CARTA ABERTA DOS CIENTISTAS AMBIENTAIS À SOCIEDADE BRASILEIRA

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O problema

Nós, Cientistas Ambientais e Socioambientais do Brasil, manifestamos nossa preocupação com a possibilidade de enfraquecimento da governança ambiental brasileira e da capacidade do Estado de prevenir desastres, proteger os ecossistemas e enfrentar as mudanças climáticas. As propostas, falas e ações do candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro, enquanto ainda senador, revelam intenções incompatíveis com as evidências científicas amplamente consolidadas e com os compromissos fundamentados na ciência para enfrentamento dos desafios socioambientais do século XXI. Entre elas,  a  modificação das atribuições de instituições como  Ibama, ICMBio e Funai [2], que, somadas à aprovação automática de licenças ambientais [3] e à ausência de compromissos climáticos detalhados, reduzem a capacidade de prevenção e fiscalização do poder público. Também nos preocupa a falta de garantias claras para a continuidade de políticas ambientais baseadas em evidências científicas, transparência e autonomia técnica das instituições.

As decisões sobre o meio ambiente afetam diretamente a qualidade da água que consumimos, os alimentos que chegam à mesa, a saúde da população, a segurança nas cidades e as condições de vida e trabalho. Por isso, as políticas ambientais devem ocupar um lugar central no debate sobre o futuro do Brasil. Em referência ao governo anterior do pai do candidato, Jair Bolsonaro (2019-2022), caso a extrema direita reassuma o poder executivo, tememos um enfraquecimento ainda maior da política de prevenção a desastres ambientais, das políticas de combate à fome, aumento da insegurança hídrica, aumento do desmatamento, aumento da emissão de gases de efeito estufa, dentre uma série de outros riscos que prejudicam diretamente a vida dos brasileiros.

No cenário de eleição do candidato Flávio Bolsonaro para o executivo poderemos, dentro de poucos anos, observar:

I - Comida mais cara: O abandono das políticas de combate às mudanças climáticas, à degradação ambiental e à falta de água prejudicará a capacidade de cultivo e poderá elevar o preço dos alimentos [4]. Estudos detalham a relação entre mudanças climáticas e a queda na produtividade agrícola [4], com aumentos de até 32% nos preços devido a secas [5].

II - Menos água: Florestas compõem um eixo fundamental da segurança hídrica [6]. A falta de fiscalização pode levar a mais desmatamento, reduzindo a água para beber, plantar e gerar energia. Cerca de metade da chuva da Amazônia é reciclada pela transpiração da própria floresta, e estudos mostram que as florestas contribuem com aproximadamente 300mm de chuva localmente [7].

III - Mais crimes ambientais: Grilagem, garimpo e extração ilegal de madeira ameaçam a Amazônia Legal, a biodiversidade e a segurança das comunidades. Estudos da Fiocruz encontraram contaminação por mercúrio em quase toda a população de nove aldeias Yanomami [8].

IV - Mais desastres: Licenciamento ambiental facilitado e fiscalização fraca aumentam o risco de tragédias como em Mariana (2015), Brumadinho (2019) e Maceió (2018), no caso Braskem. Um artigo assinado por 32 cientistas alerta para o aumento desses riscos ao reduzir as regras de fiscalização [9].

V - Mais desigualdade: Povos indígenas, comunidades tradicionais, trabalhadores rurais e as periferias urbanas ficam mais expostos à contaminação, à perda de território e aos desastres [9]. Segundo o IBGE e o Cemaden, 8,3 milhões de pessoas viviam em áreas de risco de desastres em 872 municípios. Já o IPCC (2022) aponta que os efeitos das mudanças climáticas podem agravar as desigualdades [CIT].

VI - Prejuízos econômicos e sociais: Perdas de moradias, infraestrutura, renda e atividades produtivas.. Segundo a Confederação Nacional de Municípios, entre 2013 e 2022 5.199 dos 5.570 municípios (93%) sofreram prejuízos econômicos devido a desastres, com danos só em moradias passando de R$ 26 bilhões [10].

