Crime contra a humanidade em Paraisópolis exige novo pacto de segurança pública

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Que desgraça ter que inscrever o massacre de nove jovens na nossa história, no ano em que o funk completa 30 anos no Brasil. Nossa comunidade está sem chão desde a madrugada do dia 1º de Dezembro de 2019. De um lado, famílias em pranto. Do outro, a tentativa das instituições e, principalmente, do Governador João Dória Jr., de se eximir da responsabilidade, culpando as vítimas pela sua própria morte.

Nessas três décadas de luta por autonomia, reconhecimento e respeito, tivemos de enfrentar o poder público em diversas ocasiões, como em 2017, quando tentaram enquadrar o funk como crime de saúde pública. Foi a nossa luta que barrou essa tentativa de estigmatização da juventude e da cultura periféricas. Foi a politização do movimento funk que, em 2016, conseguiu instituir o Dia do Funk no 7 de julho, data da morte do saudoso MC Daleste, assassinado a tiros enquanto se apresentava em São Paulo. Foi a politização do movimento funk que conseguiu emplacar a proposta que tramita hoje no Senado Federal, de reconhecimento do funk como patrimônio cultural do Brasil. Nós existimos, não só como culturalmente, mas politicamente também. E não vamos nos calar.

Apesar de difuso e segmentado em diversas vertentes, o funk reúne um público de cerca de 20 milhões de pessoas espalhado por todo o país. Quer dizer, ele é uma realidade, é uma cultura popular brasileira, queiram vocês ou não. E vocês querem funk, não querem é funkeiro. Nosso ritmo e estética servem de cenário para novelas (como a própria Paraisópolis); animam o auditório do Faustão; fazem a alegria das baladas da classe média-alta; e projetam internacionalmente a cultura brasileira de uma maneira que não acontecia desde a Bossa Nova.

Mas, se a cópia branca da cultura preta entra pela porta da frente, o original está aí para ser desprezado, proibido, inviabilizado... morto. Como bem disse um familiar de uma das vítimas: “Isso não teria acontecido assim, se essa festa fosse em Higienópolis”. Ele tem razão: bairros nobres recebem muito mais reclamações de barulho (de acordo com o G1, a região de Pinheiros fez quase 800 chamados no primeiro semestre de 2019, contra 60 de Paraisópolis), mas nunca têm suas festas interrompidas a bala paga pelo Estado. O preconceito e a repressão variam de acordo com o CEP. Mas se nem todos os moradores de condomínio são milicianos ou gente que enriqueceu de forma ilícita, por que nas favelas vocês acham que todo mundo é bandido?

A resposta é simples: porque este país mascara seu passado. A violência que sofremos nas margens é o saldo de 400 anos de escravidão e mais de meio milênio de racismo institucional e contenção da cultura negra. Já vimos este filme e estamos cansados de tanta desumanização, cansados de nascer com atestado de óbito. Não aguentamos mais ser encurralados simbólica e objetivamente, tratados com desrespeito, sempre na mira da polícia e do Estado genocidas. O caldo entornou. Vamos defender o funk, nossas vidas, nossa cultura e nosso o território, onde ela brota e do qual se alimenta. E vamos conquistar Justiça e dignidade, nem que tenhamos que morrer para isso. Afinal, se faz 500 anos que pagamos com a vida, o que mais temos a perder?

Apesar do ódio, da revolta e da frustração que sentimos, uma vez mais, abrimos a via do diálogo. Existem soluções para todos os “problemas” relacionados ao baile funk. O que não existe é vontade política de encará-los para além das mentiras populistas escondidas por trás do termo “segurança pública”.

. Para o uso ilícito de drogas (problema de saúde pública que afeta ricos e pobres), existem políticas de redução de danos.

. Para o som alto, é possível pensar na criação de espaços para a migração dos fluxos, diálogo com a comunidade e numa polícia comunitária capaz de conter conflitos no lugar de promover chacinas.

. E, por fim, para as letras que tanto incomodam: educação, saneamento básico, cidadania. Porque quem vive o caos canta o caos.

Em nome de Gustavo Cruz Xavier, 14 anos; Gabriel Rogério de Moraes, 20 anos; Mateus dos Santos Costa, 23 anos; Bruno Gabriel dos Santos, 22 anos; Eduardo Silva, 21 anos; Luara Victoria de Oliveira, 18 anos; Denys Henrique Quirino da Silva, 16 anos; Dennys Guilherme dos Santos Franca, 16 anos; e Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16 anos, exigimos:

. O compromisso do governador do Estado com uma investigação séria para descobrir detalhes do que ocorreu naquele 1º de dezembro;

. O atendimento às demandas da comunidade de Paraisópolis que, juntamente às famílias, busca respostas e soluções para que massacres como este não voltem a ocorrer.

. Um plano do poder público – com participação popular – que garanta a presença do Estado para além do seu braço armado e defina ações precisas para a regulamentação dos bailes espalhados pela cidade, com investimentos em infraestrutura e eventos, tudo isso garantindo a autonomia do movimento na promoção dos bailes.

. O respeito à cultura e às formas de expressão da periferia.

Reiteramos que esta é uma tentativa de diálogo. Talvez não haja outras. Porque sabemos que o que aconteceu em Paraisópolis renderia uma vaga no banco de réus do Tribunal Penal Internacional. Encurralar, apavorar e assassinar com crueldade nove jovens num evento festivo é um crime contra a humanidade. Estamos mobilizados e não descansaremos enquanto não obtivermos respostas, soluções e a admissão, por parte do poder público, de que sua política de segurança é um fracasso. Sem isso, o governo e a sociedade estão optando pela guerra civil em vez do diálogo.