

Carta aberta à Fuvest 2026/2027
O problema
Em 2025, alguns de nós e outras/os colegas já aprovadas/os, redigimos uma Carta Aberta à Fuvest, que pode ser consultada aqui: https://www.change.org/p/carta-aberta-%C3%A0-fuvest
Nosso objetivo, à época, bem como o deste ano, era cobrar uma postura mais responsável da Fundação Universitária para o Vestibular em relação às suas comunicações e ao seu compromisso com todo mundo que deseja ingressar na Universidade de São Paulo. O movimento foi bastante interessante em dois sentidos: no da escrita, que nos fez crescer muito, mas principalmente no político, que nos mostrou que, juntos, nós todos, todas e todes, estudantes, temos mais força e voz.
De 2025 para cá, novas demandas apareceram, algumas inseguranças se complexificaram e nos sentimos impelidas/os a, então, novamente, abrir uma conversa com a Fuvest. Enquanto as comunicações e o acesso à informação priorizarem as instituições de ensino particulares e os boatos, quem é que pode, verdadeiramente, “vencer pela educação” como propõe o novo slogan da Fundação?
Convidamos todo mundo a conhecer os pontos que consideramos importantes e a assinar conosco a carta a fim de exigir posturas responsáveis, mas, especialmente, aquilo que são direitos públicos.
1) Quem somos nós e o que desejamos
Nós, que escrevemos esta carta aberta à Fuvest, somos um grupo de estudantes orientadas/os por docentes. Buscamos uma maior transparência em relação às mudanças que ocorrem na banca e uma confirmação de que a principal forma de ingresso na USP não usará inteligência artificial para elaborar questões e para corrigir redações, posto que há uma ampliação da utilização das ferramentas digitais na área da educação; além disso, queremos a isenção da taxa dos simulados aplicados presencialmente para pessoas de baixa renda visto que a barreira econômica não as permite simular a situação oficial da prova.
Essa manifestação acontece em conjunto com a classe educadora, pois uma maior transparência é importante também para esse grupo que tem como foco preparar alunas e alunos para ingressar na Universidade de São Paulo. Isso porque, sem o acesso pleno ao que é esperado de alguém do Ensino Médio, as/os professoras/es enfrentam dificuldades para elaborar os materiais que serão posteriormente utilizados em sala de aula.
2) A motivação
Circula pelos cursinhos a informação não confirmada de que a Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest) teria adquirido, por importação, um software de inteligência artificial para que esse desempenhasse a formulação das questões dos simulados – aplicados durante esse ano – e das provas oficiais, algo que merece atenção.
Se, de fato, essa ação for verídica, a pergunta que fazemos é: até que ponto isso é ético e quais são os perigos de uma possível utilização dessa tecnologia? Por entendermos que essa não seja uma instituição qualquer, afinal, é referência na elaboração de vestibulares há 50 anos, enxergamos como essencial, e de nosso direito, discorrermos sobre algumas das inúmeras problemáticas que isso pode acarretar.
Uma primeira questão a ser pensada é a suscetibilidade que IAs apresentam no que diz respeito ao processamento de informações incorretas, sejam de cunho acadêmico ou não. Em um exame tão concorrido e relevante para a educação nacional, abrir margens para que isso aconteça é prejudicial à credibilidade da prova e à preparação emocional de vestibulandas/os.
O distanciamento prova-estudante que esta possível decisão culminaria também é algo extremamente preocupante. Isto é, um conjunto algorítmico de dados parece não selecionar de maneira confiável aquilo com que uma pessoa concluinte do Ensino Médio efetivamente teve contato e, principalmente, não opera considerando como este aprendizado se deu e qual sua profundidade. Em outras palavras, não pondera como cada tópico foi abordado no ensino público e no privado, por exemplo. Este risco de não-dimensão, entretanto, é drasticamente reduzido quando se tem um docente humano elaborando questões de sua área de atuação.
Um prompt, comando dado às inteligências artificiais, por mais específico que seja, perde contornos humanos quando, justamente, é elaborado por uma automação inteligente. Na coletânea da Fuvest de 2020, na qual a proposta era "O papel da ciência no mundo contemporâneo", vocês nos convidaram a pensar acerca da grandiosidade que é a ciência para a humanidade, ciência esta pesquisada, elaborada e produzida por indivíduos pesquisadores, pessoas que se debruçam nos estudos e que, de fato, entendem sobre o que escrevem. Por que, então, a possível deslegitimação de sujeitos tão relevantes à educação em um processo que deveria ser levado com seriedade? Quais os ganhos dessa perda?
Além disso, a USP, como uma das mais renomadas universidades brasileiras, serve de espelho tanto para a produção quanto para a aplicação de novos conhecimentos. Portanto, o suspeito manuseio de IA – sem a devida comunicação à sociedade e sem garantia de decisivo fator humano na elaboração e na correção do exame – no principal processo seletivo de entrada à graduação e em seus simulados responsabiliza a instituição como propulsora de um comportamento acrítico e irreflexivo nas práticas científicas nacionais.
Essa dinâmica, entretanto, não é a propagada nos seus meios de comunicação, nos quais a Universidade defende uma utilização eticamente comprometida e segura e reconhece a imprescindibilidade da presença de profissionais – humanos –, o que pode ser corroborado pela fala de um integrante da Pró-Reitoria de Graduação (PRG) ao apresentar a nova disciplina sobre o uso da IA na vida acadêmica:
“A disciplina expressa uma posição da Pró-Reitoria diante de um tema que já atravessa a vida acadêmica. A inteligência artificial está presente nas formas de estudar, escrever, resolver problemas, realizar atividades de pesquisa e inovação e produzir conhecimento. Por isso, a Universidade precisa oferecer referências para que seu uso ocorra com critério, responsabilidade e transparência. A proposta não é apenas ensinar a utilizar ferramentas, mas formar estudantes capazes de compreender seus limites, avaliar criticamente seus resultados, reconhecer implicações éticas e assumir responsabilidade intelectual pelo que produzem. A IA pode apoiar o percurso formativo, mas não substitui o estudo, a autoria, o esforço de elaboração nem a mediação docente. Ao oferecer uma disciplina aberta a todos os cursos, a PRG reafirma que esse debate pertence à graduação como um todo e deve estar subordinado aos fins formativos da Universidade”, afirma o pró-reitor de Graduação, Marcos Garcia Neira.1
3) E as/os professoras/es? E o que temos chamado de educação? Não vamos respeitar nada disso?
Tendo como base essa declaração do pró-reitor, questionamo-nos se a tentativa de educar alunas/os sob a justificativa de um uso "responsável" das ferramentas digitais não acaba, consequentemente, naturalizando a presença da inteligência artificial no ambiente educacional. Essa possível validação institucional abre margem para a capilarização de um uso nocivo da tecnologia e, posteriormente, para a contínua fragilização da figura do corpo docente.
