

CARTA ABERTA DOS CIENTISTAS AMBIENTAIS À SOCIEDADE BRASILEIRA
O problema
Nós, Cientistas Ambientais e Socioambientais do Brasil, manifestamos nossa preocupação com a possibilidade de enfraquecimento da governança ambiental brasileira e da capacidade do Estado de prevenir desastres, proteger os ecossistemas e enfrentar as mudanças climáticas. As propostas, falas e ações do candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro, enquanto ainda senador, revelam intenções incompatíveis com as evidências científicas amplamente consolidadas e com os compromissos fundamentados na ciência para enfrentamento dos desafios socioambientais do século XXI. Entre elas, a modificação das atribuições de instituições como Ibama, ICMBio e Funai [2], que, somadas à aprovação automática de licenças ambientais [3] e à ausência de compromissos climáticos detalhados, reduzem a capacidade de prevenção e fiscalização do poder público. Também nos preocupa a falta de garantias claras para a continuidade de políticas ambientais baseadas em evidências científicas, transparência e autonomia técnica das instituições.
As decisões sobre o meio ambiente afetam diretamente a qualidade da água que consumimos, os alimentos que chegam à mesa, a saúde da população, a segurança nas cidades e as condições de vida e trabalho. Por isso, as políticas ambientais devem ocupar um lugar central no debate sobre o futuro do Brasil. Em referência ao governo anterior do pai do candidato, Jair Bolsonaro (2019-2022), caso a extrema direita reassuma o poder executivo, tememos um enfraquecimento ainda maior da política de prevenção a desastres ambientais, das políticas de combate à fome, aumento da insegurança hídrica, aumento do desmatamento, aumento da emissão de gases de efeito estufa, dentre uma série de outros riscos que prejudicam diretamente a vida dos brasileiros.
No cenário de eleição do candidato Flávio Bolsonaro para o executivo poderemos, dentro de poucos anos, observar:
I - Comida mais cara: O abandono das políticas de combate às mudanças climáticas, à degradação ambiental e à falta de água prejudicará a capacidade de cultivo e poderá elevar o preço dos alimentos [4]. Estudos detalham a relação entre mudanças climáticas e a queda na produtividade agrícola [4], com aumentos de até 32% nos preços devido a secas [5].
II - Menos água: Florestas compõem um eixo fundamental da segurança hídrica [6]. A falta de fiscalização pode levar a mais desmatamento, reduzindo a água para beber, plantar e gerar energia. Cerca de metade da chuva da Amazônia é reciclada pela transpiração da própria floresta, e estudos mostram que as florestas contribuem com aproximadamente 300mm de chuva localmente [7].
III - Mais crimes ambientais: Grilagem, garimpo e extração ilegal de madeira ameaçam a Amazônia Legal, a biodiversidade e a segurança das comunidades. Estudos da Fiocruz encontraram contaminação por mercúrio em quase toda a população de nove aldeias Yanomami [8].
IV - Mais desastres: Licenciamento ambiental facilitado e fiscalização fraca aumentam o risco de tragédias como em Mariana (2015), Brumadinho (2019) e Maceió (2018), no caso Braskem. Um artigo assinado por 32 cientistas alerta para o aumento desses riscos ao reduzir as regras de fiscalização [9].
V - Mais desigualdade: Povos indígenas, comunidades tradicionais, trabalhadores rurais e as periferias urbanas ficam mais expostos à contaminação, à perda de território e aos desastres [9]. Segundo o IBGE e o Cemaden, 8,3 milhões de pessoas viviam em áreas de risco de desastres em 872 municípios. Já o IPCC (2022) aponta que os efeitos das mudanças climáticas podem agravar as desigualdades [CIT].
VI - Prejuízos econômicos e sociais: Perdas de moradias, infraestrutura, renda e atividades produtivas.. Segundo a Confederação Nacional de Municípios, entre 2013 e 2022 5.199 dos 5.570 municípios (93%) sofreram prejuízos econômicos devido a desastres, com danos só em moradias passando de R$ 26 bilhões [10].
