MANIFESTO DE EX-ALUNOS DA PUC-RIO EM DEFESA DA DEMOCRACIA

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MANIFESTO DE EX-ALUNOS DA PUC-RIO EM DEFESA DA DEMOCRACIA


“Uma casa dividida não permanece em pé”. Essas palavras marcaram o discurso histórico de Abraham Lincoln, no ano de 1858, em um contexto de extrema polarização em torno da escravidão nos Estados Unidos. Lincoln alertava sobre os efeitos deletérios que a falta de união da sociedade poderia trazer à própria existência do país. Não à toa, a Guerra de Secessão norte americana estourou poucos anos depois.


De fato, a desunião impede qualquer projeto de dar certo. Não seria diferente no caso de um Estado. Como brasileiros, sabemos muito bem que, nos últimos anos, as crescentes dificuldades de se chegar a consensos nacionais sobre questões elementares vem minando o futuro da nossa casa maior, o Brasil. O problema é que atualmente essa polarização começa a se transformar em radicalização e intolerância. Esse quadro é incentivado, em grande medida, pela candidatura de Jair Bolsonaro, que desestrutura também a união interna de pequenas casas que compõem essa grande casa brasileira, como as famílias do país.


Diante do atual cenário de divisão social, nós, um grupo de ex-alunos, decidimos nos unir e iniciar um movimento de união de uma das nossas mais queridas casas, a PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro). Queremos dar um exemplo de união para o Brasil. Confiantes de que isso é possível, nós conclamamos todas e todos que, de alguma forma, fazem parte dessa universidade, uma das mais prestigiadas instituições educacionais brasileiras, a que se unam contra o que representa Jair Bolsonaro. Muitos de nós votamos em outros candidatos no 1º turno, mas agora é a hora de apoiar Fernando Haddad.


O sucesso inicial da candidatura de Jair Bolsonaro pelo PSL (Partido Social Liberal) é reflexo de uma sociedade que anseia desesperadamente por mudanças. Bolsonaro vende-se como a renovação de que o povo precisa, como alguém capaz de dar um choque de ordem social e de arrumar a economia nacional. Milhões de brasileiros acreditaram nesse discurso. Entretanto, isso não passa de ilusão.


O candidato Jair Bolsonaro está há mais de 28 anos no Congresso Nacional e aprovou somente dois insignificantes projetos de lei (uma dessas leis foi declarada inconstitucional no ano passado). Bolsonaro nunca foi um político de relevância. Já mudou de partido 8 vezes (filiou-se ao PSL para disputar a eleição presidencial). Muitos desses partidos estiveram envolvidos em grandes esquemas de corrupção. Seu discurso é fortemente baseado no combate à criminalidade, mas isso não se coaduna com o que ele efetivamente fez na Câmara dos Deputados. Nos últimos 4 anos, período que corresponde a um rápido aumento da violência no Rio de Janeiro, Bolsonaro destinou, como deputado federal, apenas 0,3% do valor de suas emendas parlamentares para a segurança pública do estado fluminense.


O presidenciável pesselista também se apresenta como alguém que irá resolver os problemas fiscais e econômicos do Brasil. Contudo, durante toda a sua vida política, foi a favor de leis que preservaram privilégios corporativos e ampliaram os gastos públicos demasiadamente. O próprio Jair Bolsonaro utilizou recursos públicos de maneira imoral ao se valer de auxílio-moradia quando não precisava de tal benefício e de maneira ilegal ao empregar funcionária-fantasma na Câmara Federal. Com relação à economia, esse candidato assume, de modo inacreditável e constrangedor, que entende pouquíssimo sobre o tema. Suas propostas econômicas não são claras, muitas delas são até contraditórias, e seu principal assessor econômico, Paulo Guedes, é constantemente desmentido publicamente. Por isso, muitos economistas influentes já argumentam que a candidatura de Bolsonaro simplesmente não tem um plano econômico para o país.


Outrossim, Jair Bolsonaro não será capaz de entregar o que promete em relação à paz social. Ao estimular a mentira, o preconceito, o ódio e a violência, representa uma ameaça direta aos valores da sociedade brasileira, como a tolerância, o respeito mútuo e os direitos humanos. Bolsonaro demonstra total desprezo pelos direitos das minorias. As suas falas extremistas, as quais desconsideram liberdades civis e políticas de determinados grupos, transformam-se rapidamente em ações violentas. Exemplos dessa onda de violência política, que, infelizmente, já estamos vivenciando, vêm sendo noticiados nos principais veículos de comunicação, como o cruel esfaqueamento e assassinato de um capoeirista em Salvador, após discussão política em que se posicionou de forma contrária ao candidato do PSL.


A candidatura Jair Bolsonaro também demonstra desprezo inequívoco às instituições nacionais, o que constrange o fortalecimento de nossa democracia, conquistada a duras penas. Por exemplo, Bolsonaro mostrou-se favorável à ditadura e à tortura e defendeu a ampliação do STF (Supremo Tribunal Federal) de 11 para 21 ministros, bem como o fechamento do Congresso Nacional. O perfil autoritário e pouco democrático de Bolsonaro é muito preocupante. A verdade é que dificilmente podemos acreditar que haja um real compromisso desse candidato com os ideais democráticos e com a ordem constitucional estabelecida em 1988.