Ainda que existam discursos que vinculam a IA à democratização do conhecimento e à promoção da autonomia, esse raciocínio enfrenta barreiras ao passo que essas tecnologias fazem o uso de bancos de dados que contêm informações que podem não cumprir o rigor científico ou não ter sua veracidade confirmada. Observado a partir dessa perspectiva e dado seu caráter ainda embrionário, o uso da IA transmite insegurança a docentes e a discentes sobre sua capacidade de integrar o processo de formação crítica que a universidade deseja. Isso porque, se a definição de educação, presente no slogan “vencerás pela educação“, for o estímulo à autoria — competência que a IA não é capaz de exercer, mas que, mesmo assim, é cobrada pela banca na avaliação da redação — e à construção de um pensamento mais complexo, o uso dessas ferramentas não vai ao encontro do que a instituição diz esperar de estudantes.
Afinal, como esperar que se vença sem saber as regras? Ou com regras que mudam silenciosamente a cada nova edição do vestibular? Com qual rede de apoio professoras/es criarão seus materiais? Serão elas/es substituídas/os? Se a definição de educação, então, para a Universidade, for o desenvolvimento do pensamento crítico, o uso irresponsável da IA não é compatível com esse valor defendido.
Nos é curioso também, ainda sobre o slogan e suas promessas tácitas e explícitas, que o sentido da palavra “vencedores” – parâmetro de um sistema desigual que naturaliza a existência de “perdedores” – seja criticado no livro ‘’Quincas Borba’’ – escolhido como parte da lista de leitura obrigatória da Fuvest de 2022 a 2025 –, pois a obra ridiculariza a ideia de que “aos vencedores” sejam destinadas “as batatas”. No nosso caso: aos vencedores, serão destinadas práticas mecanizadas e metrificadas por algoritmos digitais manipulados por “big techs” estrangeiras?
4) Incômodos anteriores com a redação
No ano passado, a Fuvest divulgou que a prova passaria por mudanças, podendo cobrar novos gêneros textuais. A justificativa dada pela Fundação sobre a modificação no formato do vestibular se pautou no alinhamento às diretrizes da BNCC; contudo, como tal alteração se daria e o esclarecimento sobre quais seriam as novas exigências da redação permaneceram obscuros. A fragmentação das informações divulgadas pela instituição, que ora são colocadas no site e ora no Instagram, não expande a prática comunicacional da banca e nem democratiza seu acesso, mas deixa lacunas.
Na última edição do vestibular, a Fundação não havia informado em nenhum veículo de comunicação a mudança nas notas da prova de redação, por exemplo. Assim, candidatas e candidatos realizaram o exame com a expectativa de que seus textos fossem avaliados na escala de 0 a 50. Porém, ao serem divulgados os resultados, foi evidenciado que as redações haviam sido corrigidas com uma grade diferente daquela utilizada habitualmente. Após desencadear um grande cenário de pânico entre estudantes, a banca se manifestou publicamente pelo Instagram, lançando uma nota de esclarecimento que confirmava a alteração nos critérios de correção. Embora a nota tenha sido recalculada de forma proporcional para atingir o antigo valor, o dano à credibilidade da banca e o abalo emocional das alunas e dos alunos – ao verem suas notas diminuídas em comparação às dos anos anteriores – não passaram ilesos, como afirmou a banca ao garantir que tal falha não traria prejuízos.
Gustavo Mônaco, atual diretor executivo da Fuvest, ao ministrar palestras em cursinhos privados na cidade de São Paulo, acentua ainda mais essa atmosfera de insegurança nos processos comunicativos, visto que os dados apresentados nesses locais não foram divulgados. Essa assimetria, que permite apenas àqueles que frequentam instituições privadas de elite ter contato direto com a banca, “camarotiza” o direito à informação pública.
O que nos permitiu essa relação foi o que aprendemos com a proposta de redação da Fuvest de 2015, na qual fomos convidados a refletir sobre a “Camarotização da sociedade: a segregação das classes sociais e a democracia”. A coletânea era composta de textos que definiam o termo “camarotização” e demonstravam como esse conceito acontecia no cotidiano. A mesma banca, então, que anos atrás nos ensinou os impactos que a hierarquização da sociedade tem na construção dos ideais democráticos, hoje relativiza quem pode ter acesso às explicações sobre as mudanças na prova.
5) Sobre o simulado
Em 2005, à luz do tema “Descatracalização da vida’’, também fomos instigados a pensar criticamente sobre um modo de operar que libera o acesso a recursos (a exemplo da educação de qualidade) a um grupo hegemônico e o barra àquelas pessoas desfavorecidas financeiramente. Anti-democrática, essa lógica se mantém presente à medida que a banca disponibiliza a aplicação presencial do simulado por um valor inacessível (R$150) a uma classe subalternizada, sem proporcionar políticas que possibilitem uma isenção da taxa. Assim, é, mais uma vez, incongruente que a mesma banca que tem o poder de fomentar um debate desta natureza promova ela mesma a “catracalização” do conhecimento. Por isso, a “descatracalização” é um dos nossos pedidos, pois desejamos uma maior equidade entre estudantes que buscam ingressar na Universidade.
As informações fornecidas nos canais oficiais são incompletas e as atitudes do diretor executivo não são condizentes com a de alguém que representa a instituição responsável pelo ingresso na USP. A falta de delimitação clara sobre a organização da prova e dos simulados ressalta o posicionamento antiético que os responsáveis pela instituição têm direcionado ao corpo discente e docente. Diante de tamanhas inconstâncias, exigimos que a Fundação se comprometa em exercer um comportamento transparente, honesto e igualitário.
6) E a qualidade? Como fica?
A Fuvest, um dia, já nos forneceu ferramentas não apenas essenciais, mas poderosas, como as densas formulações das provas de redação que já apresentamos.
Ao analisarmos as frases temáticas e as coletâneas antigas, notamos que havia um maior empenho em trazer textos e informações relevantes para a escrita. A seleção de excertos, assim, cumpria o importante papel de inspirar estudantes e promover reflexões para além do vestibular. Apresentamos, a título de exemplo, além dos já elencados, a formulação “Educação básica e formação profissional: entre a multitarefa e a reflexão” (Fuvest 2024), que permite examinar a maneira como temos vivido – sem tempo para o ócio e para pensar. Com clareza, imaginamos, temas como esses se mostram indispensáveis na construção de quem seremos enquanto estudantes, de quem seremos enquanto seres políticos.
A preguiçosa frase temática do último simulado, no entanto, (a saber: “Cultura e culinária”) resulta em uma descredibilização da prova uma vez que, sem relações estabelecidas entre as palavras, a correção provavelmente precisará abrir margem para uma maior variedade de abordagens generalistas das produções, ao passo que isso também torna nebulosa a régua de comparação, pois textos muito diferentes entre si poderão chegar à banca corretora.
Ao olharmos a outra opção fornecida pela banca – formulação de um texto narrativo que descreva, de modo introspectivo, os pensamentos de uma mulher ilustrada em uma pintura –, notamos uma proposta infantilizada que não possui contornos textuais bem delimitados, pois não define o gênero para a escrita (como crônica ou diário). Logo, por não demarcar um contexto de circulação, enfrentará uma correção – esperamos que humana – muito subjetiva, uma vez que não há uma elaboração suficiente para que a banca possa fazer uma avaliação do texto de forma unificada.