Questionado no Jornal Nacional, em 28 de agosto de 2026, sobre o aquecimento global, Flávio Bolsonaro afirmou que os eventos extremos (calor, chuvas e secas) seriam “efeitos cíclicos” e contestou a influência das atividades humanas nesses eventos [11]. A declaração contraria as evidências científicas reunidas pelo IPCC, que demonstram que a ação humana intensifica eventos climáticos extremos [12]. Em maio de 2024, durante debate no Senado sobre a tragédia no Rio Grande do Sul, Flávio chamou de “armadilha” a atribuição da ocorrência desses eventos às mudanças climáticas [13]. Em 29 de agosto de 2026, em Angra dos Reis (RJ), ao defender mais turismo na cidade, prometeu: “Vamos destravar amarras ambientais e burocráticas” [14]. Como relator da PEC 3/2022, conhecida como PEC das Praias, apoiou uma proposta que previa transferir terrenos de marinha a ocupantes privados, estados e municípios, suscitando preocupações sobre o controle público dessas áreas e a proteção costeira [16]. A combinação dessas posições sinaliza planos de enfraquecer a prevenção ambiental, a fiscalização e a proteção de territórios fundamentais para a segurança hídrica, alimentar e climática do país.
Ainda, no contexto das terras raras, a aproximação de Flávio Bolsonaro com Donald Trump representa um alerta para a soberania brasileira, a proteção ambiental e o desenvolvimento científico. Durante a Conferência dos Partidos Conservadores que ocorreu em Março de 2026, no Texas, Flávio afirmou, em inglês, que o Brasil seria “a solução para os Estados Unidos reduzirem a dependência da China em minerais críticos, especialmente terras raras” [17]. Em 26 de maio de 2026, segundo o próprio Flávio, ele e Trump se reuniram na Casa Branca e discutiram tarifas comerciais e [18] minerais estratégicos para tecnologias de energia, eletrônicos, defesa e equipamentos industriais. Essa aproximação ameaça subordinar interesses nacionais a objetivos políticos externos e aprofunda as relações de dependência tecnológica do Brasil ao exportar suas riquezas minerais sem garantir segurança territorial, desenvolvimento tecnológico, sustentabilidade e benefícios sociais no próprio território.
A política de Trump é marcada pelo retrocesso climático: os Estados Unidos se retiraram pela segunda vez do Acordo de Paris [20], o presidente chamou as mudanças climáticas de “a maior farsa já perpetrada no mundo” [21], centenas de funcionários da agência federal de clima e oceanos (NOAA) foram demitidos [22] e, em fevereiro de 2026, seu governo revogou a base regulatória que permitia limitar as emissões de gases de efeito estufa dos veículos [23].
Seguindo a linha de Trump, o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai do atual candidato, ameaçou retirar o Brasil do Acordo do Clima ainda durante sua campanha, em 2018 [24]. Entre 2019 e 2022, seu governo entrou em conflito com instituições científicas e enfraqueceu a fiscalização ambiental. Os eventos apresentados cronologicamente a seguir resumem a agenda de desmontes direcionados à ciência e às instituições brasileiras promovidos durante seu governo:
Abril de 2019: Bloqueio de 30% das verbas discricionárias de universidades e institutos federais, medida revertida apenas em outubro daquele ano [25].
Agosto de 2019: Ricardo Galvão, então diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), foi exonerado após contestar publicamente as críticas de Jair Bolsonaro aos dados oficiais de desmatamento da Amazônia [26].
Agosto de 2019: Noruega e Alemanha suspenderam repasses ao Fundo Amazônia, depois que o Ministério do Meio Ambiente extinguiu o comitê que orientava o fundo [27].
Abril de 2020: Duas chefias da fiscalização do Ibama foram exoneradas após operações contra o garimpo ilegal em terras indígenas no Pará [28].
Abril de 2020: Em reunião ministerial, o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defendeu aproveitar a atenção pública voltada à pandemia para, em suas palavras, “passar a boiada”, promovendo mudanças e afrouxamento das regras ambientais [29].
