCIO, proprietário das Indústrias Cama Patente L. Liscio S/A, fábrica moveleira que revolucionou a técnica, a produção, a distribuição e o consumo de bens industrializados no Brasil.

(4) “Casa Moya & Malfatti” (Rua dos Bombeiros, 50). Remanescente de par de sobrados geminados em estilo normando, projetados e construídos em 1941 por ANTONIO GARCIA MOYA, único representante da arquitetura na Semana de Arte Moderna de 1922. 

(5) Casa do Oswald de Andrade (Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 3085). Sobrado construído na década de 1930, único do conjunto de quatro casas geminadas com fachada original bem preservada e estrutura reforçada, onde morou o escritor modernista.

A Mancha dos Bombeiros encontra-se atualmente sob risco iminente de destruição. O agressivo e acelerado processo de verticalização/gentrificação já resultou na recente demolição de diversos imóveis. Causa espécie o fato das demolições estarem sendo executadas antes de decisão fundamentada da Prefeitura Municipal de São Paulo.

Por essas razões, tendo em vista a verossimilhança do alegado e o perigo da demora, confiamos na sensibilidade e diligência do Departamento de Proteção Histórica em conferir prioridade na análise do Pedido de Tombamento, bem como adotar medidas administrativas cabíveis para prevenir a destruição da Mancha dos Bombeiros, o que causará danos irreversíveis à preservação do patrimônio histórico, estético, arquitetônico e urbanístico dos cidadãos paulistanos.

Referências: Pedidos de Alvará de Demolição 2022-0.033.321-4; 2022-0.033.253-6; 2022-0.033.230-7; 2022-0.034.572-7; 2022-0.034.569-7; 2022-0.034.573-5; 2022-0.033.252-8; 2022-0.033.359-1; 2022-0.033.244-7; 2022-0.033.246-3; 2022-0.033.247-1; 2022-0.033.254-4; 2022-0.033.280-3; 2022-0.033.278-1; 2022-0.033.283-8; 2022-0.033.284-6; 2022-0.033.279-0; 2023-0.000.382-8;  2023-0.000.389-5; 2023-0.000.381-0; 2023-0.000.383-6; 2023-0.000.390-9 (todos ainda sem decisão administrativa) e processo 6025.2023/0003905-2 (tombamento provisório determinado pela Resolução CONPRESP 07/2023).

São Paulo, abril/maio de 2023.

Donatella Calabi, Professora de História da Cidade da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Veneza e Presidente da “European Association of Urban Historians”.

Fabio Konder Comparato, Professor emérito da FD/USP;

Marta Dora Grostein, Professora Titular aposentada da FAU/USP 

Raquel Rolnik, Professora Titular da FAU/USP

Nabil Bonduki, Professor Titular da FAU/USP

Regina Prosperi Meyer, Professora Titular FAU/USP, foi Diretora do DPH.

Ana Elísia da Costa, Professora da Faculdade de Arquitetura da UFRS.

Bianca Tavolari, Professora do Núcleo de Questões Urbanas do Insper.

Luís Fernando Massonetto, Professor de Direito Urbanístico da FD/USP

Elena Svalduz, professora História da Arquitetura da Univ. Pádova.

Ana Cláudia Castilho Barone, docente da FAU/USP.

Luciana de Oliveira Royer, Professora da FAU/USP

Fábio Mariz Gonçalves, Professor da FAU/USP

Luciana R. Fagnoni C. Travassos, Docente de Plan. Territorial da UFABC.

Lucila Lacreta, arq. e urbanista, diretora do Movimento Defenda São Paulo.

Célia Marcondes Smith, presidente Associação Moradores Cerq. César.

Augusto Aneas, arquiteto, urbanista e ativista cultural.

Eliana M. B. Menezes, Associação de Moradores de Vila Mariana.

Diogo Coutinho, Professor de Direito e Desenvolvimento da FD/USP

Mariana Levy, docente da FD/UNB, Comissão de Direito Urbanístico OAB.

Andrea Sandro Calabi, ex-secretário do Planejamento de São Paulo.

Maria Victoria Benevides, Professora Emérita Fac. Educação da USP.

Renato Seixas, professor aposentado de Estética e História da Arte da USP.

Arthur Sanchez Badin, ex-presidente Fundo de Direitos Difusos e CADE.

Alessandro Hirata, Professor Titular de História do Direito da USP.

Maria Paula Bertran, Professora da FD/USP (Ribeirão Preto).

Ana Maria Wilheim, socióloga e antropóloga, Movimento ProPinheiros.

Davi Tangerino, Professor de Direito da FGV/SP e UERJ.