Questionado no Jornal Nacional, em 28 de agosto de 2026, sobre o aquecimento global, Flávio Bolsonaro afirmou que os eventos extremos (calor, chuvas e secas) seriam “efeitos cíclicos” e contestou a influência das atividades humanas nesses eventos [11]. A declaração contraria as evidências científicas reunidas pelo IPCC, que demonstram que a ação humana intensifica eventos climáticos extremos [12]. Em maio de 2024, durante debate no Senado sobre a tragédia no Rio Grande do Sul, Flávio chamou de “armadilha” a atribuição da ocorrência desses eventos  às mudanças climáticas [13]. Em 29 de agosto de 2026, em Angra dos Reis (RJ), ao defender mais turismo na cidade, prometeu: “Vamos destravar amarras ambientais e burocráticas” [14]. Como relator da PEC 3/2022, conhecida como PEC das Praias, apoiou uma proposta que previa transferir terrenos de marinha a ocupantes privados, estados e municípios, suscitando preocupações sobre o controle público dessas áreas e a proteção costeira [16]. A combinação dessas posições sinaliza planos de enfraquecer a prevenção ambiental, a fiscalização e a proteção de territórios fundamentais para a segurança hídrica, alimentar e climática do país.

Ainda, no contexto das terras raras, a aproximação de Flávio Bolsonaro com Donald Trump representa um alerta para a soberania brasileira, a proteção ambiental e o desenvolvimento científico. Durante a Conferência dos Partidos Conservadores que ocorreu em Março de 2026, no Texas, Flávio afirmou, em inglês,  que o Brasil seria “a solução para os Estados Unidos reduzirem a dependência da China em minerais críticos, especialmente terras raras” [17]. Em 26 de maio de 2026, segundo o próprio Flávio, ele e Trump se reuniram na Casa Branca e discutiram tarifas comerciais e [18] minerais estratégicos para tecnologias de energia, eletrônicos, defesa e equipamentos industriais. Essa aproximação ameaça subordinar interesses nacionais a objetivos políticos externos e aprofunda as relações de dependência tecnológica do Brasil ao exportar suas riquezas minerais sem garantir segurança territorial, desenvolvimento tecnológico, sustentabilidade e benefícios sociais no próprio território.

A política de Trump é marcada pelo retrocesso climático: os Estados Unidos se retiraram pela segunda vez do Acordo de Paris [20], o presidente chamou as mudanças climáticas de “a maior farsa já perpetrada no mundo” [21], centenas de funcionários da agência federal de clima e oceanos (NOAA) foram demitidos [22] e, em fevereiro de 2026, seu governo revogou a base regulatória que permitia limitar as emissões de gases de efeito estufa dos veículos [23].

Seguindo a linha de Trump, o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai do atual candidato, ameaçou retirar o Brasil do Acordo do Clima ainda durante sua  campanha, em 2018 [24]. Entre 2019 e 2022, seu governo entrou em conflito com instituições científicas e enfraqueceu a fiscalização ambiental. Os eventos apresentados cronologicamente a seguir resumem a agenda de desmontes direcionados à ciência e às instituições brasileiras promovidos durante seu governo:

Abril de 2019: Bloqueio de 30% das verbas discricionárias de universidades e institutos federais, medida revertida apenas em outubro daquele ano [25].

Agosto de 2019: Ricardo Galvão, então diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), foi exonerado após contestar publicamente as críticas de Jair Bolsonaro aos dados oficiais de desmatamento da Amazônia [26].

Agosto de 2019: Noruega e Alemanha suspenderam repasses ao Fundo Amazônia, depois que o Ministério do Meio Ambiente extinguiu o comitê que orientava o fundo [27].

Abril de 2020: Duas chefias da fiscalização do Ibama foram exoneradas após operações contra o garimpo ilegal em terras indígenas no Pará [28].

Abril de 2020: Em reunião ministerial, o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defendeu aproveitar a atenção pública voltada à pandemia para, em suas palavras,  “passar a boiada”, promovendo mudanças e afrouxamento das regras ambientais [29].

2019 a 2022: Novos cortes atingiram também a educação superior e a ciência: segundo o Observatório do Legislativo Brasileiro, da UERJ, o corte nas verbas da CAPES passou de 9% em 2019 para 28% em 2022, e as universidades federais tiveram 25% dos recursos cortados em 2022 [30].