2019 a 2022: Novos cortes atingiram também a educação superior e a ciência: segundo o Observatório do Legislativo Brasileiro, da UERJ, o corte nas verbas da CAPES passou de 9% em 2019 para 28% em 2022, e as universidades federais tiveram 25% dos recursos cortados em 2022 [30].
2019 a 2022: Os números do desmatamento confirmam a gravidade do período: segundo o PRODES, do INPE, a taxa de desmatamento média anual na Amazônia Legal foi 59,6% superior à média dos quatro anos anteriores [31].
Em contraste, em 2025, com a alternância da chefia do executivo e a retomada de políticas de controle e fiscalização ambiental, o desmatamento caiu: foram registrados 5.796 km², a menor taxa em 11 anos [32].
Em uma recente declaração, em 6 de outubro de 2026, o candidato Flávio Bolsonaro afirmou pretender usar a força da nova composição do Congresso para mudar a Constituição e, em suas palavras, “redemocratizar” o país [37]. Com a maioria partidária no Congresso e no Senado, Flávio Bolsonaro poderá colocar em prática seu plano de governo e realizar cortes de até 200 bilhões de reais nos gastos públicos. Entendemos que, seguindo a linha de governo adotada por seu pai, o meio ambiente será o principal alvo, agravando a já frágil situação dos órgãos ambientais brasileiros.
Nós, Cientistas Ambientais e Socioambientais do Brasil, reunimos conhecimentos da Biologia, Química, Física, Geologia, Economia, Sociologia, Ciência Política, Direito e Antropologia para compreender as relações entre sociedade e natureza e contribuir para soluções baseadas em evidências científicas. É a partir dessa competência que alertamos: o risco de retrocessos ambientais, enfraquecimento da ciência e agravamento das mudanças climáticas é real e ameaça a saúde, a segurança alimentar, o trabalho e o bem-estar da população. Queremos um Brasil com mais empregos, comida acessível e oportunidades, e sabemos que isso exige ciência forte, instituições responsáveis e um meio ambiente saudável. Quem desconsidera as evidências científicas reduz a capacidade de prevenir riscos e quem paga a conta é a população.
A quem votou em Flávio Bolsonaro no primeiro turno, mudar de escolha diante dos fatos é um gesto de coragem e responsabilidade. A quem não foi votar, pedimos que participe desta decisão. No dia 25 de outubro, vote contra o negacionismo e em defesa da vida, da ciência e do futuro do Brasil. Não anule seu voto, não se omita. A ciência e o meio ambiente estão em disputa, e o que está em jogo é a vida de todos nós.
Esta carta constitui uma manifestação de cidadania e compromisso socioambiental, fundamentada em evidências científicas. É assinada por bacharéis, mestres e doutores do campo das Ciências Ambientais, que expressam seus posicionamentos individual e coletivamente, no exercício de sua liberdade de expressão e de sua responsabilidade como cidadãos perante a sociedade brasileira.
Brasília, outubro de 2026.
Fontes:
- Datafolha de 8/10: Flávio 49%, Lula 45% no segundo turno. Money Times, Brasil de Fato
- Plano de governo: sobreposições entre Ibama, Funai e ICMBio. SBT News. Link do plano: [https://www.poder360.com.br/poder-flash/leia-a-integra-do-plano-de-governo-de-flavio-bolsonaro/]
- Aprovação automática de licenças no plano. TVT News
- Sonja J. Vermeulen, Bruce M. Campbell, John S.I. Ingram. 2012. Climate Change and Food Systems. Annual Review of Environment and Resources 37:195-222.
- Allipour Birgani, R., Kianirad, A., Shab-Bidar, S., Djazayeri, A., Pouraram, H., & Takian, A. (2022). Climate Change and Food Price: A Systematic Review and Meta-Analysis of Observational Studies, 1990-2021. American Journal of Climate Change, 11, 103-132.
- Melo, F. P. L., Parry, L., Brancalion, P. H. S., Pinto, S. R. R., Freitas, J., Manhães, A. P., Meli, P., Ganade, G., & Chazdon, R. L. (2020). Adding forests to the water–energy–food nexus. Nature Sustainability. https://doi.org/10.1038/s41893-020-00608-z.