Luiz Armando Badin, foi Secretário Nacional de Assuntos Legislativos.

Ricardo Rinaldelli, Engenheiro Civil USP, atuação na SEHAB, CDHU e CEF.

Francesca Calabi, professora de História da Filosofia da Univ. de Pavia.

Gianantonio Trimarchi, membro da Psicoanalisi Critica Milano.

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ARTHUR BADINCriador do abaixo-assinado

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O problema

Os abaixo-assinados, cidadãos paulistanos, solicitam à Prefeitura Municipal de São Paulo imediatas providências para proteção da “Mancha dos Bombeiros” (território delimitado pelas Ruas Tutóia, Leme, Álvaro de Meneses, pelo quartel do 8º Batalhão da Polícia do Exército e pela Avenida Brigadeiro Luís Antônio, até uma vila sem denominação localizada no número 3.193, inclusive, e sua projeção ideal até o fechamento do polígono). O território é contíguo ao vértice norte da antiga “Invernada dos Bombeiros”, área que congrega hoje o Complexo Desportivo Constâncio Vaz Guimarães, a Assembleia Legislativa, o Comando do Sudeste e o 8º Batalhão da Polícia do Exército (cujo processo de tombamento foi instaurado recentemente, nos termos da Resolução CONPRESP 06/2023).

Este pequeno território, no miolo do bairro do Paraíso, contém oito vilas e travessas, densamente ocupadas por casas geminadas, a maioria edificada entre as décadas de 30/60, para renda com aluguel. Por sua ambiência peculiar, o território preserva uma forma de ser/estar na cidade “como de antigamente”, prestando testemunho vivo da história. Seu conjunto arquitetônico e traçado urbano, até hoje bem preservados, não são meros ecos do passado, desconectados da vida dos atuais moradores. Muito pelo contrário: esse patrimônio material emoldura um quadro social vívido, onde uma população diversificada convive e frui coletivamente do espaço público de uma forma muito diferente da esterilidade das relações humanas que se vê nas porções mais verticalizadas da cidade.

De forma – ainda – não fragmentada, referido território alberga bens que, a par de seu excepcional interesse estético e histórico, dão testemunho das mudanças na arquitetura e urbanização da cidade de São Paulo, bem como da evolução da forma de divisão do trabalho entre proprietários, investidores, desenvolvedores, incorporadores, arquitetos, projetistas e construtores: 

(1) “Conjunto Almirantes” (Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 3185). Edifício habitacional vertical constituído por duas lâminas curvas, construído na década de 1960. Foi um dos primeiros projetos do arquiteto JAIME LERNER (1934/2021) e do construtor ADOLPHO LINDENBERG. Raro representante em São Paulo da obra do arquiteto e urbanista paranaense, cujo recente passamento dá ensejo a merecido reconhecimento póstumo.

(2) “Vila Calabi” (Rua Oswaldo Moreira Pompeo). Projeto de habitação coletiva, composto por 16 casas geminadas de par em par, arrematada em cul-de-sac, de autoria do arquiteto judeu-italiano DANIELE CALABI (1906-1964), profissional com importante e pioneira atuação modernista tanto na Itália quanto no Brasil, e construído em 1942 pela CONSTRUTORA O. MATARAZZO & CO..

(3) “Vila Liscio” (Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 3005). Conjunto de sobrados de estilo eclético moderado, projetados e construídos pelo “arquiteto não diplomado” AUGUSTO BERNADELLI MARCHESINI em 1934 (autor do já tombado Teatro São Pedro), por conta e ordem do empresário italiano LUIZ LISCIO, proprietário das Indústrias Cama Patente L. Liscio S/A, fábrica moveleira que revolucionou a técnica, a produção, a distribuição e o consumo de bens industrializados no Brasil.

(4) “Casa Moya & Malfatti” (Rua dos Bombeiros, 50). Remanescente de par de sobrados geminados em estilo normando, projetados e construídos em 1941 por ANTONIO GARCIA MOYA, único representante da arquitetura na Semana de Arte Moderna de 1922. 

(5) Casa do Oswald de Andrade (Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 3085). Sobrado construído na década de 1930, único do conjunto de quatro casas geminadas com fachada original bem preservada e estrutura reforçada, onde morou o escritor modernista.

A Mancha dos Bombeiros encontra-se atualmente sob risco iminente de destruição. O agressivo e acelerado processo de verticalização/gentrificação já resultou na recente demolição de diversos imóveis. Causa espécie o fato das demolições estarem sendo executadas antes de decisão fundamentada da Prefeitura Municipal de São Paulo.

