CARTA ABERTA DE URGÊNCIA PELA SALVAGUARDA DA CAPELA MAGDALENA

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O problema

LUGAR DE MEMÓRIA DE ROBERTO DE REGINA, DO CRAVO E DA MÚSICA RENASCENTISTA E BARROCA 

Às autoridades públicas de cultura e patrimônio material e imaterial,
ao Instituto Estadual do Patrimônio Cultural — INEPAC,

ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional — IPHAN,

ao Ministério Público,
à comunidade artística e cultural,

 

Em Guaratiba, Roberto De Regina construiu mais do que uma casa: construiu um mundo. A Capela Magdalena é obra-lugar: pintura mural, sala de escuta, memória viva e testemunho de uma existência dedicada ao cravo, à música renascentista e barroca e à formação de plateias.

Roberto foi cravista, regente, luthier, professor, formador de músicos e criador de caminhos. A UFRJ concedeu-lhe, em 2025, o título de Doutor Honoris Causa. A Academia Brasileira de Letras o chamou de “imortal do cravo brasileiro” e “cravista virtuoso e original”. A Revista Concerto definiu sua vida e obra como “um marco incontornável da história da música brasileira”.

Marcelo Fagerlande, professor titular da Escola de Música da UFRJ, cravista, aluno de Roberto desde os 10 anos e depois amigo por mais de cinquenta anos, afirmou:

“Se hoje é possível oferecer a jovens brasileiros uma formação universitária no instrumento que ele tanto defendeu e que brilhantemente divulgou, é porque plantou muitas sementes.”

Marcelo Jardim afirmou: “Roberto é uma pessoa que realmente se dedicou à profissão. Foi um construtor de vidas.” Maria Clara Amado Martins lembrou que Roberto é “referência para todas as gerações, do passado, do presente e do futuro”. Cássia Turci associou seu reconhecimento à construção de uma sociedade “mais humana, mais justa, mais amorosa”. E Roberto Medronho declarou: “Para muitas personalidades, a outorga de um título honorífico é honra muito mais para a instituição do que para o próprio homenageado. Roberto de Regina é um deles.”

Fagerlande lembrou que Roberto sonhava criar em Guaratiba uma escola de cravo, ou centro cultural. A Capela cumpriu essa vocação com recitais, concertos didáticos, jovens cravistas e formação de plateias. Sobre ela, escreveu:

“A Capela Magdalena provocou uma nova relação do público carioca com o cravo e seu repertório.”

Rosana Lanzelotte recorda ter descoberto Johann Sebastian Bach por meio de gravação em que Roberto acompanhava Alberto Jaffé ao piano; lembra que sua arte “ia muito além do teclado”; destaca que ele foi o construtor de seu primeiro cravo; e afirma que Roberto desvendou repertórios renascentistas e barrocos para “legiões de crianças e jovens” na Capela. E resume:

“Pintada por suas próprias mãos, a capela permanece como testemunho precioso da arte desse grande intérprete — um verdadeiro mago da música.”

Myrna Herzog reconhece em Roberto a mesma dimensão rara:

“Roberto de Regina foi a encarnação moderna do artista renascentista. Politalentoso, conferia a tudo o que tocava uma dimensão artística incomum. Como músico, foi o meu muso inspirador — e nesta qualidade, a ele dedicamos, Giomar Sthel e eu, o nosso álbum Couperin.”

Fagerlande registrou que as características de “homem renascentista” de Roberto ficavam claras naquele espaço: ele decorou instrumentos de sua manufatura, pintou os afrescos da Capela e criou, no museu contíguo, maquetes de catedrais, castelos, palácios e templos.

Laura Rónai escreveu que Roberto De Regina entendeu que olhar para a música do passado “não era grilhão, mas sim carta de alforria”.

Em 1968, Eurico Nogueira França escreveu que Roberto De Regina, “médico e músico”, cumpria “uma verdadeira revolução musical em nosso meio”. E explicou que, ao construir cravos e virginais, imprimia “o vivo selo de autenticidade” a uma criação musical que chegava até Bach.