- Baker, J. C. A., Smith, C., Veiga, J. A. P., Farnsworth, H., & Spracklen, D. V. (2026). Quantifying tropical forest rainfall generation. Communications Earth & Environment, 7(1), 150. https://doi.org/10.1038/s43247-025-03159-3
- Pesquisa: todos os Yanomami de 9 aldeias assediadas pelo garimpo estão contaminados por mercúrio.
- Fernandes, G. W., et al (2026). Shortcuts to degradation: Environmental consequences of Brazil’s general environmental licensing law. Perspectives in Ecology and Conservation, 24(1), 48–52. https://doi.org/10.1016/j.pecon.2025.10.004
- Desastres naturais atingiram 93% dos municípios nos últimos 10 anos Agência Brasil EBC
- Flávio Bolsonaro diz que aquecimento global não existe e cita saneamento básico como solução: G5Minas
- Enchentes no RS, abril-maio de 2024: World Weather Attribution. Seca na Amazônia em 2023: Poder360
- População em áreas de risco (Censo 2010): IBGE/Cemaden. IPCC (AR6, 2022) para a América Latina: Dialogue Earth.
- Desastres em 93% dos municípios, 2013–2022 (CNM): Poder360
- Sabatina do Jornal Nacional em 28/8: eventos extremos como efeitos cíclicos. O Liberal/Estadão, Diário do Centro do Mundo
- IPCC: aquecimento causado inequivocamente pela ação humana. bnews. Relatório do IPCC: [https://www.ipcc.ch/2021/08/09/ar6-wg1-20210809-pr/ ]
- Fala de “armadilha” no Senado, 14/5/2024: O Eco
- Angra dos Reis, 29/8/2026. Diário de Pernambuco
- Visita a Belém: licenciamento “sem ideologia” e turismo em terras indígenas, quilombolas e reservas. O Liberal
- Flávio, relator da PEC das Praias. Extra Classe. Críticas: Movimento Econômico. Flávio nega privatização e incluiu garantia de acesso livre: CartaCapital
- Fala no CPAC, no Texas, sobre terras raras. NSC Total
- Reunião de Flávio com Trump em 26/5, segundo ele próprio. CNN Brasil
- Trump ligou o tarifaço de 50% ao julgamento de Jair Bolsonaro. CNN Brasil
- Saída dos EUA do Acordo de Paris. Metrópoles
- Trump na ONU, 23/9/2025: “a maior farsa já perpetrada no mundo”. Olhar Digital, Nova Cana
- Demissões na NOAA e em equipes do clima. Diário de Pernambuco, Istoé Dinheiro
- Revogação da base regulatória de emissões de veículos pela EPA. J.J. Keller
- Ameaça de Bolsonaro de sair do Acordo de Paris em 2018. Agência Brasil, Portal UOL, IHU/Unisinos
- Bloqueio de 30% das verbas de universidades e institutos federais em 2019 e liberação em outubro. IHU/Unisinos, Jornal de Brasília, Metrópoles
- Exoneração de Ricardo Galvão do INPE em agosto de 2019. Exame
- Noruega e Alemanha e o Fundo Amazônia em 2019. Poder360, Poder360
- Exoneração de chefes da fiscalização do Ibama em abril de 2020. Brasil de Fato, Money Times
- Salles e “passar a boiada”, reunião ministerial de 22/4/2020. Metrópoles, Jovem Pan
- Cortes em ciência e educação (Capes 9% em 2019, 28% em 2022; universidades federais, 25% em 2022). O Povo.
