O criacionismo não pode ser motivo de nenhuma discussão científica

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menos medo. MAIS CIÊNCIA

Carta escrita por Gustavo Caponi, assinada por diversos docentes da UFSC

Que todas as formas vivas, atuais e extintas, descendem de organismos primordiais, a partir dos quais evoluíram, é um fato solidamente estabelecido cujo reconhecimento não é objeto, ou motivo, de qualquer controvérsia no campo da Biologia moderna. É um fato indiscutido e, no final das contas, inquestionável: não há nenhuma razão cientificamente atendível, seja de ordem empírica ou teórica, que possa servir de base ou de justificativa para eventual questionamento da teoria da evolução. Portanto, quem tente promover uma polêmica a esse respeito, postulando alguma alternativa que possa funcionar como contraponto à teoria da evolução, está assumindo uma posição que não tem nenhum embasamento científico. Uma posição cuja motivação e razão de ser só pode estar fora da ciência e que está desprovida de toda pertinência científica. Como acontece em todos os domínios científicos, a Biologia se desenvolve seguindo uma agenda pautada por problemas e dificuldades a serem resolvidos: uma agenda que se orienta por questões que ainda não foram respondidas. É o caso, por exemplo, das questões que podem ser formuladas quanto ao peso que os diferentes mecanismos envolvidos nos processos evolutivos podem ter; e esse é também o caso das questões levantadas pela reconstrução e explicação de processos evolutivos particulares, como os que poderiam levar ao surgimento de certas espécies ou de certas estruturas biológicas. De fato, a espantosa diversidade taxonômica da vida, e a não menos espantosa disparidade morfológica a ela associada, é de uma magnitude tal que faz impensável o esgotamento dessa agenda de pesquisa. Sempre haverá processos evolutivos, e formas biológicas resultantes desses processos, esperando por uma explicação. Todavia, em todos os casos, o que é pressuposto nessas questões, e deve ser pressuposto em todas as respostas alternativas, é o próprio fato da evolução. As perguntas do tipo ‘como a teoria da evolução explica que…?”, só podem ser respondidas evolutivamente: cientificamente, sem nunca fugirmos do domínio da ciência. E aqui é oportuno lembrarmos que as regras mais fundamentais do método científico exigem que quaisquer que sejam as respostas dadas às questões científicas, essas respostas nunca poderão apelar para variáveis que sejam inescrutáveis para a própria ciência. Variáveis cujos estados e determinantes sejam inacessíveis ao conhecimento científico jamais podem ser citadas como explicação de qualquer fenômeno ou processo estudado pela ciência; e é isso que acontece com o recurso ao ‘deus criador’, ou ao ‘projetista inteligente’ que é patrocinado pelos criacionistas. Qualquer que seja o nome que damos a este agente supostamente criativo, ele está, por definição, fora do alcance do conhecimento científico; e é por isso que esse criador ou desenhista não pode ser assunto de qualquer pesquisa ou controvérsia científica. Portanto, quem apela para uma explicação dos processos naturais que postule esse tipo de entidades, está sumariamente auto-excluído de qualquer controvérsia científica e não pode pretender ser admitido e ouvido nessas controvérsias. Por outro lado, se os promotores de tais ideias estivessem genuinamente interessados em controvérsias científicas, eles poderiam ter visto reconhecido que as supostas dificuldades para as quais o Design Inteligente forneceriam respostas já haviam sido resolvidas no Século XIX; e isto dentro de uma perspectiva e estritamente científica (de fato, decididamente darwiniana). Neste sentido, o fato de a presidência da Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (CAPES) ter sido concedida a alguém que já se manifestou publicamente a favor da aceitação do criacionismo como contraponto ao evolucionismo, deve nos colocar em alerta. Toda a comunidade científica brasileira deve estar atenta e vigilante para denunciar e se opor, com rigor e firmeza, a qualquer tentativa de mobilização de recursos públicos, que devem ser destinados à pesquisa e à educação científica, para com eles promover e legitimar posições anticientíficas ou pseudocientíficas. O pluralismo teórico deve ser bem-vindo na ciência; porque estimula as controvérsias que promovem o progresso científico. Mas esse pluralismo nunca deve ser confundido com a admissão de posições cuja condição de possibilidade está na ignorância do andamento das próprias controvérsias científicas e também na desconsideração (ou simples desconhecimento) de argumentos já dados e de fatos já estabelecidos. E esse é o caso das posições criacionistas que alguns retrógrados obscurantistas ainda pretendem opor ao evolucionismo. Por isso, admitir essas posições no espaço próprio das controvérsias científicas é tão errado e pernicioso quanto tolerar posições antidemocráticas dentro da própria democracia; e é para alertar para os riscos e para evitar esse erro que nós, docentes da UFSC, fazemos este chamado à atenção que está dirigido a todos aqueles interessados na consolidação e progresso da cultura científica no Brasil. Se o novo presidente da CAPES tiver convicções contrárias à ciência, elas não devem se manifestar, de jeito nenhum, nas políticas, projetos, chamadas e atividades promovidas por esse organismo do Estado Brasileiro; que, conforme estabelece a constituição, é absolutamente laico. Destaca-se que em seu artigo Art. 218 a constituição nacional reafirma que é dever do Estado promover e incentivar o desenvolvimento científico, a pesquisa, a capacitação científica e tecnológica e a inovação. Qualquer ação que desvie recursos e esforços para ações relacionadas ao criacionismo contraria o texto constitucional.