2019 a 2022: Os números do desmatamento confirmam a gravidade do período: segundo o PRODES, do INPE, a taxa  de desmatamento média anual na Amazônia Legal foi 59,6% superior à média dos quatro anos anteriores [31].

Em contraste, em 2025,  com a alternância da chefia do executivo e a retomada de políticas de controle e fiscalização ambiental, o desmatamento caiu: foram registrados 5.796 km², a menor taxa em 11 anos [32].

Em uma recente declaração, em 6 de outubro de 2026, o candidato Flávio Bolsonaro afirmou pretender usar a força da nova composição do Congresso para mudar a Constituição e, em suas palavras, “redemocratizar” o país [37]. Com a maioria partidária no Congresso e no Senado, Flávio Bolsonaro poderá colocar em prática seu plano de governo e realizar cortes de até 200 bilhões de reais nos gastos públicos. Entendemos que, seguindo a linha de governo adotada por seu pai, o meio ambiente será o principal alvo, agravando a já frágil situação dos órgãos ambientais brasileiros.

Nós, Cientistas Ambientais e Socioambientais do Brasil, reunimos conhecimentos da Biologia, Química, Física, Geologia, Economia, Sociologia, Ciência Política, Direito e Antropologia para compreender as relações entre sociedade e natureza e contribuir para soluções baseadas em evidências científicas. É a partir dessa competência que alertamos: o risco de retrocessos ambientais, enfraquecimento da ciência e agravamento das mudanças climáticas é real e ameaça a saúde, a segurança alimentar, o trabalho e o bem-estar da população. Queremos um Brasil com mais empregos, comida acessível e oportunidades, e sabemos que isso exige ciência forte, instituições responsáveis e um meio ambiente saudável. Quem desconsidera as evidências científicas reduz a capacidade de prevenir riscos e  quem paga a conta é a população.

A quem votou em Flávio Bolsonaro no primeiro turno, mudar de escolha diante dos fatos é um gesto de coragem e responsabilidade. A quem não foi votar, pedimos que participe desta decisão. No dia 25 de outubro, vote contra o negacionismo e em defesa da vida, da ciência e do futuro do Brasil. Não anule seu voto, não se omita. A ciência e o meio ambiente estão em disputa, e o que está em jogo é a vida de todos nós.

Esta carta constitui uma manifestação de cidadania e compromisso socioambiental, fundamentada em evidências científicas. É assinada por bacharéis, mestres e doutores do campo das Ciências Ambientais, que expressam seus posicionamentos individual e coletivamente, no exercício de sua liberdade de expressão e de sua responsabilidade como cidadãos perante a sociedade brasileira.

Brasília, outubro de 2026.

Fontes:

  1. Datafolha de 8/10: Flávio 49%, Lula 45% no segundo turno. Money Times​, Brasil de Fato
  2. Plano de governo: sobreposições entre Ibama, Funai e ICMBio. SBT News. Link do plano: [https://www.poder360.com.br/poder-flash/leia-a-integra-do-plano-de-governo-de-flavio-bolsonaro/]
  3. Aprovação automática de licenças no plano. TVT News
  4. Sonja J. Vermeulen, Bruce M. Campbell, John S.I. Ingram. 2012. Climate Change and Food Systems. Annual Review of Environment and Resources 37:195-222.
  5. Allipour Birgani, R., Kianirad, A., Shab-Bidar, S., Djazayeri, A., Pouraram, H., & Takian, A. (2022). Climate Change and Food Price: A Systematic Review and Meta-Analysis of Observational Studies, 1990-2021. American Journal of Climate Change, 11, 103-132. 
  6. Melo, F. P. L., Parry, L., Brancalion, P. H. S., Pinto, S. R. R., Freitas, J., Manhães, A. P., Meli, P., Ganade, G., & Chazdon, R. L. (2020). Adding forests to the water–energy–food nexus. Nature Sustainability. https://doi.org/10.1038/s41893-020-00608-z.
  7. Baker, J. C. A., Smith, C., Veiga, J. A. P., Farnsworth, H., & Spracklen, D. V. (2026). Quantifying tropical forest rainfall generation. Communications Earth & Environment, 7(1), 150. https://doi.org/10.1038/s43247-025-03159-3
  8. Pesquisa: todos os Yanomami de 9 aldeias assediadas pelo garimpo estão contaminados por mercúrio. 
  9. Fernandes, G. W., et al (2026). Shortcuts to degradation: Environmental consequences of Brazil’s general environmental licensing law. Perspectives in Ecology and Conservation, 24(1), 48–52. https://doi.org/10.1016/j.pecon.2025.10.004
  10. Desastres naturais atingiram 93% dos municípios nos últimos 10 anos Agência Brasil EBC
  11. Flávio Bolsonaro diz que aquecimento global não existe e cita saneamento básico como solução: G5Minas
  12. Enchentes no RS, abril-maio de 2024: World Weather Attribution. Seca na Amazônia em 2023: Poder360
  13. População em áreas de risco (Censo 2010): IBGE/Cemaden. IPCC (AR6, 2022) para a América Latina: Dialogue Earth. 
  14. Desastres em 93% dos municípios, 2013–2022 (CNM): Poder360
  15. Sabatina do Jornal Nacional em 28/8: eventos extremos como efeitos cíclicos. O Liberal/Estadão​, Diário do Centro do Mundo
  16. IPCC: aquecimento causado inequivocamente pela ação humana. bnews. Relatório do IPCC: [https://www.ipcc.ch/2021/08/09/ar6-wg1-20210809-pr/ ]
  17. Fala de “armadilha” no Senado, 14/5/2024: O Eco
  18. Angra dos Reis, 29/8/2026. Diário de Pernambuco
  19. Visita a Belém: licenciamento “sem ideologia” e turismo em terras indígenas, quilombolas e reservas. O Liberal
  20. Flávio, relator da PEC das Praias. Extra Classe. Críticas: Movimento Econômico. Flávio nega privatização e incluiu garantia de acesso livre: CartaCapital
  21. Fala no CPAC, no Texas, sobre terras raras. NSC Total
  22. Reunião de Flávio com Trump em 26/5, segundo ele próprio. CNN Brasil
  23. Trump ligou o tarifaço de 50% ao julgamento de Jair Bolsonaro. CNN Brasil
  24. Saída dos EUA do Acordo de Paris. Metrópoles
  25. Trump na ONU, 23/9/2025: “a maior farsa já perpetrada no mundo”. Olhar Digital​, Nova Cana
  26. Demissões na NOAA e em equipes do clima. Diário de Pernambuco​, Istoé Dinheiro
  27. Revogação da base regulatória de emissões de veículos pela EPA. J.J. Keller
  28. Ameaça de Bolsonaro de sair do Acordo de Paris em 2018. Agência Brasil​, Portal UOL​, IHU/Unisinos
  29. Bloqueio de 30% das verbas de universidades e institutos federais em 2019 e liberação em outubro. IHU/Unisinos​, Jornal de Brasília​, Metrópoles
  30. Exoneração de Ricardo Galvão do INPE em agosto de 2019. Exame
  31. Noruega e Alemanha e o Fundo Amazônia em 2019. Poder360​, Poder360
  32. Exoneração de chefes da fiscalização do Ibama em abril de 2020. Brasil de Fato​, Money Times
  33. Salles e “passar a boiada”, reunião ministerial de 22/4/2020. Metrópoles​, Jovem Pan
  34. Cortes em ciência e educação (Capes 9% em 2019, 28% em 2022; universidades federais, 25% em 2022). O Povo.
  35. PRODES: média 2019–2022 contra 2015–2018 (59,6%, cálculo sobre dados do INPE). https://terrabrasilis.dpi.inpe.br/app/dashboard/deforestation/biomes/legal_amazon/rates
  36. PRODES 2025: 5.796 km², menor taxa em 11 anos. Olhar Digital​, nota técnica do INPE
  37. Fala de 6/10/2026 sobre “redemocratizar”. G1
  38. Fala de 7/10/2026 sobre mandato de cinco anos. Valor O Globo 
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