- PRODES: média 2019–2022 contra 2015–2018 (59,6%, cálculo sobre dados do INPE). https://terrabrasilis.dpi.inpe.br/app/dashboard/deforestation/biomes/legal_amazon/rates
- PRODES 2025: 5.796 km², menor taxa em 11 anos. Olhar Digital, nota técnica do INPE
- Fala de 6/10/2026 sobre “redemocratizar”. G1
- Fala de 7/10/2026 sobre mandato de cinco anos. Valor O Globo

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O problema
Nós, Cientistas Ambientais e Socioambientais do Brasil, manifestamos nossa preocupação com a possibilidade de enfraquecimento da governança ambiental brasileira e da capacidade do Estado de prevenir desastres, proteger os ecossistemas e enfrentar as mudanças climáticas. As propostas, falas e ações do candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro, enquanto ainda senador, revelam intenções incompatíveis com as evidências científicas amplamente consolidadas e com os compromissos fundamentados na ciência para enfrentamento dos desafios socioambientais do século XXI. Entre elas, a modificação das atribuições de instituições como Ibama, ICMBio e Funai [2], que, somadas à aprovação automática de licenças ambientais [3] e à ausência de compromissos climáticos detalhados, reduzem a capacidade de prevenção e fiscalização do poder público. Também nos preocupa a falta de garantias claras para a continuidade de políticas ambientais baseadas em evidências científicas, transparência e autonomia técnica das instituições.
As decisões sobre o meio ambiente afetam diretamente a qualidade da água que consumimos, os alimentos que chegam à mesa, a saúde da população, a segurança nas cidades e as condições de vida e trabalho. Por isso, as políticas ambientais devem ocupar um lugar central no debate sobre o futuro do Brasil. Em referência ao governo anterior do pai do candidato, Jair Bolsonaro (2019-2022), caso a extrema direita reassuma o poder executivo, tememos um enfraquecimento ainda maior da política de prevenção a desastres ambientais, das políticas de combate à fome, aumento da insegurança hídrica, aumento do desmatamento, aumento da emissão de gases de efeito estufa, dentre uma série de outros riscos que prejudicam diretamente a vida dos brasileiros.
No cenário de eleição do candidato Flávio Bolsonaro para o executivo poderemos, dentro de poucos anos, observar:
I - Comida mais cara: O abandono das políticas de combate às mudanças climáticas, à degradação ambiental e à falta de água prejudicará a capacidade de cultivo e poderá elevar o preço dos alimentos [4]. Estudos detalham a relação entre mudanças climáticas e a queda na produtividade agrícola [4], com aumentos de até 32% nos preços devido a secas [5].
II - Menos água: Florestas compõem um eixo fundamental da segurança hídrica [6]. A falta de fiscalização pode levar a mais desmatamento, reduzindo a água para beber, plantar e gerar energia. Cerca de metade da chuva da Amazônia é reciclada pela transpiração da própria floresta, e estudos mostram que as florestas contribuem com aproximadamente 300mm de chuva localmente [7].
III - Mais crimes ambientais: Grilagem, garimpo e extração ilegal de madeira ameaçam a Amazônia Legal, a biodiversidade e a segurança das comunidades. Estudos da Fiocruz encontraram contaminação por mercúrio em quase toda a população de nove aldeias Yanomami [8].
IV - Mais desastres: Licenciamento ambiental facilitado e fiscalização fraca aumentam o risco de tragédias como em Mariana (2015), Brumadinho (2019) e Maceió (2018), no caso Braskem. Um artigo assinado por 32 cientistas alerta para o aumento desses riscos ao reduzir as regras de fiscalização [9].
V - Mais desigualdade: Povos indígenas, comunidades tradicionais, trabalhadores rurais e as periferias urbanas ficam mais expostos à contaminação, à perda de território e aos desastres [9]. Segundo o IBGE e o Cemaden, 8,3 milhões de pessoas viviam em áreas de risco de desastres em 872 municípios. Já o IPCC (2022) aponta que os efeitos das mudanças climáticas podem agravar as desigualdades [CIT].
VI - Prejuízos econômicos e sociais: Perdas de moradias, infraestrutura, renda e atividades produtivas.. Segundo a Confederação Nacional de Municípios, entre 2013 e 2022 5.199 dos 5.570 municípios (93%) sofreram prejuízos econômicos devido a desastres, com danos só em moradias passando de R$ 26 bilhões [10].