Por essas razões, tendo em vista a verossimilhança do alegado e o perigo da demora, confiamos na sensibilidade e diligência do Departamento de Proteção Histórica em conferir prioridade na análise do Pedido de Tombamento, bem como adotar medidas administrativas cabíveis para prevenir a destruição da Mancha dos Bombeiros, o que causará danos irreversíveis à preservação do patrimônio histórico, estético, arquitetônico e urbanístico dos cidadãos paulistanos.

Referências: Pedidos de Alvará de Demolição 2022-0.033.321-4; 2022-0.033.253-6; 2022-0.033.230-7; 2022-0.034.572-7; 2022-0.034.569-7; 2022-0.034.573-5; 2022-0.033.252-8; 2022-0.033.359-1; 2022-0.033.244-7; 2022-0.033.246-3; 2022-0.033.247-1; 2022-0.033.254-4; 2022-0.033.280-3; 2022-0.033.278-1; 2022-0.033.283-8; 2022-0.033.284-6; 2022-0.033.279-0; 2023-0.000.382-8;  2023-0.000.389-5; 2023-0.000.381-0; 2023-0.000.383-6; 2023-0.000.390-9 (todos ainda sem decisão administrativa) e processo 6025.2023/0003905-2 (tombamento provisório determinado pela Resolução CONPRESP 07/2023).

São Paulo, abril/maio de 2023.

Donatella Calabi, Professora de História da Cidade da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Veneza e Presidente da “European Association of Urban Historians”.

Fabio Konder Comparato, Professor emérito da FD/USP;

Marta Dora Grostein, Professora Titular aposentada da FAU/USP 

Raquel Rolnik, Professora Titular da FAU/USP

Nabil Bonduki, Professor Titular da FAU/USP

Regina Prosperi Meyer, Professora Titular FAU/USP, foi Diretora do DPH.

Ana Elísia da Costa, Professora da Faculdade de Arquitetura da UFRS.

Bianca Tavolari, Professora do Núcleo de Questões Urbanas do Insper.

Luís Fernando Massonetto, Professor de Direito Urbanístico da FD/USP

Elena Svalduz, professora História da Arquitetura da Univ. Pádova.

Ana Cláudia Castilho Barone, docente da FAU/USP.

Luciana de Oliveira Royer, Professora da FAU/USP

Fábio Mariz Gonçalves, Professor da FAU/USP

Luciana R. Fagnoni C. Travassos, Docente de Plan. Territorial da UFABC.

Lucila Lacreta, arq. e urbanista, diretora do Movimento Defenda São Paulo.

Célia Marcondes Smith, presidente Associação Moradores Cerq. César.

Augusto Aneas, arquiteto, urbanista e ativista cultural.

Eliana M. B. Menezes, Associação de Moradores de Vila Mariana.

Diogo Coutinho, Professor de Direito e Desenvolvimento da FD/USP

Mariana Levy, docente da FD/UNB, Comissão de Direito Urbanístico OAB.

Andrea Sandro Calabi, ex-secretário do Planejamento de São Paulo.

Maria Victoria Benevides, Professora Emérita Fac. Educação da USP.

Renato Seixas, professor aposentado de Estética e História da Arte da USP.

Arthur Sanchez Badin, ex-presidente Fundo de Direitos Difusos e CADE.

Alessandro Hirata, Professor Titular de História do Direito da USP.

Maria Paula Bertran, Professora da FD/USP (Ribeirão Preto).

Ana Maria Wilheim, socióloga e antropóloga, Movimento ProPinheiros.

Davi Tangerino, Professor de Direito da FGV/SP e UERJ.

Luiz Armando Badin, foi Secretário Nacional de Assuntos Legislativos.

Ricardo Rinaldelli, Engenheiro Civil USP, atuação na SEHAB, CDHU e CEF.

Francesca Calabi, professora de História da Filosofia da Univ. de Pavia.

Gianantonio Trimarchi, membro da Psicoanalisi Critica Milano.

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ARTHUR BADINCriador do abaixo-assinado
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Os tomadores de decisão

Mariana da Silva Sato
Mariana da Silva Sato
Secretaria-executiva do Conpresp
ADRIANO NONATO ROSETTI
ADRIANO NONATO ROSETTI
Conselheiro do Conpresp
GISELLE FLORES ARROJO PIRES
GISELLE FLORES ARROJO PIRES
Conselheira do Conpresp
LUIZA MEUCHI DE OLIVEIRA
LUIZA MEUCHI DE OLIVEIRA
Conselheira do Conpresp
GRACE LAINE PINCERATO CARREIRA DINI
GRACE LAINE PINCERATO CARREIRA DINI
Conselheira do Conpresp
Atualizações do abaixo-assinado

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Abaixo-assinado criado em 16 de maio de 2023