A Prefeitura de Curitiba chamou Roberto de uma das figuras mais singulares e inspiradoras da música brasileira. Eduardo Pimentel afirmou que Roberto se tornou “um verdadeiro patrimônio cultural de Curitiba”. Marino Galvão Júnior declarou que “Roberto de Regina foi um artista da Renascença” e que, ao fundar a Camerata Antiqua, ajudou a transformar Curitiba em um dos polos da música de concerto no Brasil. Ingrid Seraphim falou de uma convivência marcada por paixão intensa pela música, carinho, amizade e admiração. Janete Andrade afirmou que Roberto deixa “um legado que vai além das partituras” e “uma forma de pensar e viver a arte por inteiro, com beleza e generosidade”.

Após a morte de Roberto, o sítio onde está a Capela mudou de mãos. Também nos foi informado que parte dos acervos móveis já teve destinação: o cravo foi doado à Camerata Antiqua de Curitiba; miniaturas foram encaminhadas à Petrobras; maquetes de igrejas, templos e arquiteturas históricas teriam sido destinadas a outro espaço; e LPs, DVDs, registros e figurinos encontram-se assegurados.

Essas informações deverão ser documentadas. Mas o ponto central é claro: o que permanece em risco direto, imediato e irreparável é a própria Capela Magdalena — seus murais, afrescos, pinturas, ambiência, silêncio e integridade como obra-lugar.

Até onde é de conhecimento público, não há notícia de cláusula de preservação, inventário técnico, tombamento, registro, termo de salvaguarda, compromisso patrimonial ou plano de continuidade cultural para a Capela Magdalena.

Luiz Eduardo Ozório, diretor do documentário O Cravista, conviveu durante anos com Roberto durante a pesquisa e as filmagens:

“Há artistas que deixam obras. Roberto deixou um mundo. Ao filmar Roberto De Regina, compreendi que a Capela Magdalena não era apenas cenário. Ela era personagem, arquivo vivo e extensão física da alma artística de Roberto.”

O próprio Roberto, em fala publicada no Jornal do Brasil e lembrada por Marcelo Fagerlande, dizia:

“O cravo exige um ambiente de silêncio. As pessoas que o tocam e ouvem, tiram prazer muito maior quanto o fazem num local retirado e silencioso. Pois, se durante o dia ele quase não existe, ainda porque se funde com os ruídos, à noite cresce de maneira a quase parecer uma orquestra.”

A Capela Magdalena foi esse ambiente. Descaracterizá-la seria romper esse silêncio.

Pede-se prudência: que nada seja alterado antes que a Capela seja vista, descrita, fotografada, estudada e avaliada por especialistas.

Solicitamos, em caráter de urgência: vistoria técnica imediata; inventário emergencial dos murais, afrescos, pinturas, elementos fixos, ambiência e estado de conservação; avaliação para tombamento, registro, inventário, reconhecimento como lugar de memória ou outra forma de acautelamento; notificação preventiva ao atual proprietário para impedir demolição, reforma, pintura, cobertura de murais, remoção de elementos fixos, descaracterização ou mudança de uso antes da avaliação dos órgãos competentes; e documentação integral.

A Capela Magdalena pertence juridicamente a um imóvel privado, mas sua memória ultrapassa os limites da propriedade. Preservá-la é impedir que uma parte insubstituível da cultura brasileira desapareça antes de ser reconhecida.

 


Rio de Janeiro,  02 de Julho de 2026.

 

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Luiz Eduardo OzórioCriador do abaixo-assinadoLuiz Eduardo Ozório escreveu e dirigiu “O Cravista”, longa-metragem documental sobre Roberto De Regina, sua trajetória artística e seu legado para a música antiga no Brasil, incluindo a história da Capela Magdalena, em Guaratiba.

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