Se tal candidatura desafia a própria ideia de Estado Democrático de Direito e de convivência harmônica entre os cidadãos, ela certamente põe em perigo os valores mais básicos que informam a missão da nossa PUC-Rio e que são compartilhados pelos seus alunos, quais sejam:


- a integração entre a vida acadêmica e a vida comunitária,


- o diálogo entre ciência e fé,


- a preservação da natureza, e


- a busca pela excelência acadêmica.


Primeiramente, a candidatura de Jair Bolsonaro desrespeita o meio ambiente. O próprio presidenciável confessou a intenção de acabar com o Ministério do Meio Ambiente, além de ter manifestado o desejo de retirar o Brasil do Acordo de Paris, por exemplo. Essas declarações vão de encontro à defesa que a PUC-Rio faz de um mundo cada vez mais sustentável. Uma universidade que se vangloria até da diversidade florestal de seu campus, como a PUC-Rio já o fez reiteradas vezes, não pode tolerar tamanha ameaça.


Além disso, Bolsonaro fortalece um discurso religioso fundamentalista e obscurantista, recebendo apoio social e político de pessoas que defendem que dogmas e tabus devem pautar o debate nacional sobre políticas públicas. Nesse sentido, estudos e pesquisas, necessários à resolução dos desafios do país, são relegados a um segundo plano. Cientistas, intelectuais, acadêmicos e pesquisadores são, consequentemente, desprestigiados. Assim, não há diálogo entre ciência e fé, mas o sufocamento da razão pela crença.


Como se não bastasse, é extremamente inquietante o extenso e conhecido histórico de declarações machistas, xenófobas, racistas e homofóbicas do presidenciável Jair Bolsonaro. Na realidade, esse candidato tem aversão a tudo o que muitos alunos da PUC-Rio e de outras universidades enxergam como um dos maiores trunfos da nossa universidade: a diversidade de seu corpo discente. As mais diferentes pessoas que transitam pelos pilotis da PUC-Rio são exatamente a chave que permite a integração dos mais diferentes pontos de vista, dando vida ao debate acadêmico. É exatamente a aceitação e a compreensão do diferente o que possibilita a integração entre a vida acadêmica e a vida comunitária.


Portanto, Jair Bolsonaro seria, paradoxalmente, uma renovação para pior. Uma vez presidente do Brasil, poderá agravar as mazelas do país e erodir os avanços experimentados nas últimas décadas. O antipetismo, a luta contra a corrupção e uma suposta defesa do liberalismo econômico, ideias-força daqueles que pretendem anular ou votar no candidato Bolsonaro, não são motivos para um salto no escuro. Além disso, o combate aos malfeitos e a economia não podem ser os únicos temas em discussão no país, ainda mais quando a democracia e cidadãos brasileiros estão ameaçados. Finalmente, o alarmismo de que um novo governo PT (Partido dos Trabalhadores) transformaria o Estado brasileiro em uma Venezuela não é crível. A despeito dos graves erros cometidos durante os 13 anos de governos petistas, as instituições democráticas puderam atuar livremente. O Judiciário e a Polícia Federal foram fortalecidos, e o Congresso funcionou normalmente. O Brasil já viveu muitas aventuras políticas mal sucedidas no passado, não precisamos de outra agora. Corremos sério risco de vivenciarmos de novo retrocessos políticos, econômicos, sociais, culturais e ambientais.


Queremos deixar claro que esta carta não significa apoio incondicional à candidatura de Fernando Haddad. Esperamos que essa reforce o seu compromisso com a redução das desigualdades sociais, com a reestruturação fiscal e econômica do país, com o desenvolvimento nacional, com o fortalecimento das instituições, com a independência dos poderes, com o combate à corrupção e com a defesa do meio ambiente. Apesar das críticas que muitos de nós compartilhamos em relação ao programa de governo e ao partido de Haddad, acreditamos que as franquias democráticas do candidato petista são melhores do que as do presidenciável pesselista. Portanto, entendemos que as restrições à candidatura de Fernando Haddad não podem transformar-se em desculpas para a neutralidade ou o voto nulo no 2º turno eleitoral.


Como disse Rui Barbosa, "entre os que destroem a lei e os que a observam não há neutralidade admissível". A ameaça fascista inflamada por Jair Bolsonaro impõe a união de todos os democratas e republicanos do país. A comunidade discente da PUC-Rio não deve deixar de posicionar-se neste momento. Sempre nos manifestamos e agora não será diferente. A nossa tradição é a da defesa da democracia. Preferimos ser oposição ao governo de Fernando Haddad do que resistência a Bolsonaro.


Por fim, nós, que não representamos ninguém além de um grupo de ex-alunos, apelamos à toda a comunidade da PUC-Rio (alunos correntes, ex-alunos, funcionários e professores), além de a todos os demais eleitores brasileiros, para que se unam e não deixem a candidatura bolsonarista prosperar. Agora é preciso apoiar o candidato Fernando Haddad. Devemos ser firmes na luta contra o autoritarismo e a intolerância. Não podemos normalizar a arbitrariedade e a relativização da nossa democracia. Queremos um país em que a ignorância não seja considerada virtude, o despreparo não signifique mérito, a incitação à violência não se torne rotina. Neste momento difícil, se nos mantivermos unidos e tivermos a coragem de enfrentar o ódio e o medo, poderemos superar nossas próprias fraquezas e, assim, qualquer dificuldade será transposta, como nos inspira o nosso lema Alis Grave Nil.



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