Questionado no Jornal Nacional, em 28 de agosto de 2026, sobre o aquecimento global, Flávio Bolsonaro afirmou que os eventos extremos (calor, chuvas e secas) seriam “efeitos cíclicos” e contestou a influência das atividades humanas nesses eventos [11]. A declaração contraria as evidências científicas reunidas pelo IPCC, que demonstram que a ação humana intensifica eventos climáticos extremos [12]. Em maio de 2024, durante debate no Senado sobre a tragédia no Rio Grande do Sul, Flávio chamou de “armadilha” a atribuição da ocorrência desses eventos às mudanças climáticas [13]. Em 29 de agosto de 2026, em Angra dos Reis (RJ), ao defender mais turismo na cidade, prometeu: “Vamos destravar amarras ambientais e burocráticas” [14]. Como relator da PEC 3/2022, conhecida como PEC das Praias, apoiou uma proposta que previa transferir terrenos de marinha a ocupantes privados, estados e municípios, suscitando preocupações sobre o controle público dessas áreas e a proteção costeira [16]. A combinação dessas posições sinaliza planos de enfraquecer a prevenção ambiental, a fiscalização e a proteção de territórios fundamentais para a segurança hídrica, alimentar e climática do país.
Ainda, no contexto das terras raras, a aproximação de Flávio Bolsonaro com Donald Trump representa um alerta para a soberania brasileira, a proteção ambiental e o desenvolvimento científico. Durante a Conferência dos Partidos Conservadores que ocorreu em Março de 2026, no Texas, Flávio afirmou, em inglês, que o Brasil seria “a solução para os Estados Unidos reduzirem a dependência da China em minerais críticos, especialmente terras raras” [17]. Em 26 de maio de 2026, segundo o próprio Flávio, ele e Trump se reuniram na Casa Branca e discutiram tarifas comerciais e [18] minerais estratégicos para tecnologias de energia, eletrônicos, defesa e equipamentos industriais. Essa aproximação ameaça subordinar interesses nacionais a objetivos políticos externos e aprofunda as relações de dependência tecnológica do Brasil ao exportar suas riquezas minerais sem garantir segurança territorial, desenvolvimento tecnológico, sustentabilidade e benefícios sociais no próprio território.
A política de Trump é marcada pelo retrocesso climático: os Estados Unidos se retiraram pela segunda vez do Acordo de Paris [20], o presidente chamou as mudanças climáticas de “a maior farsa já perpetrada no mundo” [21], centenas de funcionários da agência federal de clima e oceanos (NOAA) foram demitidos [22] e, em fevereiro de 2026, seu governo revogou a base regulatória que permitia limitar as emissões de gases de efeito estufa dos veículos [23].
Seguindo a linha de Trump, o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai do atual candidato, ameaçou retirar o Brasil do Acordo do Clima ainda durante sua campanha, em 2018 [24]. Entre 2019 e 2022, seu governo entrou em conflito com instituições científicas e enfraqueceu a fiscalização ambiental. Os eventos apresentados cronologicamente a seguir resumem a agenda de desmontes direcionados à ciência e às instituições brasileiras promovidos durante seu governo:
Abril de 2019: Bloqueio de 30% das verbas discricionárias de universidades e institutos federais, medida revertida apenas em outubro daquele ano [25].
Agosto de 2019: Ricardo Galvão, então diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), foi exonerado após contestar publicamente as críticas de Jair Bolsonaro aos dados oficiais de desmatamento da Amazônia [26].
Agosto de 2019: Noruega e Alemanha suspenderam repasses ao Fundo Amazônia, depois que o Ministério do Meio Ambiente extinguiu o comitê que orientava o fundo [27].
Abril de 2020: Duas chefias da fiscalização do Ibama foram exoneradas após operações contra o garimpo ilegal em terras indígenas no Pará [28].
Abril de 2020: Em reunião ministerial, o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defendeu aproveitar a atenção pública voltada à pandemia para, em suas palavras, “passar a boiada”, promovendo mudanças e afrouxamento das regras ambientais [29].