Essa tentativa de implementar uma outra alternativa para além da dissertação – que, como vimos, não foi efetivada de uma maneira responsável, pois nem a formulação de um gênero foi elaborada pela banca – mostra o quanto essa lógica pode acabar por afetar candidatas/os que desejam redigir a dissertação-argumentativa.
Não tendo acesso por meios oficiais a diferentes redações bem avaliadas pela banca, estudamos com o que nos é fornecido voluntariamente por quem já esteve no nosso lugar. Assim, observamos, com base nas cartilhas divulgadas por ingressantes no curso de Medicina na última edição do vestibular – via @desempenhosmed no Instagram –, que quem obteve uma nota maior na redação foi quem optou por não fazer a dissertação, mas sim a carta. Essa análise, ainda que saibamos insuficiente, permite que pensemos o quanto desse resultado tem relação com a vontade da banca de promover uma maior adesão dos estudantes ao outro gênero disponibilizado.
Ainda, a desorganização e a falta de comprometimento foram também criticadas por diversos estudantes nos comentários de antigas publicações do Instagram oficial da Fuvest, o que demonstra que esse grupo não tinha informações necessárias sobre o processo seletivo. Tal queixa foi respondida de forma imatura e rude pela banca à época.
Com a ajuda da proposta da Fuvest 2021, cujo tema era “O mundo contemporâneo está fora de ordem?”, hoje ponderamos: a Fuvest está fora de ordem? Ou será que ela está muito bem inserida na ordem neoliberal? Quem serão os vencedores nessa lógica de educação marcada pela questão financeira?
Com isso em mente, solicitamos a divulgação oficial de, no mínimo, 3 textos modelo de cada proposta aplicada recentemente pela banca (a saber: pelo menos 3 dissertações e 3 redações do outro gênero tanto da Fuvest 2025 quanto do simulado aplicado em 2026), bem como em anos posteriores. Por meio disso, será possível entendermos os critérios da banca e nos prepararmos de forma eficaz para o exame.
7) Por que sabemos que nossas reivindicações são legítimas
Para que seja legítimo fazer reivindicações, é necessário lembrar que a USP é uma instituição pública e social. Quem nos ajuda a fundamentar isso é Marilena Chauí, filósofa e professora uspiana:
“A instituição social aspira à universalidade. A organização sabe que sua eficácia e seu sucesso dependem de sua particularidade. Isso significa que a instituição tem a sociedade como seu princípio e sua referência normativa e valorativa, enquanto a organização tem apenas a si mesma como referência, num processo de competição com outras que fixaram os mesmos objetivos particulares. Em outras palavras, a instituição se percebe inserida na divisão social e política e busca definir uma universalidade (imaginária ou desejável) que lhe permita responder às contradições, impostas pela divisão. Ao contrário, a organização pretende gerir seu espaço e tempo particulares aceitando como dado bruto sua inserção num dos pólos da divisão social, e seu alvo não é responder às contradições, e sim vencer a competição com seus supostos iguais.”3
Embora a ascensão em rankings globais seja positiva, uma preocupação anterior da instituição deve ser sobre aqueles que a compõem atual e futuramente. Imersos nessa operação, portanto, a USP e os órgãos associados a ela devem responder às demandas populares – a exemplo de uma isenção da taxa dos simulados aos vulneráveis economicamente, de uma maior transparência em relação às mudanças da banca e de um comprometimento em não usar inteligência artificial para a formulação e para a correção da prova.
Nesse contexto, a desconfiança sobre o uso de modelos de linguagem em grande escala pela Fuvest é válida e, se esse apontamento tiver alguma verdade, a instituição deve responder a esta contradição. Contradição porque, em 2026, a USP criou um escritório voltado à IA, teoricamente comprometido com a ética de seu uso:
“Escritório de Transformação Digital e Inteligência Artificial definirá as diretrizes e coordenará as ações voltadas para o uso responsável das tecnologias digitais na instituição
Princípios norteadores:
· Centralidade acadêmica: tecnologia a serviço da missão universitária;
· Ética, transparência e responsabilidade no uso de dados e da IA;
· Interdisciplinaridade e colaboração entre Unidades;
· Escala e sustentabilidade: soluções replicáveis e de longo prazo;
· Última decisão é do ser humano;
· Inclusão e capacitação da comunidade uspiana;
· Servir de referencial para iniciativas nacionais semelhantes.”4
Entretanto, a existência desta carta é uma manifestação da falta de transparência sobre o uso de IA pela Fuvest. Como, então, servir de referencial em nível nacional?
Uma das formas é a garantia da disponibilidade plena de informações às candidatas e aos candidatos, característica cuja importância a USP conhece, ao passo que enfrenta problemas semelhantes aos nossos quando se depara com a reforma tributária, o que percebemos por meio de uma fala do reitor Segurado durante a reunião do Projeto Métricas:
“O reitor da USP, Aluisio Segurado, reforçou que o principal desafio das universidades públicas paulistas, especialmente das três estaduais, é avançar na defesa da manutenção do modelo de financiamento baseado na cota fixa da arrecadação do Estado, que garante previsibilidade financeira e possibilita o planejamento a médio e longo prazo.
‘Esse desafio não é apenas dos dirigentes das universidades, mas é também de cada membro da Comunidade Métricas, que vem promovendo uma mudança de cultura institucional, enfatizando a gestão de dados como uma ferramenta de inteligência para o planejamento, o monitoramento e a avaliação de desempenho. É essa cultura que nos propiciará robustez nesse diálogo com a sociedade paulista, para mostrar como as universidades são estratégicas para o enfrentamento dos desafios contemporâneos, além de serem agentes de desenvolvimento econômico e social’, explicou Segurado.”5
De fato, a previsibilidade possibilita o planejamento. Ao aplicar esse raciocínio na situação por nós enfrentada, como poderemos nos preparar para uma prova que vem sofrendo constantes mudanças que nunca são expostas de maneira organizada e que mostram um descompromisso da banca com a qualidade do processo?
Ademais, outros pensamentos consoantes às ideias aqui expressadas foram levantados, os quais acreditamos que mereçam destaque:
“A reitora da Unifesp, Raiane Assumpção, chamou a atenção para a necessidade de que haja um processo de construção de métricas ‘com’ as pessoas e não ‘sobre’ as pessoas ou ‘para’ as pessoas.
‘As métricas têm que nos ajudar a pensar o lugar da universidade na sociedade, como ela contribui para o desenvolvimento social, econômico e político, e qual seu impacto na formação de pessoas. As métricas também devem se relacionar à missão da universidade como um todo – ensino, pesquisa e extensão, de forma indissociável. Por fim, também são necessárias métricas que estruturem o nosso modo de fazer, a nossa eficiência, que é um modelo de gestão diferente do setor privado’, explicou Raiane.
A reitora da UFABC, Paula Homem de Mello, alertou para a importância de pensar no desenvolvimento de métricas responsáveis. ‘Os dados podem ser manipulados e podem ser construídas métricas que podem induzir a políticas públicas e caminhos que não trarão benefícios à sociedade. Seria bom se pudéssemos também oferecer treinamentos e atualizações para que os vários setores da sociedade possam entender melhor o que são as métricas e, a partir daí, avaliar o papel da universidade, seu caráter transformador e sua importância na produção de novas tecnologias e políticas públicas’, defendeu a reitora.
