QUEREMOS UMA SOCIEDADE DE PEDIATRIA SEM CONFLITO DE INTERESSES.

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Aos pediatras do Brasil, representados por Dra Luciana Rodrigues da Silva, presidente da SBP,

Saudações Drs.


É com bastante esperança e assertividade que nós, mães, pais, avós, avôs e todos aqueles envolvidos com cuidados diretos e o bem estar da criança, iniciamos este diálogo com a SBP.


Saibam que nossas palavras não são de afronta, julgamento ou desprezo. Somos representantes da sociedade civil com bastante disposição e afeto na procura pelo melhor caminho para as nossas crianças. Somos muitos e acreditamos que temos em comum com a SBP esse brilho nos olhos por uma infância mais saudável.


Para nós, tem sido notável a trajetória da SBP em melhorar o apoio ao aleitamento materno nos últimos anos. Temos uma das sociedades pediátricas mais atuais e com melhores programas de suporte em puericultura no mundo. É preciso reconhecer.


Entretanto também é preciso pontuar que, há muitos anos, a estreita relação entre esta sociedade pediátrica e a indústria de alimentos infantis, especialmente no segmento dos “leites em pó”, muito nos incomoda e traz inseguranças.


As famílias aqui representadas, quase todas, passaram por processos muito árduos para o estabelecimento do aleitamento materno. Amamentar hoje, em nosso país, é uma luta diária contra uma cultura não habituada, uma sociedade preconceituosa, profissionais pouco atualizados e muita estratégia de marketing das empresas que vendem produtos que competem com o aleitamento materno.


Muitos de nós perdemos a batalha, ficamos no caminho. Cerca de 64% das famílias que aqui assinam, fomos vítimas de todo um sistema social e econômico despreparado para o apoio ao aleitamento. O terror em ter nos braços um filho que passa fome, alimenta os lucros industriais e a ansiedade de uma sociedade que não sabe fabricar soluções e sim apenas comprá-las.

Desde o primeiro dia, ainda nas maternidades, somos impelidos ao oferecimento da fórmula quando os bebês dormem demais, quando não pegam o peito, quanto choram demais ou quando a glicose não é das melhores. Após a alta, muitos profissionais culpam o leite materno pelo pouco sono, pelo choro, pelos gemidos e pelo cansaço materno. O ganho de peso se não for exatamente igual ao da curva de crescimento, é indicação de fórmula. O peito murcho é indicação de fórmula. O retorno ao trabalho é indicação de fórmula. Estamos sempre cansados. É uma batalha que começa ao nascimento, pelo direito da hora de ouro, até à decisão do desmame. Somos resistência, até porque não há outra opção. Ou é vigiar constantemente ou perder a batalha. Apenas a resiliência é capaz de nos levar ao sucesso neste campo minado.


Sabemos que vocês conhecem esta luta, afinal, muitos nos acompanham e apoiam.

E, apesar de todo apoio, precisamos alertar que nos falta proteção.
Falta assinalar armadilhas, falta reconhecer e destacar as perigosas seduções, falta nos blindar das soluções fáceis.


Qual “leite” em pó não é milagroso, com todos os nomes e siglas sugestivos das embalagens, no meio de tamanhas dificuldades? Qual “leite” em pó com ARA, DHA, OMEGAS etc. não parece ser melhor do que nossos “leites fracos” no meio da loucura de um puerpério?


Por isso, quando observamos este estreitamento da SBP com empresas como Danone e Nestlé, é inevitável que a imagem e a confiabilidade da instituição fiquem comprometidas perante todos nós, membros da sociedade civil.


Não é preciso levantar literaturas para saber que, a cada dia, mais crianças estão sedentárias, obesas, com alterações em suas taxas de gorduras, diabéticas. E apenas isso já seria um motivo bastante justo e sério para que a SBP não quisesse associar sua imagem a estas empresas. Não causa estranheza a vocês ter um curso de capacitação em nutrição dirigido por uma empresa que é parcialmente responsável por estes desfechos desfavoráveis em saúde?


Se pensarmos no aleitamento então, é inegável o quanto estas empresas estão fortemente associadas ao insucesso da amamentação. O mercado das fórmulas visa expansão constante, com metas e inovações que objetivam vender mais. Ao mesmo tempo, estas empresas têm procurado melhorar suas imagens através da afirmação de que não competem com o leite materno e sim entre si, e que são apoiadoras inegáveis do melhor alimento do mundo que é o leite materno. O que é uma inverdade, claro. Hoje somos apenas 36% de famílias que conseguem o aleitamento materno exclusivo e temos a convicção de que qualquer melhora nestes índices, em nosso país, levará à diminuição nos lucros das indústrias de fórmulas. Como seremos capazes de confiar em pediatras formados em cursos criados por esta indústria? Qual o interesse terão estes acionistas (sim, são acionistas que regem estas empresas e não cientistas) em ajudar no apoio real, na defesa e na promoção do aleitamento, se isso significa diretamente perda de lucro e mercado?

Entendemos que não há má fé nas ações da SBP. Mas gostaríamos muito de alertar as inegáveis consequências diretas de associações como estas, mesmo que movidas pelos melhores interesses que acreditamos ser os de formar e informar aos residentes pediátricos com qualidade.


Para nós, todo este cenário se torna mais uma dificuldade nesta batalha, mais um problema. Entrar em cada consultório médico e obrigatoriamente termos que nos manter atentos para selecionar aquele profissional que teve capacidade de ouvir e não se influenciar daquele profissional que foi seduzido pela via da reciprocidade, será ainda mais desgastante.


Entendemos a autonomia médica e a inteligência da maioria dos profissionais formados na área. Mas também entendemos a inteligência e a perspicácia das indústrias e de seu marketing.


Gostaríamos, portanto, de pedir encarecidamente que a Sociedade de Pediatria revisse esta decisão e todas as outras que tangem à sua relação com indústrias de alimentos. É uma questão de confiabilidade e de manter boas relações. A relação entre pediatras e famílias deve ser sempre priorizada e não a relação entre pediatras e a indústria de fórmulas, independente das motivações. E estamos certos de que este é um ponto em acordo entre todos nós.


Agradecidos,