Contra o jornalismo PARCIAL do Roda Viva

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  1. Um dos programas mais famosos da TV Cultura é o "Roda Viva". Criado em 1986, logo após o fim dos longos 21 anos de ditadura civil-militar no Brasil. Sua ideia inicial, por ser veiculado por uma  TV PÚBLICA, marcou a história do jornalismo brasileiro: antes do "Roda Viva", dificilmente os entrevistados eram submetidos a perguntas que os incomodava e sempre teve, em sua bancada, jornalistas com PLURALIDADE de pensamentos e ideias;
  2. As personalidades mais importantes do país e do mundo - desde Noam Chomsky, o escritor José Saramago, o ex-Presidente de Cuba, Fidel Castro, o advogado de defesa no processo de impeachment da  ex-Presidenta Dilma Rousseff, José Eduardo Cardozo, até Paulo Skaf (Presidente da FIESP), líderes da direita liberal como Roberto Campos e a advogada de acusação no impeachment de Dilma, Janaína Paschoal. TODOS os ex-Presidentes da República, durante ou após o exercício de seus mandatos, foram entrevistados por esse programa, o qual contribuiu muito para com a democracia brasileira;
  3. É LAMENTÁVEL os rumos pelos quais o Programa Roda Viva tem passado nos últimos tempos. Citamos como exemplo o debate sobre a Reforma da Previdência, em 04 de fevereiro de 2019, composto APENAS por defensores da reforma proposta por Bolsonaro. Se antes havia desconfianças de que o programa praticava JORNALISMO PARCIAL em defesa de teses da extrema-direita, tudo se confirmou nos últimos anos - sobretudo após intervenção direta do Governo do Estado de São Paulo, quando o ex-Governador José Serra foi confrontado pelo ex-mediador do Programa, Heródoto Barbeiro, sobre os altos preços do pedágio nas rodovias paulistas;
  4. O ex-Juiz Sérgio Moro volta a ser entrevistado pelo Roda Viva em 20 de janeiro de 2020, já como Ministro da Justiça do governo Bolsonaro. Nesse mesmo dia, a TV Cultura apresenta a nova mediadora do "Roda Viva": Vera Magalhães que, em sua trajetória na rádio Jovem Pan, chegou a afirmar que "Sérgio Moro falou, de fato, que utilizava auxílio-moradia com a desculpa de que não recebia aumento salarial e isso está errado", mas concordou que "a crítica deve ser branda, pois já prestaram bons serviços no combate à corrupção, sobretudo em governos do PT", ao ponto de sugerir ao ex-Juiz que se retratasse publicamente para manter seu nome imaculado;
  5. O renomado jornalista Glenn Greenwald, ganhador do Pulitzer do jornalismo, é um dos profissionais mais respeitados do mundo e vem investigando toda a corrupção que envolvia a Operação Lava Jato e, em seu comando, o então Juiz Sérgio Moro, que em verdade agia como ACUSADOR - ao ponto de indicar o que os Procuradores Federais chefiados por Deltan Dallagnol onde provas poderiam ser encontradas para incriminar, acima de tudo, membros do PT e o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva;
  6. Dentre os entrevistadores selecionados pela TV Cultura estão Felipe Moura Brasil, organizador do livro "O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota", o qual traz textos redigidos pelo guro intelectual de Jair Bolsonaro, o astrólogo Olavo de Carvalho; Alan Gripp, diretor de Redação do jornal "O Globo", que já elegeu Sérgio Moro como "homem que faz diferença" em favor do Brasil; Andreza Matais (diretora do Estadão em Brasília) foi uma das primeiras a afirmar que as fontes obtidas por Glenn Greenwald sobre os diálogos vazados da Operação Lava Jato eram "produto de crime", insinuando que Moro havia sido vítima de "hackers criminosos", de forma a validar a narrativa do ex-Juiz, e publicamente elogiar sua gestão como Ministro, mesmo diante de tantos escândalos de corrupção no governo Bolsonaro; há alguns anos vem sendo chamada de "especialista em criar intrigas antipetistas", como, por exemplo, noticiar que a cúpula do PT defendeu que Lula fosse para a Rússia a fim de evitar sua prisão, ou -há 10 anos - que dois filhos de Lula eram "proprietários de holdings milionárias" sem quaisquer provas;
  7. Leandro Colon, diretor da Folha de São Paulo na sucursal de Brasília, possui algo em comum com os demais jornalistas citados: tornaram-se críticos do governo Bolsonaro, mas apoiadores de Sérgio Moro, buscando deslocá-lo da imagem do Presidente da República, cuja rejeição - com apenas um ano de mandato - é a pior de quaisquer outros Presidentes eleitos do Brasil com o mesmo período. Por fim, Malu Gaspar (Revista Piauí), em sua obra Tudo ou Nada - Eike Batista, na qual traça a biografia do ex-bilionário, não deixa de esconder sua paixão pela Operação Lava Jato e, consequentemente, pela figura de Sérgio Moro;
  8. Não se exige nem se questiona que os jornalistas sejam imparciais, pois ninguém o é; o jornalismo, por sua vez, DEVERIA SER "IMPARCIAL", ao menos numa rede pública de televisão. Como fazê-lo? É simples: convidando nomes do jornalismo brasileiro e/ou estrangeiros que sejam críticos do Ministro da Justiça, Sérgio Moro. Esta foi, historicamente, a marca registrada do "Roda Viva". A TV Cultura e o erário público, que sustenta a TV e sua Mantenedora (Fundação Padre Anchieta);
  9. Diante de tais informações, o programa "Roda Viva", outrora muito conceituado por ser, de fato, um local marcado pela pluralidade e divergências (por vezes radicais) de posicionamentos, parece agora conceder palanque político a Sérgio Moro, como se todos estivessem em uma roda de amigos a conversar e, em assim agindo, promover - em linguagem coloquial - o chamado "jornalismo chapa-branca", qual se afirmou bastante nos últimos dias;
  10. Se esta é a nova política direcionada ao Programa Roda Vida, que este SE ASSUMA como plataforma de lançamentos político-partidários, ou seja REFORMULADO EM TODOS OS SEUS TERMOS, para a volta às suas origens, ainda em 1986. Por ora, apenas estamos a BOICOTAR A AUDIÊNCIA DO RODA VIVA, como protesto dos contribuintes em financiar, com dinheiro público, a promoção política e personalíssima da figura de Sérgio Moro! Todos os subscritores desta petição demonstram aqui seu repúdio à atitude de não trazer algum jornalista do The Intercep Brasil, tendo em vista tudo o que sua equipe já trabalhou e estudou os bastidores da Operação Lava Jato, de forma a retirar-lhe certa aparência heróica que alguns veículos da imprensa lhe davam.

Prof. Dr. Renato de Almeida Oliveira Muçouçah
Mestre e Doutor em Direito pela Faculdade de Direito da USP (Largo São Francisco). Ex-Professor da Faculdade Nacional de Direito da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Professor Adjunto III da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo)