Manifesto das 343 ("Eu abortei")

Manifesto das 343 ("Eu abortei")

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Marcia BECHARA a lancé cette pétition adressée à Brasileiras

[A integralidade deste texto foi publicada há exatos 50 anos por Simone de Beauvoir na França, em 5 de abril de 1971, e dedeu início ao processo que levaria à maior conquista feminista da França no século 20: a legalização do aborto para todas. Na ocasião, o manifesto foi assinado por 343 personalidades públicas francesas, mulheres como Catherine Deneuve, Jeanne Moreau, Ariane Mnouchkine e Gisèle Halimi. Elas ficaram conhecidas por seus críticos na época como as “343 salopes”, ou as “343 putas”, título do qual sempre se orgulharam e que enchem de orgulho até hoje as mulheres francesas. A França homenageia no dia 5 de abril de 2021 os 50 anos da coragem destas mulheres que mudaram a vida de suas contemporâneas. Os números deste texto foram atualizados com os do Brasil]

Cerca de 1 MILHÃO de mulheres abortam todos os anos no Brasil*. Fazem-no em condições perigosas devido à clandestinidade a que estão condenadas, ao passo que esta operação, realizada sob vigilância médica, seria muito mais simples e segura. Há um silêncio contundente sobre essas milhões de mulheres. Eu declaro que sou uma delas. Eu declaro ter abortado. Assim como exigimos acesso gratuito aos métodos de controle de natalidade, exigimos o aborto gratuito.

Aborto. Uma palavra que parece expressar e limitar a luta feminista de uma vez por todas. Ser feminista é lutar pelo aborto livre e gratuito.

Aborto. Ele é visto como aquele negócio de mulherzinhas, algo como cozinhar, fraldas, algo sujo.

Lutar pelo aborto livre e gratuito parece ridículo ou mesquinho. Fica sempre aquele cheiro de hospital, comida ou de cocô atrás das mulheres.

A complexidade das emoções associadas à luta pelo aborto indica exatamente a nossa dificuldade de ser o que somos, a dificuldade que temos em nos convencer de que vale a pena lutar por nós.

Nem é preciso lembrar que parece algo normal não termos o direito de dispor de nossos corpos como outros seres humanos. No entanto, nossa barriga pertence a nós mesmas.

O aborto gratuito e aberto não é o objetivo final da luta das mulheres. Ao contrário, ele atende apenas ao requisito mais básico, caso contrário, a luta política não pode nem começar.

É de vital necessidade que as mulheres recuperem e reintegrem seus corpos. Elas são aquelas cuja condição é única na História: seres humanos que, nas sociedades modernas, não dispõem da livre disposição de seus corpos. Até agora, apenas escravos experimentaram essa condição.

O escândalo persiste. A cada ano, 1.000.000 brasileiras vivem na vergonha e no desespero. Mas a ordem moral não é perturbada. Gostaríamos de gritar.

O aborto livre e gratuito é:

parar imediatamente de ter vergonha do seu corpo, ser livre e orgulhosa do seu corpo como todos aqueles que até agora o usaram plenamente; não ter mais vergonha de ser mulher.

Um ego que se dilacera em mil pedaços é o que vivem todas as mulheres que têm que realizar uma experiência de aborto ilegal;

ser você mesma o tempo todo, não ter mais esse medo vil de ser “pega”, presa, de ficar desamparada com uma espécie de tumor na barriga;

uma luta excitante, na medida em que, se a vencer, só começo a pertencer a mim mesma e não mais ao Estado, a uma família, a um filho que não desejo;

um passo para alcançar o controle total da produção de crianças.

Mulheres como todos os outros produtores têm o direito absoluto de controlar todas as suas produções. Esse controle implica uma mudança radical nas estruturas mentais das mulheres e uma mudança igualmente radical nas estruturas da sociedade.

1. Eu terei um filho se eu quiser, nenhuma pressão moral, nenhuma instituição, nenhum imperativo econômico pode me forçar a fazê-lo. Este é meu poder político. Como qualquer produtor, enquanto espero por algo melhor, posso pressionar a sociedade através da minha produção (greve de crianças).

2. Terei um filho se eu quiser e se a sociedade em que estou dando à luz for adequada para mim, se ela não me tornar escrava dessa criança, sua ama, sua empregada.

3. Terei um filho se eu quiser, se a sociedade for adequada para mim e adequada para ele, eu sou responsável por ela, sem risco de guerras, sem trabalho sujeito a outras pessoas.

[Não à liberdade supervisionada]

A batalha que surgiu sobre o aborto está acontecendo nas costas das principais interessadas, as mulheres. A questão de saber se a lei deve ser liberalizada, a questão de saber quais são os casos em que se pode pagar o aborto, enfim, a questão do aborto terapêutico não nos “interessa” porque “não nos diz respeito”, não.

O aborto terapêutico requer "boas" razões para ser "permitido”. Resumindo, isso significa que devemos merecer não ter filhos. Que a decisão de tê-los ou não, não depende de nós mais do que antes.

Continua a operar aquele princípio em que é legítimo forçar as mulheres a ter filhos.

Mudar a lei, permitindo exceções a esse princípio, só a fortaleceria. A mais liberal das leis ainda regulamentaria o uso de nossos corpos.

O uso do nosso corpo não precisa ser regulamentado. Não queremos tolerâncias, pedaços do que outros humanos adquirem ao nascer: a liberdade de usar seu corpo como bem entenderem.

Iremos nos opor a qualquer lei que pretenda regular nosso corpo de alguma forma. Não queremos uma lei melhor, queremos sua abolição pura e simples.

Não pedimos caridade, queremos justiça. Há 100 milhões de nós aqui sozinhas. 100 milhões de “cidadãs” tratados como gado.

Para os fascistas de todos os matizes – quer eles se nomeiem como tais e nos espanquem ou quer eles se digam católicos, fundamentalistas, demógrafos, médicos, especialistas, juristas, “homens responsáveis” - nós dizemos que os desmascaramos.

Que os chamamos de assassinos do povo. Que os proibimos de usar o termo "respeito pela vida", que é obscenidade em suas bocas. Que somos 100 milhões, que lutaremos até o fim porque não queremos nada mais do que o nosso direito: a livre disposição de nossos corpos.

*DataSUS (Ministério da Saúde, 2020)

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