Paula também falou sobre a experiência de ser uma universidade criada sem departamentos, com desafios, vantagens e aprendizagens que podem ser compartilhadas com as outras universidades paulistas.”6
O Projeto Métricas, antes um espaço focado na competição internacional, atualmente erige debates importantes sobre a dinâmica universidade-sociedade. É importante, no entanto, que eles não ocupem apenas o campo imaginativo. Concretizações acerca da responsabilidade com o corpo social devem ser realizadas.
As universidades paulistas possuem como núcleo fundamental a promoção do trabalho de pensamento e a delegação deste trabalho à inteligência artificial é uma autonegação da função social da instituição. “A Fuvest não apenas seleciona estudantes. Ela molda a própria identidade da USP.’’7, diz Gustavo Mônaco, ao celebrar os 50 anos do exame.
Evidencia-se, então, que a banca possui consciência de que o seu vestibular reflete na própria universidade. Aproveitando-se do silogismo do dirigente: se a identidade da USP é ditada pela Fuvest, talvez seja importante tratar o exame com o cuidado que merece, além de enxergar as vestibulandas e os vestibulandos como sujeitos que têm por direito a garantia de saber a competência da formulação do método seletivo, caso a USP tenha interesse nos adjetivos justa, igualitária e transparente ao se descrever.
Com intuito exemplar, referenciamos a Carta de Serviços da Universidade de São Paulo:
“Ao facilitar o acesso à informação, a Universidade reafirma seu papel como universidade pública, gratuita e de excelência, comprometida com o desenvolvimento científico, cultural e social do país, e reforça seu compromisso com a gestão responsável dos recursos públicos, com a prestação de contas e com o fortalecimento da relação com a comunidade.
Para a coordenadora do Egida, Renata Ferretti-Rebustini, ‘a Carta de Serviços da Universidade de São Paulo, em sua terceira edição revisada e ampliada, apresenta de forma clara, organizada e objetiva a pluralidade e diversidade das atividades, programas e serviços desenvolvidos na USP e oferecidos à sua comunidade interna e à sociedade em geral. Mais do que um catálogo de serviços, a carta representa um instrumento de transparência institucional, evidenciando o compromisso da USP com a prestação de contas para a sociedade e com a democratização do acesso à informação relacionada à sua atuação’, destaca.”8
O debate sobre a lisura da Fuvest é, no fundo, um debate sobre soberania, ciência e futuro intelectual. O cenário mundial nos convoca a refletir sobre a IA, mas não justifica corroborar com iniciativas precárias e potencialmente danosas. E muito menos lançar mão de expedientes que, sob os argumentos da celeridade e do progresso inevitável, desconsideram a prática ética da tecnologia e os impactos reverberados principalmente em vestibulandas/os.
8) Por fim, nossas exigências
- Garantia de que não haverá o uso de IAs em nenhum momento – seja na elaboração de questões de primeira e de segunda fase, seja na elaboração da prova de redação, bem como na correção delas.
- Isenção da taxa dos simulados às pessoas de baixa renda, permitindo, assim, a simulação da prova de maneira equitativa.
- Melhoria na maneira como a banca se comunica com o público, principalmente em relação às mudanças na prova – seja por meio das redes sociais, pelo edital ou pelo site oficial. Dado que existe um descaso e um caráter imaturo na utilização desses meios, a sensação que temos é de que algumas respostas são dadas apenas após muita insistência (como foi ano passado com a outra edição da Carta Aberta). O acesso à informação não é um favor, mas uma obrigação ética da instituição.
- Divulgação de pelo menos três redações bem avaliadas de cada modelo proposto.
9) Convocação
Convidamos toda a comunidade a se juntar a nós nessa empreitada: vestibulandas/os/es, docentes do EM e PV, docentes universitárias/os, familiares e todo mundo que tenha por objetivo a garantia da educação superior pública de qualidade. A carta aceita assinaturas e a sua faz diferença na composição deste coro.
Convocamos também os veículos midiáticos que se interessarem por noticiar o assunto a escolhas conscientes dos verbos manipulados para noticiar nossa ação. Não estamos “reclamando” de nada, como sugeriram em 2025, estamos exercendo o direito de manifestação.
10) Das nossas garantias
Para a escrita desta carta, não foi utilizada nenhuma ferramenta de inteligência artificial. Por isso, inclusive, estão nela marcas de muitas mãos e cérebros humanos coordenados numa escrita complexa. É assim que queremos o futuro.
[1] CRUZ, Adriana. USP oferecerá disciplina sobre o uso da inteligência artificial na vida acadêmica. Jornal da USP, 2026. Disponível em: https://jornal.usp.br/comunicados/usp-oferecera-disciplina-sobre-o-uso-da-inteligencia-artificial-na-vida-academica/ Acesso em 13 set. 2026
[2] DIAZ, Luccas. A Fundação reconhece falha de comunicação e explica que notas passaram por conversão proporcional; segundo a banca, nenhum candidato foi prejudicado. Guia do Estudante, 2026. Disponível em: https://guiadoestudante.abril.com.br/universidades/diretor-da-fuvest-explica-calculo-da-nota-da-redacao-apos-questionamentos-de-candidatos/?st_source=ai_overview Acesso em 19 set. 2026
[3] CHAUÍ, Marilena. A universidade pública sob nova perspectiva. Scielo, 2003. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/n5nc4mHY9N9vQpn4tM5hXzj/?lang=pt Acesso em 13 set. 2026
[4] YAMAMOTO, Erika. Escritório da USP definirá os parâmetros para o uso da IA na rotina da Universidade. Jornal da USP, 2026. Disponível em: https://jornal.usp.br/comunicados/escritorio-da-usp-definira-os-parametros-para-o-uso-da-ia-na-rotina-da-universidade/ Acesso em 13 set. 2026
[5] YAMAMOTO, Erika. Reitores das seis universidades públicas paulistas discutem os desafios para os próximos quatro anos. Jornal da USP, 2026. Disponível em: https://jornal.usp.br/institucional/reitores-das-seis-universidades-publicas-paulistas-discutem-os-desafios-para-os-proximos-quatro-anos/ Acesso em 13 set. 2026
[6] YAMAMOTO, Erika. Reitores das seis universidades públicas paulistas discutem os desafios para os próximos quatro anos. Jornal da USP, 2026. Disponível em: https://jornal.usp.br/institucional/reitores-das-seis-universidades-publicas-paulistas-discutem-os-desafios-para-os-proximos-quatro-anos/ Acesso em 13 set. 2026
[7] CRUZ, Adriana. Fuvest comemora 50 anos com homenagens a dirigentes e premiação de concurso de capas. Jornal da USP, 2026. Disponível em: https://jornal.usp.br/institucional/fuvest-comemora-50-anos-com-homenagens-e-premiacoes/ Acesso em 13 set. 2026
[8] COSTA, Claudia. USP atualiza carta de serviços à sociedade com destaque para inclusão, inovação e transparência. Jornal da USP, 2026. Disponível em: https://jornal.usp.br/universidade/usp-atualiza-carta-de-servicos-a-sociedade-com-destaque-para-inclusao-inovacao-e-transparencia/ Acesso em 13 set. 2026

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O problema
Em 2025, alguns de nós e outras/os colegas já aprovadas/os, redigimos uma Carta Aberta à Fuvest, que pode ser consultada aqui: https://www.change.org/p/carta-aberta-%C3%A0-fuvest
Nosso objetivo, à época, bem como o deste ano, era cobrar uma postura mais responsável da Fundação Universitária para o Vestibular em relação às suas comunicações e ao seu compromisso com todo mundo que deseja ingressar na Universidade de São Paulo. O movimento foi bastante interessante em dois sentidos: no da escrita, que nos fez crescer muito, mas principalmente no político, que nos mostrou que, juntos, nós todos, todas e todes, estudantes, temos mais força e voz.
De 2025 para cá, novas demandas apareceram, algumas inseguranças se complexificaram e nos sentimos impelidas/os a, então, novamente, abrir uma conversa com a Fuvest. Enquanto as comunicações e o acesso à informação priorizarem as instituições de ensino particulares e os boatos, quem é que pode, verdadeiramente, “vencer pela educação” como propõe o novo slogan da Fundação?
Convidamos todo mundo a conhecer os pontos que consideramos importantes e a assinar conosco a carta a fim de exigir posturas responsáveis, mas, especialmente, aquilo que são direitos públicos.
1) Quem somos nós e o que desejamos
Nós, que escrevemos esta carta aberta à Fuvest, somos um grupo de estudantes orientadas/os por docentes. Buscamos uma maior transparência em relação às mudanças que ocorrem na banca e uma confirmação de que a principal forma de ingresso na USP não usará inteligência artificial para elaborar questões e para corrigir redações, posto que há uma ampliação da utilização das ferramentas digitais na área da educação; além disso, queremos a isenção da taxa dos simulados aplicados presencialmente para pessoas de baixa renda visto que a barreira econômica não as permite simular a situação oficial da prova.
Essa manifestação acontece em conjunto com a classe educadora, pois uma maior transparência é importante também para esse grupo que tem como foco preparar alunas e alunos para ingressar na Universidade de São Paulo. Isso porque, sem o acesso pleno ao que é esperado de alguém do Ensino Médio, as/os professoras/es enfrentam dificuldades para elaborar os materiais que serão posteriormente utilizados em sala de aula.
2) A motivação
Circula pelos cursinhos a informação não confirmada de que a Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest) teria adquirido, por importação, um software de inteligência artificial para que esse desempenhasse a formulação das questões dos simulados – aplicados durante esse ano – e das provas oficiais, algo que merece atenção.
Se, de fato, essa ação for verídica, a pergunta que fazemos é: até que ponto isso é ético e quais são os perigos de uma possível utilização dessa tecnologia? Por entendermos que essa não seja uma instituição qualquer, afinal, é referência na elaboração de vestibulares há 50 anos, enxergamos como essencial, e de nosso direito, discorrermos sobre algumas das inúmeras problemáticas que isso pode acarretar.
Uma primeira questão a ser pensada é a suscetibilidade que IAs apresentam no que diz respeito ao processamento de informações incorretas, sejam de cunho acadêmico ou não. Em um exame tão concorrido e relevante para a educação nacional, abrir margens para que isso aconteça é prejudicial à credibilidade da prova e à preparação emocional de vestibulandas/os.
O distanciamento prova-estudante que esta possível decisão culminaria também é algo extremamente preocupante. Isto é, um conjunto algorítmico de dados parece não selecionar de maneira confiável aquilo com que uma pessoa concluinte do Ensino Médio efetivamente teve contato e, principalmente, não opera considerando como este aprendizado se deu e qual sua profundidade. Em outras palavras, não pondera como cada tópico foi abordado no ensino público e no privado, por exemplo. Este risco de não-dimensão, entretanto, é drasticamente reduzido quando se tem um docente humano elaborando questões de sua área de atuação.
Um prompt, comando dado às inteligências artificiais, por mais específico que seja, perde contornos humanos quando, justamente, é elaborado por uma automação inteligente. Na coletânea da Fuvest de 2020, na qual a proposta era "O papel da ciência no mundo contemporâneo", vocês nos convidaram a pensar acerca da grandiosidade que é a ciência para a humanidade, ciência esta pesquisada, elaborada e produzida por indivíduos pesquisadores, pessoas que se debruçam nos estudos e que, de fato, entendem sobre o que escrevem. Por que, então, a possível deslegitimação de sujeitos tão relevantes à educação em um processo que deveria ser levado com seriedade? Quais os ganhos dessa perda?
Além disso, a USP, como uma das mais renomadas universidades brasileiras, serve de espelho tanto para a produção quanto para a aplicação de novos conhecimentos. Portanto, o suspeito manuseio de IA – sem a devida comunicação à sociedade e sem garantia de decisivo fator humano na elaboração e na correção do exame – no principal processo seletivo de entrada à graduação e em seus simulados responsabiliza a instituição como propulsora de um comportamento acrítico e irreflexivo nas práticas científicas nacionais.
Essa dinâmica, entretanto, não é a propagada nos seus meios de comunicação, nos quais a Universidade defende uma utilização eticamente comprometida e segura e reconhece a imprescindibilidade da presença de profissionais – humanos –, o que pode ser corroborado pela fala de um integrante da Pró-Reitoria de Graduação (PRG) ao apresentar a nova disciplina sobre o uso da IA na vida acadêmica:
“A disciplina expressa uma posição da Pró-Reitoria diante de um tema que já atravessa a vida acadêmica. A inteligência artificial está presente nas formas de estudar, escrever, resolver problemas, realizar atividades de pesquisa e inovação e produzir conhecimento. Por isso, a Universidade precisa oferecer referências para que seu uso ocorra com critério, responsabilidade e transparência. A proposta não é apenas ensinar a utilizar ferramentas, mas formar estudantes capazes de compreender seus limites, avaliar criticamente seus resultados, reconhecer implicações éticas e assumir responsabilidade intelectual pelo que produzem. A IA pode apoiar o percurso formativo, mas não substitui o estudo, a autoria, o esforço de elaboração nem a mediação docente. Ao oferecer uma disciplina aberta a todos os cursos, a PRG reafirma que esse debate pertence à graduação como um todo e deve estar subordinado aos fins formativos da Universidade”, afirma o pró-reitor de Graduação, Marcos Garcia Neira.1
3) E as/os professoras/es? E o que temos chamado de educação? Não vamos respeitar nada disso?
Tendo como base essa declaração do pró-reitor, questionamo-nos se a tentativa de educar alunas/os sob a justificativa de um uso "responsável" das ferramentas digitais não acaba, consequentemente, naturalizando a presença da inteligência artificial no ambiente educacional. Essa possível validação institucional abre margem para a capilarização de um uso nocivo da tecnologia e, posteriormente, para a contínua fragilização da figura do corpo docente.
Ainda que existam discursos que vinculam a IA à democratização do conhecimento e à promoção da autonomia, esse raciocínio enfrenta barreiras ao passo que essas tecnologias fazem o uso de bancos de dados que contêm informações que podem não cumprir o rigor científico ou não ter sua veracidade confirmada. Observado a partir dessa perspectiva e dado seu caráter ainda embrionário, o uso da IA transmite insegurança a docentes e a discentes sobre sua capacidade de integrar o processo de formação crítica que a universidade deseja. Isso porque, se a definição de educação, presente no slogan “vencerás pela educação“, for o estímulo à autoria — competência que a IA não é capaz de exercer, mas que, mesmo assim, é cobrada pela banca na avaliação da redação — e à construção de um pensamento mais complexo, o uso dessas ferramentas não vai ao encontro do que a instituição diz esperar de estudantes.
Afinal, como esperar que se vença sem saber as regras? Ou com regras que mudam silenciosamente a cada nova edição do vestibular? Com qual rede de apoio professoras/es criarão seus materiais? Serão elas/es substituídas/os? Se a definição de educação, então, para a Universidade, for o desenvolvimento do pensamento crítico, o uso irresponsável da IA não é compatível com esse valor defendido.
Nos é curioso também, ainda sobre o slogan e suas promessas tácitas e explícitas, que o sentido da palavra “vencedores” – parâmetro de um sistema desigual que naturaliza a existência de “perdedores” – seja criticado no livro ‘’Quincas Borba’’ – escolhido como parte da lista de leitura obrigatória da Fuvest de 2022 a 2025 –, pois a obra ridiculariza a ideia de que “aos vencedores” sejam destinadas “as batatas”. No nosso caso: aos vencedores, serão destinadas práticas mecanizadas e metrificadas por algoritmos digitais manipulados por “big techs” estrangeiras?
4) Incômodos anteriores com a redação
No ano passado, a Fuvest divulgou que a prova passaria por mudanças, podendo cobrar novos gêneros textuais. A justificativa dada pela Fundação sobre a modificação no formato do vestibular se pautou no alinhamento às diretrizes da BNCC; contudo, como tal alteração se daria e o esclarecimento sobre quais seriam as novas exigências da redação permaneceram obscuros. A fragmentação das informações divulgadas pela instituição, que ora são colocadas no site e ora no Instagram, não expande a prática comunicacional da banca e nem democratiza seu acesso, mas deixa lacunas.
Na última edição do vestibular, a Fundação não havia informado em nenhum veículo de comunicação a mudança nas notas da prova de redação, por exemplo. Assim, candidatas e candidatos realizaram o exame com a expectativa de que seus textos fossem avaliados na escala de 0 a 50. Porém, ao serem divulgados os resultados, foi evidenciado que as redações haviam sido corrigidas com uma grade diferente daquela utilizada habitualmente. Após desencadear um grande cenário de pânico entre estudantes, a banca se manifestou publicamente pelo Instagram, lançando uma nota de esclarecimento que confirmava a alteração nos critérios de correção. Embora a nota tenha sido recalculada de forma proporcional para atingir o antigo valor, o dano à credibilidade da banca e o abalo emocional das alunas e dos alunos – ao verem suas notas diminuídas em comparação às dos anos anteriores – não passaram ilesos, como afirmou a banca ao garantir que tal falha não traria prejuízos.
Gustavo Mônaco, atual diretor executivo da Fuvest, ao ministrar palestras em cursinhos privados na cidade de São Paulo, acentua ainda mais essa atmosfera de insegurança nos processos comunicativos, visto que os dados apresentados nesses locais não foram divulgados. Essa assimetria, que permite apenas àqueles que frequentam instituições privadas de elite ter contato direto com a banca, “camarotiza” o direito à informação pública.
O que nos permitiu essa relação foi o que aprendemos com a proposta de redação da Fuvest de 2015, na qual fomos convidados a refletir sobre a “Camarotização da sociedade: a segregação das classes sociais e a democracia”. A coletânea era composta de textos que definiam o termo “camarotização” e demonstravam como esse conceito acontecia no cotidiano. A mesma banca, então, que anos atrás nos ensinou os impactos que a hierarquização da sociedade tem na construção dos ideais democráticos, hoje relativiza quem pode ter acesso às explicações sobre as mudanças na prova.
5) Sobre o simulado
Em 2005, à luz do tema “Descatracalização da vida’’, também fomos instigados a pensar criticamente sobre um modo de operar que libera o acesso a recursos (a exemplo da educação de qualidade) a um grupo hegemônico e o barra àquelas pessoas desfavorecidas financeiramente. Anti-democrática, essa lógica se mantém presente à medida que a banca disponibiliza a aplicação presencial do simulado por um valor inacessível (R$150) a uma classe subalternizada, sem proporcionar políticas que possibilitem uma isenção da taxa. Assim, é, mais uma vez, incongruente que a mesma banca que tem o poder de fomentar um debate desta natureza promova ela mesma a “catracalização” do conhecimento. Por isso, a “descatracalização” é um dos nossos pedidos, pois desejamos uma maior equidade entre estudantes que buscam ingressar na Universidade.
As informações fornecidas nos canais oficiais são incompletas e as atitudes do diretor executivo não são condizentes com a de alguém que representa a instituição responsável pelo ingresso na USP. A falta de delimitação clara sobre a organização da prova e dos simulados ressalta o posicionamento antiético que os responsáveis pela instituição têm direcionado ao corpo discente e docente. Diante de tamanhas inconstâncias, exigimos que a Fundação se comprometa em exercer um comportamento transparente, honesto e igualitário.
6) E a qualidade? Como fica?
A Fuvest, um dia, já nos forneceu ferramentas não apenas essenciais, mas poderosas, como as densas formulações das provas de redação que já apresentamos.
Ao analisarmos as frases temáticas e as coletâneas antigas, notamos que havia um maior empenho em trazer textos e informações relevantes para a escrita. A seleção de excertos, assim, cumpria o importante papel de inspirar estudantes e promover reflexões para além do vestibular. Apresentamos, a título de exemplo, além dos já elencados, a formulação “Educação básica e formação profissional: entre a multitarefa e a reflexão” (Fuvest 2024), que permite examinar a maneira como temos vivido – sem tempo para o ócio e para pensar. Com clareza, imaginamos, temas como esses se mostram indispensáveis na construção de quem seremos enquanto estudantes, de quem seremos enquanto seres políticos.
A preguiçosa frase temática do último simulado, no entanto, (a saber: “Cultura e culinária”) resulta em uma descredibilização da prova uma vez que, sem relações estabelecidas entre as palavras, a correção provavelmente precisará abrir margem para uma maior variedade de abordagens generalistas das produções, ao passo que isso também torna nebulosa a régua de comparação, pois textos muito diferentes entre si poderão chegar à banca corretora.
Ao olharmos a outra opção fornecida pela banca – formulação de um texto narrativo que descreva, de modo introspectivo, os pensamentos de uma mulher ilustrada em uma pintura –, notamos uma proposta infantilizada que não possui contornos textuais bem delimitados, pois não define o gênero para a escrita (como crônica ou diário). Logo, por não demarcar um contexto de circulação, enfrentará uma correção – esperamos que humana – muito subjetiva, uma vez que não há uma elaboração suficiente para que a banca possa fazer uma avaliação do texto de forma unificada.
Essa tentativa de implementar uma outra alternativa para além da dissertação – que, como vimos, não foi efetivada de uma maneira responsável, pois nem a formulação de um gênero foi elaborada pela banca – mostra o quanto essa lógica pode acabar por afetar candidatas/os que desejam redigir a dissertação-argumentativa.
Não tendo acesso por meios oficiais a diferentes redações bem avaliadas pela banca, estudamos com o que nos é fornecido voluntariamente por quem já esteve no nosso lugar. Assim, observamos, com base nas cartilhas divulgadas por ingressantes no curso de Medicina na última edição do vestibular – via @desempenhosmed no Instagram –, que quem obteve uma nota maior na redação foi quem optou por não fazer a dissertação, mas sim a carta. Essa análise, ainda que saibamos insuficiente, permite que pensemos o quanto desse resultado tem relação com a vontade da banca de promover uma maior adesão dos estudantes ao outro gênero disponibilizado.
Ainda, a desorganização e a falta de comprometimento foram também criticadas por diversos estudantes nos comentários de antigas publicações do Instagram oficial da Fuvest, o que demonstra que esse grupo não tinha informações necessárias sobre o processo seletivo. Tal queixa foi respondida de forma imatura e rude pela banca à época.
Com a ajuda da proposta da Fuvest 2021, cujo tema era “O mundo contemporâneo está fora de ordem?”, hoje ponderamos: a Fuvest está fora de ordem? Ou será que ela está muito bem inserida na ordem neoliberal? Quem serão os vencedores nessa lógica de educação marcada pela questão financeira?
Com isso em mente, solicitamos a divulgação oficial de, no mínimo, 3 textos modelo de cada proposta aplicada recentemente pela banca (a saber: pelo menos 3 dissertações e 3 redações do outro gênero tanto da Fuvest 2025 quanto do simulado aplicado em 2026), bem como em anos posteriores. Por meio disso, será possível entendermos os critérios da banca e nos prepararmos de forma eficaz para o exame.
7) Por que sabemos que nossas reivindicações são legítimas
Para que seja legítimo fazer reivindicações, é necessário lembrar que a USP é uma instituição pública e social. Quem nos ajuda a fundamentar isso é Marilena Chauí, filósofa e professora uspiana:
“A instituição social aspira à universalidade. A organização sabe que sua eficácia e seu sucesso dependem de sua particularidade. Isso significa que a instituição tem a sociedade como seu princípio e sua referência normativa e valorativa, enquanto a organização tem apenas a si mesma como referência, num processo de competição com outras que fixaram os mesmos objetivos particulares. Em outras palavras, a instituição se percebe inserida na divisão social e política e busca definir uma universalidade (imaginária ou desejável) que lhe permita responder às contradições, impostas pela divisão. Ao contrário, a organização pretende gerir seu espaço e tempo particulares aceitando como dado bruto sua inserção num dos pólos da divisão social, e seu alvo não é responder às contradições, e sim vencer a competição com seus supostos iguais.”3
Embora a ascensão em rankings globais seja positiva, uma preocupação anterior da instituição deve ser sobre aqueles que a compõem atual e futuramente. Imersos nessa operação, portanto, a USP e os órgãos associados a ela devem responder às demandas populares – a exemplo de uma isenção da taxa dos simulados aos vulneráveis economicamente, de uma maior transparência em relação às mudanças da banca e de um comprometimento em não usar inteligência artificial para a formulação e para a correção da prova.
Nesse contexto, a desconfiança sobre o uso de modelos de linguagem em grande escala pela Fuvest é válida e, se esse apontamento tiver alguma verdade, a instituição deve responder a esta contradição. Contradição porque, em 2026, a USP criou um escritório voltado à IA, teoricamente comprometido com a ética de seu uso:
“Escritório de Transformação Digital e Inteligência Artificial definirá as diretrizes e coordenará as ações voltadas para o uso responsável das tecnologias digitais na instituição
Princípios norteadores:
· Centralidade acadêmica: tecnologia a serviço da missão universitária;
· Ética, transparência e responsabilidade no uso de dados e da IA;
· Interdisciplinaridade e colaboração entre Unidades;
· Escala e sustentabilidade: soluções replicáveis e de longo prazo;
· Última decisão é do ser humano;
· Inclusão e capacitação da comunidade uspiana;
· Servir de referencial para iniciativas nacionais semelhantes.”4
Entretanto, a existência desta carta é uma manifestação da falta de transparência sobre o uso de IA pela Fuvest. Como, então, servir de referencial em nível nacional?
Uma das formas é a garantia da disponibilidade plena de informações às candidatas e aos candidatos, característica cuja importância a USP conhece, ao passo que enfrenta problemas semelhantes aos nossos quando se depara com a reforma tributária, o que percebemos por meio de uma fala do reitor Segurado durante a reunião do Projeto Métricas:
“O reitor da USP, Aluisio Segurado, reforçou que o principal desafio das universidades públicas paulistas, especialmente das três estaduais, é avançar na defesa da manutenção do modelo de financiamento baseado na cota fixa da arrecadação do Estado, que garante previsibilidade financeira e possibilita o planejamento a médio e longo prazo.
‘Esse desafio não é apenas dos dirigentes das universidades, mas é também de cada membro da Comunidade Métricas, que vem promovendo uma mudança de cultura institucional, enfatizando a gestão de dados como uma ferramenta de inteligência para o planejamento, o monitoramento e a avaliação de desempenho. É essa cultura que nos propiciará robustez nesse diálogo com a sociedade paulista, para mostrar como as universidades são estratégicas para o enfrentamento dos desafios contemporâneos, além de serem agentes de desenvolvimento econômico e social’, explicou Segurado.”5
De fato, a previsibilidade possibilita o planejamento. Ao aplicar esse raciocínio na situação por nós enfrentada, como poderemos nos preparar para uma prova que vem sofrendo constantes mudanças que nunca são expostas de maneira organizada e que mostram um descompromisso da banca com a qualidade do processo?
Ademais, outros pensamentos consoantes às ideias aqui expressadas foram levantados, os quais acreditamos que mereçam destaque:
“A reitora da Unifesp, Raiane Assumpção, chamou a atenção para a necessidade de que haja um processo de construção de métricas ‘com’ as pessoas e não ‘sobre’ as pessoas ou ‘para’ as pessoas.
‘As métricas têm que nos ajudar a pensar o lugar da universidade na sociedade, como ela contribui para o desenvolvimento social, econômico e político, e qual seu impacto na formação de pessoas. As métricas também devem se relacionar à missão da universidade como um todo – ensino, pesquisa e extensão, de forma indissociável. Por fim, também são necessárias métricas que estruturem o nosso modo de fazer, a nossa eficiência, que é um modelo de gestão diferente do setor privado’, explicou Raiane.
A reitora da UFABC, Paula Homem de Mello, alertou para a importância de pensar no desenvolvimento de métricas responsáveis. ‘Os dados podem ser manipulados e podem ser construídas métricas que podem induzir a políticas públicas e caminhos que não trarão benefícios à sociedade. Seria bom se pudéssemos também oferecer treinamentos e atualizações para que os vários setores da sociedade possam entender melhor o que são as métricas e, a partir daí, avaliar o papel da universidade, seu caráter transformador e sua importância na produção de novas tecnologias e políticas públicas’, defendeu a reitora.