2019 a 2022: Novos cortes atingiram também a educação superior e a ciência: segundo o Observatório do Legislativo Brasileiro, da UERJ, o corte nas verbas da CAPES passou de 9% em 2019 para 28% em 2022, e as universidades federais tiveram 25% dos recursos cortados em 2022 [30].
2019 a 2022: Os números do desmatamento confirmam a gravidade do período: segundo o PRODES, do INPE, a taxa de desmatamento média anual na Amazônia Legal foi 59,6% superior à média dos quatro anos anteriores [31].
Em contraste, em 2025, com a alternância da chefia do executivo e a retomada de políticas de controle e fiscalização ambiental, o desmatamento caiu: foram registrados 5.796 km², a menor taxa em 11 anos [32].
Em uma recente declaração, em 6 de outubro de 2026, o candidato Flávio Bolsonaro afirmou pretender usar a força da nova composição do Congresso para mudar a Constituição e, em suas palavras, “redemocratizar” o país [37]. Com a maioria partidária no Congresso e no Senado, Flávio Bolsonaro poderá colocar em prática seu plano de governo e realizar cortes de até 200 bilhões de reais nos gastos públicos. Entendemos que, seguindo a linha de governo adotada por seu pai, o meio ambiente será o principal alvo, agravando a já frágil situação dos órgãos ambientais brasileiros.
Nós, Cientistas Ambientais e Socioambientais do Brasil, reunimos conhecimentos da Biologia, Química, Física, Geologia, Economia, Sociologia, Ciência Política, Direito e Antropologia para compreender as relações entre sociedade e natureza e contribuir para soluções baseadas em evidências científicas. É a partir dessa competência que alertamos: o risco de retrocessos ambientais, enfraquecimento da ciência e agravamento das mudanças climáticas é real e ameaça a saúde, a segurança alimentar, o trabalho e o bem-estar da população. Queremos um Brasil com mais empregos, comida acessível e oportunidades, e sabemos que isso exige ciência forte, instituições responsáveis e um meio ambiente saudável. Quem desconsidera as evidências científicas reduz a capacidade de prevenir riscos e quem paga a conta é a população.
A quem votou em Flávio Bolsonaro no primeiro turno, mudar de escolha diante dos fatos é um gesto de coragem e responsabilidade. A quem não foi votar, pedimos que participe desta decisão. No dia 25 de outubro, vote contra o negacionismo e em defesa da vida, da ciência e do futuro do Brasil. Não anule seu voto, não se omita. A ciência e o meio ambiente estão em disputa, e o que está em jogo é a vida de todos nós.
Esta carta constitui uma manifestação de cidadania e compromisso socioambiental, fundamentada em evidências científicas. É assinada por bacharéis, mestres e doutores do campo das Ciências Ambientais, que expressam seus posicionamentos individual e coletivamente, no exercício de sua liberdade de expressão e de sua responsabilidade como cidadãos perante a sociedade brasileira.
Brasília, outubro de 2026.
Fontes:
- Datafolha de 8/10: Flávio 49%, Lula 45% no segundo turno. Money Times, Brasil de Fato
- Plano de governo: sobreposições entre Ibama, Funai e ICMBio. SBT News. Link do plano: [https://www.poder360.com.br/poder-flash/leia-a-integra-do-plano-de-governo-de-flavio-bolsonaro/]
- Aprovação automática de licenças no plano. TVT News
- Sonja J. Vermeulen, Bruce M. Campbell, John S.I. Ingram. 2012. Climate Change and Food Systems. Annual Review of Environment and Resources 37:195-222.
- Allipour Birgani, R., Kianirad, A., Shab-Bidar, S., Djazayeri, A., Pouraram, H., & Takian, A. (2022). Climate Change and Food Price: A Systematic Review and Meta-Analysis of Observational Studies, 1990-2021. American Journal of Climate Change, 11, 103-132.
- Melo, F. P. L., Parry, L., Brancalion, P. H. S., Pinto, S. R. R., Freitas, J., Manhães, A. P., Meli, P., Ganade, G., & Chazdon, R. L. (2020). Adding forests to the water–energy–food nexus. Nature Sustainability. https://doi.org/10.1038/s41893-020-00608-z.