Paula também falou sobre a experiência de ser uma universidade criada sem departamentos, com desafios, vantagens e aprendizagens que podem ser compartilhadas com as outras universidades paulistas.”6
O Projeto Métricas, antes um espaço focado na competição internacional, atualmente erige debates importantes sobre a dinâmica universidade-sociedade. É importante, no entanto, que eles não ocupem apenas o campo imaginativo. Concretizações acerca da responsabilidade com o corpo social devem ser realizadas.
As universidades paulistas possuem como núcleo fundamental a promoção do trabalho de pensamento e a delegação deste trabalho à inteligência artificial é uma autonegação da função social da instituição. “A Fuvest não apenas seleciona estudantes. Ela molda a própria identidade da USP.’’7, diz Gustavo Mônaco, ao celebrar os 50 anos do exame.
Evidencia-se, então, que a banca possui consciência de que o seu vestibular reflete na própria universidade. Aproveitando-se do silogismo do dirigente: se a identidade da USP é ditada pela Fuvest, talvez seja importante tratar o exame com o cuidado que merece, além de enxergar as vestibulandas e os vestibulandos como sujeitos que têm por direito a garantia de saber a competência da formulação do método seletivo, caso a USP tenha interesse nos adjetivos justa, igualitária e transparente ao se descrever.
Com intuito exemplar, referenciamos a Carta de Serviços da Universidade de São Paulo:
“Ao facilitar o acesso à informação, a Universidade reafirma seu papel como universidade pública, gratuita e de excelência, comprometida com o desenvolvimento científico, cultural e social do país, e reforça seu compromisso com a gestão responsável dos recursos públicos, com a prestação de contas e com o fortalecimento da relação com a comunidade.
Para a coordenadora do Egida, Renata Ferretti-Rebustini, ‘a Carta de Serviços da Universidade de São Paulo, em sua terceira edição revisada e ampliada, apresenta de forma clara, organizada e objetiva a pluralidade e diversidade das atividades, programas e serviços desenvolvidos na USP e oferecidos à sua comunidade interna e à sociedade em geral. Mais do que um catálogo de serviços, a carta representa um instrumento de transparência institucional, evidenciando o compromisso da USP com a prestação de contas para a sociedade e com a democratização do acesso à informação relacionada à sua atuação’, destaca.”8
O debate sobre a lisura da Fuvest é, no fundo, um debate sobre soberania, ciência e futuro intelectual. O cenário mundial nos convoca a refletir sobre a IA, mas não justifica corroborar com iniciativas precárias e potencialmente danosas. E muito menos lançar mão de expedientes que, sob os argumentos da celeridade e do progresso inevitável, desconsideram a prática ética da tecnologia e os impactos reverberados principalmente em vestibulandas/os.
8) Por fim, nossas exigências
- Garantia de que não haverá o uso de IAs em nenhum momento – seja na elaboração de questões de primeira e de segunda fase, seja na elaboração da prova de redação, bem como na correção delas.
- Isenção da taxa dos simulados às pessoas de baixa renda, permitindo, assim, a simulação da prova de maneira equitativa.
- Melhoria na maneira como a banca se comunica com o público, principalmente em relação às mudanças na prova – seja por meio das redes sociais, pelo edital ou pelo site oficial. Dado que existe um descaso e um caráter imaturo na utilização desses meios, a sensação que temos é de que algumas respostas são dadas apenas após muita insistência (como foi ano passado com a outra edição da Carta Aberta). O acesso à informação não é um favor, mas uma obrigação ética da instituição.
- Divulgação de pelo menos três redações bem avaliadas de cada modelo proposto.
9) Convocação
Convidamos toda a comunidade a se juntar a nós nessa empreitada: vestibulandas/os/es, docentes do EM e PV, docentes universitárias/os, familiares e todo mundo que tenha por objetivo a garantia da educação superior pública de qualidade. A carta aceita assinaturas e a sua faz diferença na composição deste coro.
Convocamos também os veículos midiáticos que se interessarem por noticiar o assunto a escolhas conscientes dos verbos manipulados para noticiar nossa ação. Não estamos “reclamando” de nada, como sugeriram em 2025, estamos exercendo o direito de manifestação.
10) Das nossas garantias
Para a escrita desta carta, não foi utilizada nenhuma ferramenta de inteligência artificial. Por isso, inclusive, estão nela marcas de muitas mãos e cérebros humanos coordenados numa escrita complexa. É assim que queremos o futuro.
[1] CRUZ, Adriana. USP oferecerá disciplina sobre o uso da inteligência artificial na vida acadêmica. Jornal da USP, 2026. Disponível em: https://jornal.usp.br/comunicados/usp-oferecera-disciplina-sobre-o-uso-da-inteligencia-artificial-na-vida-academica/ Acesso em 13 set. 2026
[2] DIAZ, Luccas. A Fundação reconhece falha de comunicação e explica que notas passaram por conversão proporcional; segundo a banca, nenhum candidato foi prejudicado. Guia do Estudante, 2026. Disponível em: https://guiadoestudante.abril.com.br/universidades/diretor-da-fuvest-explica-calculo-da-nota-da-redacao-apos-questionamentos-de-candidatos/?st_source=ai_overview Acesso em 19 set. 2026
[3] CHAUÍ, Marilena. A universidade pública sob nova perspectiva. Scielo, 2003. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/n5nc4mHY9N9vQpn4tM5hXzj/?lang=pt Acesso em 13 set. 2026
[4] YAMAMOTO, Erika. Escritório da USP definirá os parâmetros para o uso da IA na rotina da Universidade. Jornal da USP, 2026. Disponível em: https://jornal.usp.br/comunicados/escritorio-da-usp-definira-os-parametros-para-o-uso-da-ia-na-rotina-da-universidade/ Acesso em 13 set. 2026
[5] YAMAMOTO, Erika. Reitores das seis universidades públicas paulistas discutem os desafios para os próximos quatro anos. Jornal da USP, 2026. Disponível em: https://jornal.usp.br/institucional/reitores-das-seis-universidades-publicas-paulistas-discutem-os-desafios-para-os-proximos-quatro-anos/ Acesso em 13 set. 2026
[6] YAMAMOTO, Erika. Reitores das seis universidades públicas paulistas discutem os desafios para os próximos quatro anos. Jornal da USP, 2026. Disponível em: https://jornal.usp.br/institucional/reitores-das-seis-universidades-publicas-paulistas-discutem-os-desafios-para-os-proximos-quatro-anos/ Acesso em 13 set. 2026
[7] CRUZ, Adriana. Fuvest comemora 50 anos com homenagens a dirigentes e premiação de concurso de capas. Jornal da USP, 2026. Disponível em: https://jornal.usp.br/institucional/fuvest-comemora-50-anos-com-homenagens-e-premiacoes/ Acesso em 13 set. 2026
[8] COSTA, Claudia. USP atualiza carta de serviços à sociedade com destaque para inclusão, inovação e transparência. Jornal da USP, 2026. Disponível em: https://jornal.usp.br/universidade/usp-atualiza-carta-de-servicos-a-sociedade-com-destaque-para-inclusao-inovacao-e-transparencia/ Acesso em 13 set. 2026

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Abaixo-assinado criado em 20 de setembro de 2026