- Baker, J. C. A., Smith, C., Veiga, J. A. P., Farnsworth, H., & Spracklen, D. V. (2026). Quantifying tropical forest rainfall generation. Communications Earth & Environment, 7(1), 150. https://doi.org/10.1038/s43247-025-03159-3
- Pesquisa: todos os Yanomami de 9 aldeias assediadas pelo garimpo estão contaminados por mercúrio.
- Fernandes, G. W., et al (2026). Shortcuts to degradation: Environmental consequences of Brazil’s general environmental licensing law. Perspectives in Ecology and Conservation, 24(1), 48–52. https://doi.org/10.1016/j.pecon.2025.10.004
- Desastres naturais atingiram 93% dos municípios nos últimos 10 anos Agência Brasil EBC
- Flávio Bolsonaro diz que aquecimento global não existe e cita saneamento básico como solução: G5Minas
- Enchentes no RS, abril-maio de 2024: World Weather Attribution. Seca na Amazônia em 2023: Poder360
- População em áreas de risco (Censo 2010): IBGE/Cemaden. IPCC (AR6, 2022) para a América Latina: Dialogue Earth.
- Desastres em 93% dos municípios, 2013–2022 (CNM): Poder360
- Sabatina do Jornal Nacional em 28/8: eventos extremos como efeitos cíclicos. O Liberal/Estadão, Diário do Centro do Mundo
- IPCC: aquecimento causado inequivocamente pela ação humana. bnews. Relatório do IPCC: [https://www.ipcc.ch/2021/08/09/ar6-wg1-20210809-pr/ ]
- Fala de “armadilha” no Senado, 14/5/2024: O Eco
- Angra dos Reis, 29/8/2026. Diário de Pernambuco
- Visita a Belém: licenciamento “sem ideologia” e turismo em terras indígenas, quilombolas e reservas. O Liberal
- Flávio, relator da PEC das Praias. Extra Classe. Críticas: Movimento Econômico. Flávio nega privatização e incluiu garantia de acesso livre: CartaCapital
- Fala no CPAC, no Texas, sobre terras raras. NSC Total
- Reunião de Flávio com Trump em 26/5, segundo ele próprio. CNN Brasil
- Trump ligou o tarifaço de 50% ao julgamento de Jair Bolsonaro. CNN Brasil
- Saída dos EUA do Acordo de Paris. Metrópoles
- Trump na ONU, 23/9/2025: “a maior farsa já perpetrada no mundo”. Olhar Digital, Nova Cana
- Demissões na NOAA e em equipes do clima. Diário de Pernambuco, Istoé Dinheiro
- Revogação da base regulatória de emissões de veículos pela EPA. J.J. Keller
- Ameaça de Bolsonaro de sair do Acordo de Paris em 2018. Agência Brasil, Portal UOL, IHU/Unisinos
- Bloqueio de 30% das verbas de universidades e institutos federais em 2019 e liberação em outubro. IHU/Unisinos, Jornal de Brasília, Metrópoles
- Exoneração de Ricardo Galvão do INPE em agosto de 2019. Exame
- Noruega e Alemanha e o Fundo Amazônia em 2019. Poder360, Poder360
- Exoneração de chefes da fiscalização do Ibama em abril de 2020. Brasil de Fato, Money Times
- Salles e “passar a boiada”, reunião ministerial de 22/4/2020. Metrópoles, Jovem Pan
- Cortes em ciência e educação (Capes 9% em 2019, 28% em 2022; universidades federais, 25% em 2022). O Povo.
- PRODES: média 2019–2022 contra 2015–2018 (59,6%, cálculo sobre dados do INPE). https://terrabrasilis.dpi.inpe.br/app/dashboard/deforestation/biomes/legal_amazon/rates
- PRODES 2025: 5.796 km², menor taxa em 11 anos. Olhar Digital, nota técnica do INPE
- Fala de 6/10/2026 sobre “redemocratizar”. G1
- Fala de 7/10/2026 sobre mandato de cinco anos. Valor O Globo

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Abaixo-assinado criado em 18 de outubro de 2026